18 novembro 2007

Férias grandes

O Avô já tinha saído, aí pelas 5 da manhã, bem pela fresquinha, segundo ele. Até à Tapada eram uns 2 quilómetros a pé, por caminhos de terra que atravessavam a aldeia, onde homens e animais partilhavam os passos.

O Avô era muito poupado, aproveitando tudo o que a natureza dava, mesmo que fosse o desperdício de alguma natureza, como o estrume dos burros e dos cavalos, que ele recolhia religiosamente levando, tão precavido que era, uma pá e um saco para o depositar. Era para adubar a terra, dizia ele aos netos que lhe perguntavam, angélicos mafarricos, para que queria ele bostas de burro.

Eram os Cinco, todos os Verões, mesmo que o cão fosse a criança mais nova. Tendo entre os 12 e os 5 anos, caminhavam sozinhos de madrugada, durante cerca de 2 quilómetros, sem telemóvel, cotoveleiras ou joelheiras, sem água nem comida, sem adultos por perto, e ficavam a manhã inteira a subir aos cabeços, com sandálias escorregadias, a picarem-se nos cactos, a comerem fruta das árvores, cheias de pó, maduras ou verdes de mais, em quantidades industriais, a caírem e a ferirem os joelhos e as cabeças, a pegarem em lagartixas para se assustarem uns aos outros.

Não havia melhor coisa no mundo. As partidas de badminton no quintal, com a corda da roupa a servir de rede, os jogos de escondidas, em que o mais afoito e admirado por tal feito se escondia na pocilga dos porcos, pelo que ninguém o iria encontrar nunca, embora a retrete antiga, numa casinhota com aspecto infecto, e o galinheiro ou a coelheira, também fossem lugares a que poucos se arriscavam.

A adega e o forro, cheios de tralhas antigas, móveis estropiados, arcas em que os livros contavam histórias de um amor ridículo e proibido, como proibida era a leitura de qualquer livro que não fosse Uma família Inglesa, As pupilas do Senhor Reitor, As duas Mães e poucos mais, umas escadas imensamente perigosas, que rangiam horrores, não tinham corrimão e estavam às escuras, pregos ferrugentos, toneladas de pó branco e espesso, de muitos e muitos anos, que se viam pairando no ar, pela luz baça que entrava pelo telhado, uma enorme quantidade de perigos que eles adoravam e que ninguém parecia entender.

Abandonados à sua própria sorte mas inigualavelmente felizes.

(pintura de Andrew Macara: three boys with tyres)

4 comentários:

  1. Anónimo19:36

    Fantástico, Sofia.
    LS

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  2. Cristina Loureiro dos Santos21:30

    Lá me fizeste chorar outra vez lolol

    Adorei, Sofia!
    Quantas saudades... Consegues recordá-lo como ninguém.

    Beijinhos :))

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  3. josé simões23:31

    excelente!

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  4. Donagata00:44

    Como devem ter sido formidáveis esses verões! E, coisa estranha, como, mesmo crianças, aprendiam a lidar com os diversos perigos e a precaverem-se deles!!!
    Há coisas fantásticas, não há?

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