A interligação entre a Igreja Católica e o Estado, apesar de proibida pela Constituição, continua, mesmo que disfarçada.A recente discussão sobre a Lei das precedências do Protocolo do Estado Português, no que respeita aos representantes da Igreja Católica, a presença continuada de símbolos da religião católica em estabelecimentos públicos de ensino, de saúde e outros, a benzedura de instalações e afins em actos oficiais de inauguração, tudo isto dá razão às associações que reclamam a neutralidade do estado em relação à orientação espiritual dos cidadãos, assim como a lei de liberdade religiosa, em que o estado se obriga a prover aos cidadãos possibilidade de serem assistidos consoante a sua confissão, nomeadamente nos hospitais, se tal solicitarem.
Por isso mesmo, e à luz da necessária laicidade do Estado Republicano, não percebo a indignação de alguns pela condecoração de Bispo de Setúbal, D. Manuel Martins, com a Grã-Cruz da Ordem de Cristo por destacados serviços prestados ao País, nestas últimas cerimónias de comemoração do 10 de Junho.
D. Manuel Martins esteve cerca de 23 anos à frente da diocese de Setúbal, exercendo as suas funções de tal forma que algumas autarquias o distinguiram como cidadão honorário, dando inclusivamente o seu nome a um pólo universitário e a uma escola. Esta condecoração não está a distinguir uma Igreja nem uma confissão religiosa, mas sim uma pessoa que, nas suas funções, se destacou e prestou serviço às populações, ou seja, ao país.
Convém que a separação entre a Igreja e o Estado seja observada em todos os aspectos.
obrigada, sofia.
ResponderEliminarjá passara pelas tuas palavras, a partir de "um buraco na sombra".
hoje, subscrevo este post, embora pudesse fazê-lo noutros. porque, por cá, o reconhecimento é um exercício difícil e o que escreves é mais do que pertinente.
:)
Quem conheceu D.Manuel Martins, como eu o conheci na década de 60 como pároco duma freguesia do Porto e quem acompanhou o seu trajecto, posteriormente como bispo de Setúbal, estaria a usar de má fé se tentasse utilizar o princípio constitucional da laicidade do Estado (que eu defendo e pugno pelo seu cumprimento) para impedir que desta ou de qualquer outra forma fosse distinguido o Homem e a obra deste cidadão que tardavam a ser distinguidos pela sociedade civil.
ResponderEliminarPois mais uma vez estou em desacordo consigo.
ResponderEliminarNão em relação à medalha que lhe espetaram no peito (desde que não me a espetem em mim...), mas sim em relação à utilidade da sua acção. Tal como j.f. andei muito perto do que este senhor profetizou. Foi bispo de Setúbal, lembram-se? Eu ainda lá moro. Mas, ao contrário de j.f. não vejo a mínima bondade na sua actividade política. Sim, porque é de política que falamos quando falamos do ex-bispo. A religião não interessa para este caso, e, creio, também não interessava nada ao senhor Manuel Martins enquanto montra de exposição da sua vontade de dar nas vistas. Alguém encontra um grama de utilidade cívica nas palavras do senhor? Eu não.
De qualquer forma, ainda quanto à medalha, revela o que estas coisas valem. Cavaco medalhou os seus apoiantes na campanha eleitoral. fez bem: amor com amor se paga. Quanto ao bispo também. Se ele até ficou contente... E ainda permitiu que tivesse tempo de antena para declarar umas alarvidades sobre a lei do aborto.
Abençoado seja.
Agradeço os comentários da Blue, do J.F e do José Teófilo Duarte.
ResponderEliminarAo último quero dizer que, pelo que bem percebi, a actuação do Bispo Manuel Martins foi, pelo menos, polémica: enquanto alguns a julgam de mérito outros não. Pelos vistos o Presidente seguiu a opinião dos primeiros. Mas o ponto que eu pretendia focar era o entendimento de que pertencer ao clero não deve ser o motivo para este tipo de condecorações, assim como também não deve servir para as impedir.
hMas ó Sofia: o problema não é ser do clero ou não. Claro que os condecorados até podem ser da liga protectora dos animais, ou da sociedade filarmónica do bairro dos pescadores, ou da liga de reformados do Cacém, ou... Ou de onde quer que fosse. Mas o que é certo é que esta maltosa do clero está sempre no banco da frente. É isso, associado á incrível hipocrisia que norteia os motivos das condecorações (leu aquela da lei do aborto?), é que me chateia.
ResponderEliminarMas também não chateia assim muito. É mais a vontade de falar, claro.