Li o livro de Zita Seabra (Foi assim) de um fôlego. Tem ritmo, é muito interessante e é um importante contributo para o conhecimento da nossa história recente.
É um livro de memórias, das memórias dela, escritas com paixão mas cuidadosamente. Não é um ajuste de contas com os seus camaradas, mas um ajuste de contas consigo própria.
Zita Seabra abraçou uma causa com ardor e fanatismo, a causa romântica da luta pela liberdade e pelo povo, pela igualdade, pela revolução socialista, pela tese científica da evolução para o comunismo. O Partido foi a sua casa, a sua vida, a sua religião. Conta a sua militância clandestina, a sua solidão, a sua certeza na vitória, o seu trabalho e vontade de se transformar numa revolucionária profissional. Com ela ficamos a conhecer o que era a vida de um oposicionista, de um militante comunista, o medo, as prisões, a repressão, a tortura, a solidariedade, o martírio de quem se entrega totalmente a uma ideologia, que tudo abarca e tudo molda a si própria. Não há dúvidas, a confiança é cega.
Ficamos também a conhecer o ostracismo a que são votados os traidores, aqueles que não aguentavam as torturas na prisão, os que não aceitavam o centralismo democrático, os que cediam aos apelos da classe burguesa. Ficamos a saber que as vítimas são aceitáveis, que os fins justificavam os meios, para que a ditadura do proletariado vencesse e houvesse um Homem Novo, numa sociedade sem classes.
Ficamos a saber da disciplina férrea, da organização primorosa, da multiplicação dos pequenos partidos satélites, da infiltração das associações académicas, dos sindicatos, dos militares, do secretismo, das conspirações, da alegria da libertação no 25 de Abril, da luta pela libertação dos presos políticos, da luta pela colectivização da terra, pelas nacionalizações, pelas barricadas, das manifestações, contra manifestações e provocações, das armas distribuídas pelos membros da UEC, das tentativas para que não houvesse eleições livres.
Ficamos a saber que o Partido deixou de usar a expressão ditadura do proletariado por razões tácticas, que queria um confronto, a sua revolução de Outubro, que contou as espingardas e que, em 25 de Novembro, desistiu por perceber que não venceria: um passo atrás, dois passos à frente.
Percebemos a luta por uma Constituição que moldaria ainda vários anos do pós 25 de Abril, o trabalho parlamentar subalternizado por Álvaro Cunhal, a justificação da execução de Sita Valles, a progressiva tomada de consciência de um rumo desajustado, a perda da fé.
Porque foi o abandono da fé no comunismo, no Partido e no Camarada, um processo doloroso e espaventoso mas totalmente necessário para a consumação da rotura.
Para quem, como eu, viveu esses tempos heróicos da pós revolução com intensidade e esperança, para quem nunca percebeu as viragens ideológicas de Zita Seabra, compreende agora melhor o que era pertencer a uma organização daquele tipo, com tanto de heróico como de terrível.
Não concordo com Zita Seabra, não me revejo nas suas posições, não percebo certas atitudes e opiniões. Mas reconheço-lhe o mérito de ter tido a coragem de viver como viveu durante tantos anos, missionária de uma causa que lhe pediu tudo e a quem deu tudo, e a coragem de se olhar, de se pôr em causa e de o revelar, com o mesmo espírito de missão.
Gostava que quem viveu aqueles anos, participou e conviveu com este pedaço da nossa história, dentro ou fora do PCP, contasse as suas memórias. Gostava que, em vez de se procurarem pequenos pontos de imprecisão, interpretações sobre o que quereria dizer e não sobre o que está escrito (como a famosa comparação da chegada de Cunhal com a chegada de Lenine) aproveitando para fazer um verdadeiro assassinato de carácter, revelasse a sua verdade, a sua forma de contar a mesma história.
Só assim saberemos se foi (mesmo) assim.
É um livro de memórias, das memórias dela, escritas com paixão mas cuidadosamente. Não é um ajuste de contas com os seus camaradas, mas um ajuste de contas consigo própria.
Zita Seabra abraçou uma causa com ardor e fanatismo, a causa romântica da luta pela liberdade e pelo povo, pela igualdade, pela revolução socialista, pela tese científica da evolução para o comunismo. O Partido foi a sua casa, a sua vida, a sua religião. Conta a sua militância clandestina, a sua solidão, a sua certeza na vitória, o seu trabalho e vontade de se transformar numa revolucionária profissional. Com ela ficamos a conhecer o que era a vida de um oposicionista, de um militante comunista, o medo, as prisões, a repressão, a tortura, a solidariedade, o martírio de quem se entrega totalmente a uma ideologia, que tudo abarca e tudo molda a si própria. Não há dúvidas, a confiança é cega.
Ficamos também a conhecer o ostracismo a que são votados os traidores, aqueles que não aguentavam as torturas na prisão, os que não aceitavam o centralismo democrático, os que cediam aos apelos da classe burguesa. Ficamos a saber que as vítimas são aceitáveis, que os fins justificavam os meios, para que a ditadura do proletariado vencesse e houvesse um Homem Novo, numa sociedade sem classes.
Ficamos a saber da disciplina férrea, da organização primorosa, da multiplicação dos pequenos partidos satélites, da infiltração das associações académicas, dos sindicatos, dos militares, do secretismo, das conspirações, da alegria da libertação no 25 de Abril, da luta pela libertação dos presos políticos, da luta pela colectivização da terra, pelas nacionalizações, pelas barricadas, das manifestações, contra manifestações e provocações, das armas distribuídas pelos membros da UEC, das tentativas para que não houvesse eleições livres.
Ficamos a saber que o Partido deixou de usar a expressão ditadura do proletariado por razões tácticas, que queria um confronto, a sua revolução de Outubro, que contou as espingardas e que, em 25 de Novembro, desistiu por perceber que não venceria: um passo atrás, dois passos à frente.
Percebemos a luta por uma Constituição que moldaria ainda vários anos do pós 25 de Abril, o trabalho parlamentar subalternizado por Álvaro Cunhal, a justificação da execução de Sita Valles, a progressiva tomada de consciência de um rumo desajustado, a perda da fé.
Porque foi o abandono da fé no comunismo, no Partido e no Camarada, um processo doloroso e espaventoso mas totalmente necessário para a consumação da rotura.
Para quem, como eu, viveu esses tempos heróicos da pós revolução com intensidade e esperança, para quem nunca percebeu as viragens ideológicas de Zita Seabra, compreende agora melhor o que era pertencer a uma organização daquele tipo, com tanto de heróico como de terrível.
Não concordo com Zita Seabra, não me revejo nas suas posições, não percebo certas atitudes e opiniões. Mas reconheço-lhe o mérito de ter tido a coragem de viver como viveu durante tantos anos, missionária de uma causa que lhe pediu tudo e a quem deu tudo, e a coragem de se olhar, de se pôr em causa e de o revelar, com o mesmo espírito de missão.
Gostava que quem viveu aqueles anos, participou e conviveu com este pedaço da nossa história, dentro ou fora do PCP, contasse as suas memórias. Gostava que, em vez de se procurarem pequenos pontos de imprecisão, interpretações sobre o que quereria dizer e não sobre o que está escrito (como a famosa comparação da chegada de Cunhal com a chegada de Lenine) aproveitando para fazer um verdadeiro assassinato de carácter, revelasse a sua verdade, a sua forma de contar a mesma história.
Só assim saberemos se foi (mesmo) assim.


Cara Sofia :
ResponderEliminarSem nenhuma acrimónia, permita-me algumas observações a este seu post:
1. Quando, por várias vezes, escreve que «ficámos a saber que...» seria mais rigoroso escrever que ficou a saber que Zita Seabra diz ou pensa que...E isto porque, da primeira página à última, trata-se sempre da visão da actual deputada do PSD que, para o efeito, reabsorve e faz suas todas as falsificações, distorções e acusações lançadas sobre o PCP e a sua linha política,
matéria um pouco árdua e exigente sobre a qual se vê que ela nunca percebeu grande coisa. Como exemplo basta referir que ela também subscreve a velha tese do «cerco à Constituinte» sem responder a uma só das questões que, por exemplo, eu próprio já lancei em jeito de desafio e que nunca foram respondids por ninguém.(ver post de 3/3 no «tempo das cerejas» (em http://tempodascerejas.blogspot.com/2007/03/mentira-mil-vezes-repetida.html).
2.Creio que também é muito benévola ao entender que alguém está aproveitar «imprecisões» de Zita Seabra para promover o assassínio do seu caracter. No caso que linka para o meu blogue quanto ao post «Cunhal e a chaimite» só lhe digo que há dias foi feita uma adenda a esse post causada pelo facto de, no livro, as coisas ainda serem piores.Não há nenhum assassinato de carácter de Zita Seabra em curso. Há sim a demonstração de que ela própria há muito fez haraquiri ao seu carácter.
3.E também,estimada Sofia, não são «imprecisões» acusar a direcção do PCP de ter colocado no final da vida dois dirigentes históricos com décadas de clandestinidade - Joaquim Pires Jorge e Francisco Miguel - a fazerem de porteiros da Soeiro P. Gomes, o que, sendo rotundamente falso, visa espalhar a ideia de uma imensa desumanidade e frieza por parte do PCP mesmo em relação homens e mulheres com um historial de sacrificio notável.
4. De igual modo não é uma «imprecisão» que ela apresente Cunhal a falar e a reagir com camaradas seus de uma forma absolutamente sem credibilidade como o podem testemunhar aqueles que, como eu, trabalharam de perto com AC durante um quarto de século.
5. Também não é uma «imprecisão» que Zita Seabra não se importe de traçar um retrato devastador dos seus métodos autoritários como dirigente da UEC e do PCP só para «in fine» deixar a conclusão que esse era o estilo e a prática do PCP. Saiba a Sofia que antes e depois do 25 de Abril eu nunca foi tratado como os dirigidos por Zita Seabra foram tratados por ela e nunca tratei ninguém como ela tratava, sendo de acrescentar, para bom entendedor, que também não o consentiria nem me vergaria a tais abusos de autoridade e métodos de recorte estalinista.
6. Por fim,uma revelação no sentido de que, tal como fiz com outros e outros fizeram comigo , eu, em não raras ocasiõe, dei um apoio não despiciendo a Zita Seabra em algumas das suas tarefas e encargos, coisa de que ela sempre se esquece por causa do seu ego, rasurando a evidência de que num partido como o PCP, todos beneficiamos muito do trabalho de camaradas que nem sequer beneficiam dos holofotes da comunicação social.
7. Apesar disso, quando ela aderiu ao PSD e a comunicação social pediu uma reacção ao PCP, eu tive de, em nome do PCP, fazer o comentário político mais curto e arrasador da minha não curta intervenção política. Salvo erro declarei então, unica e exclusivamente, que se tratava de «uma decisão e de uma evolução que falam por si.» E continuam a falar por si, mesmo que no seu livro Zita Seabra nem uma página final dedique à parte seguinte do seu percurso político depois de ser expulsa do PCP.
Vítor Dias:
ResponderEliminarComeço por lhe agradecer o comentário ao “post” e por lhe fazer notar que, logo no início do meu texto, digo que este livro “É um livro de memórias, das memórias dela (…)” Portanto, como o Vítor Dias afirma fiquei “(…) a saber que Zita Seabra diz ou pensa que... E isto porque, da primeira página à última, trata-se sempre da visão da actual deputada do PSD”. Exactamente. Mas não deixo de lhe notar que, na minha opinião, o facto de ser uma "actual deputada do PSD" não vem ao caso. O motivo do livro é o tempo em que militava no PCP.
Além disso, quando escreve que Zita Seabra “reabsorve e faz suas todas as falsificações, distorções e acusações lançadas sobre o PCP e a sua linha política, matéria um pouco árdua e exigente sobre a qual se vê que ela nunca percebeu grande coisa” faz-lhe um ataque pessoal, sem especificar quais são as mentiras sobre a linha política seguida pelo PCP. E também muito me espanta que uma militante, intelectual, filha adoptiva do proletariado, que nunca percebeu grande coisa da linha política do seu partido, tenha ascendido ao Comité Central. Pouco rigor na escolha? Ou isso também é falso?
O cerco (sem aspas) à Constituinte não é uma tese de Zita Seabra, aconteceu mesmo. O PCP não teve nada a ver com isso, tal como não teve nada que ver com todas as manobras do PREC, tais como formação de barricadas, envolvimento de militares, governo e sindicatos, na perspectiva de avançarem as conquistas revolucionárias, com legitimidade revolucionária, a que lhes restava depois de terem perdido a legitimidade do voto? Zita Seabra mente? Também não estiveram envolvidos no 25 de Novembro, no seu desencadear e na sua resolução?
A vida na clandestinidade não era assim? A organização do partido era diferente? A politização, a informação, a doutrinação, eram diferentes?
Eu não sei, Vítor Dias, não estive lá, não assisti às conversas com Álvaro Cunhal, não fiz parte da UEC nem nunca fui ecologista. Apenas fiz parte da imensa maioria que a tudo assistiu de fora, que viveu a esperança num mundo mais justo e que se foi apercebendo que a realidade era bem diferente da propaganda. Mas quem foi testemunha directa, quem participou e esteve lá, nas decisões e nas realizações, no terreno, que conte a sua verdade.
Um compêndio de contradições e traumas de uma pessoa que numa vida inteira se demitiu de pensar por si própria. Está tudo no livro.
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