Em 1975, o 11 de Março foi o início do que se convencionou chamar o PREC, época de gente louca e transviada, que acreditava estar na posse da verdade, época de visionários generosos e, por isso mesmo, perigosos. Época de delírios, marchas, golpes e contra golpes, país rebocado por uma turba revolucionária adolescente e feliz, totalmente desgarrada da realidade, mas que talhou para sempre a nossa democracia.Quando olhamos para esses anos, agora adultos, obesos e instalados na vida, neste país medianeiro e de faz de conta, cheio de contradições e devaneios, nem conseguimos acreditar no que aconteceu, tal como quando olhamos para poemas destemperados e dramáticos e não nos reconhecemos naqueles transportes de emoção.
Em Madrid, o 11 de Março de 2004 teve a cor dos fanatismos religiosos, outros detentores da verdade, preparados para matar e morrer em busca de um deus exigente e sanguinário, tão certos de atingir a felicidade como de se espalharem em mil bocados, na fusão de ferros, roupas, corpos e terra.
Apesar de diferentes há uma terrível comunhão neste tipo de acontecimentos: o assumir por alguns de uma verdade que consideram inabalável e incontestável, baseados em crenças e dogmas, religiosos ou políticos, impondo-a a todos os outros.
Sempre me arrepiaram os detentores da chave da vida, pois a chave que julgam ter apenas serve para fechar portas, caminhos, soluções.
Ao ouvir, no Diário Ateísta, um pequeno vídeo traduzido em brasileiro, defendendo que a Bíblia é repulsiva, dando exemplos com frases retiradas do livro, organizando-as numa lógica que o(s) autor(es) consideram arrasadora, fico verdadeiramente espantada com tal demonstração de fanatismo.
O que eu considero repulsivo é este tipo de análise de um livro, de um discurso, de um pensamento, de um acontecimento. Sem qualquer seriedade, pretende-se explicar situações de uma forma tão dogmática e disparatada, idêntica à que os fanáticos religiosos usam, em sentido contrário, interpretando frases e textos literalmente, retirando-os do contexto, para provarem autênticas barbaridades.
Uma coisa é ser-se ateu, outra muito diferente é ser-se fanaticamente anti-religioso e negar a importância social e cultural do fenómeno religioso e das suas manifestações artísticas. A intolerância e o fanatismo estão em toda a parte, não só do lado das religiões do Livro.
(Bíblia Ilustrada, João Ferreira Annes de Almeida; José Tolentino Mendonça e Ilda David; Assírio & Alvim, 2006)
Eu fui um dos visionários generosos, mas não considero que tenha sido perigoso. Ia a caminho dos 26 anos, lutei por um Portugal melhor, mas sem nunca me julgar detentor da verdade e sempre estabelendo pontes. Trabalhava, então, numa grande empresa de serviços, na qual não houve qualquer saneamento, porque nós, aqueles que apelida de perigosos, o evitámos, contra a vontade de outros que politicamente se situavam à nossa direita. Quando saí da empresa, 3 anos depois, todos, do CDS à então UDP, se despediram de mim com grande cordialidade. Creio que a verdadeira história do PREC nunca será conhecida, e é pena. Quanto aos outros dois temas, absolutamente de acordo.
ResponderEliminarÉ como apedrejador crónico do Diário Ateísta que venho concordar com o que escreve sobre ele.
ResponderEliminarNo entanto, ou estarei muito enganado, o que se pretende no DA é uma circunscrição proto-corporativa que muitos julgam essencial ao exercício da opinião. O elan não é necessariamente piromaníaco, mas uma consequência natural da nossa tibieza democrática.
Se o efeito de grupo resvala para o efeito matilha, isso deve-se principalmente à intenção de um ou outro autor um particular.
Que nunca nos dê para pior...
Lino: quando me referi aos adolescentes visionários e perigosos quis referir-me a todos os que, na altura, participaram na vida política. A adolescência como metáfora de algo que muda, que é radical. Não foi minha intenção depreciar ninguém, particularizar ou insultar. Muito pelo contrário, a democracia ultrapassou todos os ritos de passagem. Mas sabe bem que uma minoria visionária rebocava um país mais ou menos perplexo. E que isso foi perigoso, tal como perigosa é toda a experimentação e generosidade dos adolescentes. Penso que todos os personagens tiveram o seu papel, desde os mais fanáticos aos moderados que, felizmente e como é natural prevaleceram, assim como a democracia prevaleceu.
ResponderEliminarBruce Losé: o Diário Ateísta tem textos muito interessantes, assim como outros menos interessantes. Mas aquele post deixou-me espantada pela evidente falta de seriedade intelectual.
Às vezes eu fico espantado com as certezas que tem, Sofia (e se fosse só a Sofia!). Se eu tenho 57 anos e andava entre os 25 e os 26, a Sofia andava entre os 13 e os 14, ou então o seu perfil não está correcto. Não acredite em tudo o que lhe contam, mesmo que seja alguém por quem é capaz de pôr as mãos no fogo. Eu não pretendo ter o monopólio da verdade - longe de mim que sou o mais ignorante de todos, mas que andei lá, isso andei. Dias e noites a fio. E nunca vi nem tive conhecimento de muitas coisas que p'raí se dizem. E, na altura, não era parvo e andava informado, o que não sucede agora, pois a idade não perdoa.
ResponderEliminarLino: tenho até muitas dúvidas, em muitas coisas. Mas não percebo bem quais as certezas que diz que eu tenho e que refuta! Visto a esta distância, o PREC foi um tempo de loucura e delírio. Não é por acreditar mas por ler, ver, várias facetas, contadas e mostradas e escritas e documentadas por várias pessoas, protagonistas e observadores, nacionais e internacionais! A história do PREC, como a da guerra colonial, como a de outros episódios e outras épocas, será conhecida na exacta medida em que for dada a conhecer pelos que a viveram, como o Lino, por exemplo.
ResponderEliminarOlá Sofia,
ResponderEliminar...Por acaso, também não concordo com o tom panfletário que muitas vezes é veiculado por alguns autores do Diário Ateísta. Mas como com a(s) religião(ões), dou um desconto. E isso feito, acho que fazem algumas provocações úteis. Quanto à bíblia, com todo o respeito, acho mesmo que é um livro feio, nomeadamente no velho testamento, que só se salva como documento histórico. Sem fanatismos, mas aquelas sentenças de morte de mulheres e crianças estão todas lá, assim como os preceitos morais inaceitáveis.
Como documento antropológico é sem dúvida um livro extraordinário, como base de qualquer moral moderna é simplesmente horrível. No novo testamento já vejo diferenças, e grandes, mas então não digam que o velho e o novo testamentos são a mesma palavra de Deus. Aquilo são deuses diferentes, penso eu. Apesar de não gostar de nenhum (não gosto de deuses, ponto), prefiro o segundo ao primeiro.
Desculpa o registo inabitual
Beijos
Vasco, não tem nada que se desculpar, aprecio todos os comentários, concorde ou não com eles. A Bíblia tem muitos tipos de histórias, algumas horrorosas, outras não. Tudo o que eu quero dizer é que o tipo de análise que se fez no vídeo a que me referi é tão fanático como são aqueles que querem cortar a mão que roubou ou vazar o olho que viu o que não devia.
ResponderEliminarSofia:
ResponderEliminarA análise que é feita do vídeo é a mesma que o Vasco Pontes faz: «Quanto à bíblia, [...], acho mesmo que é um livro feio [...] aquelas sentenças de morte de mulheres e crianças estão todas lá, assim como os preceitos morais inaceitáveis. [...] como base de qualquer moral moderna é simplesmente horrível.»
Existe uma diferença, na verdade, o Vasco Pontes faz uma distinção maior entre antigo e novo testamento do que aquela que é feita no vídeo. Nesse aspecto a minha posição é intermédia: a diferença entre o tom dos testamentos é muito menor do que aquilo que muitos julgam - principalmente se considerarmos as epístolas e os actos dos apóstolos, onde afirmações acerca da inferioridade da mulher, ou homofóbicas, etc... estão explícitas e claras. No entanto, acho que existe realmente uma diferença.
De qualquer forma, no fundamental, o Vasco Pontes e o Vídeo fazem a mesma análise da Bíblia: é um livro feio. Eu partilho dessa análise, e não acho que isso signifique que sou fundamentalista.
PS- coloquei no DA um vídeo que responde a algumas objjecções que foram colocadas por leitores do blogue, nomeadamente a de "retirar frases do contexto".