09 janeiro 2007

Foi você que pediu informação?

Muitas vezes me interrogo se vale a pena tanta adrenalina, tanto esgrimir de argumentos, tanto espanto ou consentimento, baseado no que ouvimos.

Se quisermos investigar ligeiramente algumas das notícias que aparecem todos os dias nos media, ou porque nos intrigaram, nos exaltaram, ou apenas porque, por razões profissionais ou de interesse particular, as conhecemos, apercebemo-nos das enormidades que são ditas e repetidas à exaustão durante dias, tecendo-se considerações e opinando a partir de fragmentos de uma conversa ou de declarações improvisadas a perguntas jornalísticas bombásticas.

Os assuntos morrem rapidamente, sem que ninguém aprofunde as tais respostas ou afirmações. Há uns dias ouvi Clara Ferreira Alves dizer, com a petulância que a caracteriza que, em Portugal, não há jornalismo de investigação. E com toda a razão: fala-se de despachos ministeriais que são contraditórios com decretos-lei mas ainda não vi, em nenhum órgão de informação, informar-se o público do que realmente constam os tais despacho ministerial e decretos-lei.

Fala-se de eventuais testemunhos de alegados voos ilegais que terão passado pelas Lages, na saga de espionagem em que se está a transformar o inquérito do parlamento europeu aos voos da CIA, mas as únicas notícias que se ouvem são os fragmentos das declarações dos vários intervenientes no processo, para demonstrar que Ana Gomes enlouqueceu, ou para a defender, como é o caso de raros camaradas seus de partido. Não há nenhum jornalista que informe ao certo de que consta exactamente o mandato da comissão ou que listas (e o que constam delas) são as referidas pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros e Ana Gomes.

Fala-se de corrupção a vários níveis e João Cravinho passou a ser considerado o paladino dos incorruptíveis contra a corrupção. Mas porquê e a que propósito? Como bem lembrou A. Teixeira, não parece ter sido esse o seu papel no caso da Junta Autónoma de Estradas. E todos repetem que é incómodo ao governo, sem ninguém referir que atitude terá ele dito ou feito que incomodasse assim tanto a governação.

Assim como os casos das facturas falsas, do encerramento de maternidade e de escolas, dos anonimatos versus privacidades, do naufrágio dos pescadores na Nazaré, em que ainda não vi qualquer reportagem que abordasse este triste e gravíssimo tema com intenção de perceber, de facto, o que se passou, etc.

As generalizações são sempre perigosas e injustas, mas quando se fala de corporações, e elas aí estão bem vivas, atentas e com posições autistas e de pseudo auto preservação, seria inovador que os jornalistas se apercebessem (e denunciassem vigorosamente) da total ausência de seriedade, rigor e profissionalismo de uma grande parte do seu trabalho.

Mas o que me incomoda mais e que considero perigoso para o funcionamento da democracia, é que toda esta incompetência pode ter consequências sérias na acção política, pela pressão que se impõe a propósito de assuntos que ninguém está interessado em compreender ou que, pelo contrário, o único interesse parece ser induzir a população a pensar de determinada maneira.

Em princípio, o pluralismo de opiniões e a profusão de meios informativos reduz esse perigo mas com as notícias, tal como com os preços da gasolina e do pão, parece haver uma estratégia de concertação (involuntária) na quantidade de ignorância e negligência a evidenciar.

3 comentários:

  1. A.Teixeira09:36

    Muito bom poste, Sofia, com “sumo”, a pedir mais substância e rigor aos conteúdos daquilo que se anda a debater e… muito obrigado pela referência

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  2. lino11:12

    Boa análise, Sofia.
    Penso que os nossos jornalistas ainda não se habituaram à sociedade da informação. De duas, uma: ou são incompetentes ou os órgãos de informação em que trabalham não querem jornalismo de investigação. Homens como o Joaquim Furtado, o Adelino Gomes ou o João Paulo Guerra já não se fazem. E estes, não têm espaço nos grandes média. E caímos no círculo vicioso. Os órgãos de informação dizem que oferecem o que as audiências querem. E as audiências não querem mais porque não se lhes abre o apetite.

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  3. Sofia Loureiro dos Santos22:09

    Obrigada ao A. Teixeira e ao Lino, pelos vossos comentários.

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