Escrever, tentar concretizar o mundo em que se entrecruzam emoções, angústias, momentos de felicidade e profunda melancolia. Como uma necessidade quase orgânica, preciso de libertar as palavras que me correm pelo corpo, concretizar em letras os sentidos, nomear as coisas que sou ou que quero ser, olhar-me de frente, organizar-me.Escrever torna mais nítido o quotidiano, intensifica viagens, decompõe enigmas, esclarece e unifica os fragmentos de rotina, bocados incompreensíveis da vida, que me acordam e atormentam, que me maravilham e embelezam.
Escrever é um acto solitário e doloroso, que intimida e assusta, compulsivo e redentor, que me envolve e arrasa. Escrever é um vício, um acto de amor.
Nem sempre me reconheço no que escrevo, naquela que se espelha e se questiona, naquela que se incendeia e se consome. Nem sempre entendo a forma que as palavras desenham, como se houvesse mais que uma forma, mais que uma pessoa que de mim fizesse parte.
Nos versos encontro a arrumação da desordem, o sentido da confusão, a calma na desorientação. A música e o ritmo das palavras escritas, depois ditas, que se refazem e transformam de cada vez que se repetem, quando alguém se apropria delas, como eu me aproprio dos poemas que outros escrevem, como eu me apodero dos sons, das cores, dos ecos dos poetas.
A simetria da minha vida, disciplinada, rigorosa, criteriosa, cheia de regras e de controlos, completa-se com a total insubmissão das palavras. Mesmo dentro da libertação que é escrever, há a contenção do abismo, o medo da vertigem, do absoluto, que se pondera e se mede, autónoma e obsessivamente.
A constante procura do imo, da depuração, da essência, a certeza da eternidade dessa busca e da inevitabilidade do final, espartilham os gestos mas abrem as asas do impossível.
Este é um livro de reencontros, de luzes fracas e longos silêncios. Este é um livro de recomeços, de aceitação, de cortinas, de renascimentos. Este é um livro de afectos. Sem outra razão que uma entrega, com o pudor da alma nua, assim me dou, a um tempo receosa e feliz, com sombras e sem infinitos.
Dez Estrelas! Cinco em Lisboa e outras cinco no Porto.
ResponderEliminarPode dar-se mais estrelas?
ResponderEliminarNão tenho palavras, Sofia. Acho que sabes...
Um abraço do tamanho do mundo :)
Feliz, sempre; receosa, nunca!
ResponderEliminar… Com uma sensibilidade ENORME e com um domínio excepcional da precisão da palavra escrita!
ResponderEliminarÉ isso que mais admiro.
O que eu mais admiro é a eloquência e a objectividade das suas palavras.
ResponderEliminarum beijo
Obrigada a todos. Espero que gostem.
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