Como tem sido hábito as reformas que o governo anuncia começam sempre por uma sensibilização da opinião pública para o problema, realçando o que de negativo e pouco abonador acontece nos vários sectores, principalmente no que diz respeito aos dependentes da administração pública. É obviamente uma medida populista mas que os diversos grupos profissionais não têm sabido aproveitar e, pelo contrário, com as posições totalmente retrógradas e absurdas de defesa do indefensável, apenas facilitam o caminho ao governo. Foi assim com os professores, com os juízes e com os militares.Como era previsível, a hora dos médicos haveria de chegar. Como era espectável, a reacção corporativista dos representantes da classe não se fez esperar. Desde o momento em que começou a ser posta em causa a acumulação de funções nos sectores público e privado, o conflito de interesses entre quem trabalha nos dois sectores, baseado também em estudos da Inspecção Geral de Saúde (IGS) que evidenciam a total falta de controle da assiduidade dos profissionais (uma situação que se tem arrastado ao longo dos anos e da qual todos são responsáveis), o Bastonário da Ordem dos Médicos tem-se multiplicado em intervenções que, ao contrário do que deveria ser o seu objectivo, descredibiliza a classe e os seus profissionais.
Os médicos, enquanto funcionários do Estado, têm um contrato assinado de livre vontade, em que se comprometem a cumprir determinado tipo de funções, num determinado local de trabalho, com um determinado horário, a troco de uma remuneração, de dias de férias, de protecção social e de garantia de formação pós graduada. O seu dever como profissionais é exercerem o melhor possível a sua profissão, ou seja, actuarem na prevenção, no diagnóstico, na terapêutica da doença, e no seguimento dos doentes.
O Estado tem como dever pugnar porque os profissionais que forma e contrata, cumpram com o maior zelo possível as cláusulas contratuais, entre as quais está o cumprimento de horários.
Podemos discutir se os contratos devem ser baseados em horários ou em tarefas, podemos discutir se a remuneração deve ser por hora de trabalho ou por desempenho de objectivos, podemos discutir a avaliação do tipo de desempenho e quais as várias vertentes que devem ser objectivamente valorizadas. Mas enquanto funcionários do Estado os médicos têm que cumprir os seus contratos, assim como os deverão cumprir com outras entidades patronais, que não o Estado.
Ou então, assumem-se como profissionais liberais, sendo patrões de si próprios e tendo capacidade negocial total na definição dos termos contratuais da sua própria actividade, cujo único vínculo será o doente.
A “cruzada” de Pedro Nunes contra as leis dos funcionários públicos que não se aplicam aos médicos, para além de me parecer estar a exorbitar as competências estatutárias da Ordem dos Médicos (estes problemas pertencem ao âmbito do movimento sindical), leva imediatamente à total desconfiança de todos os cidadãos. A redução do problema da assiduidade aos segundos contados pelo aparelho electrónico é demagógica e populista. E o facto deste problema ter sido levantado pela IGS só vem demonstrar a falência da auto regulação ou da regulação efectuada pelos directores de serviço, que Pedro Nunes tanto defende.
Com tantos e graves problemas que atravessam o nosso SNS, como a falta de condições de segurança e salubridade em múltiplos serviços, as carências de médicos e de enfermeiros, os serviços de urgência à beira da rotura, mobilizaram-se 19 de 25 directores de serviço ultrajados pela tentativa de cumprimento da lei no controlo da assiduidade, com um método experimental! Por coincidência, essa demissão foi mediatizada no momento em que decorria uma reunião com a Ordem, na qual se debateu este gravíssimo problema, no entender destes médicos criado pela tutela, cuja vontade de cumprir a lei faz perigar enormemente a qualidade de atendimento dos doentes!
Gostaria de ver os sindicatos médicos a renegociarem os contratos de trabalho, atendendo à qualidade do serviço, à produtividade, ao empenho dos profissionais, à flexibilização de horários, ao tele-trabalho, para as funções que não necessitem da presença física do prestador de serviços de saúde.
Gostaria de ver o Bastonário da Ordem dos Médicos preocupar-se com os verdadeiros problemas da saúde em Portugal, dignificando a classe médica e pugnando pela sua formação contínua e de qualidade, lutando por uma política de gestão de recursos humanos realista e urgente, chamando a atenção para condicionalismos e especificidades de cada especialidade e do problema da interioridade, enfim defendendo a verdadeira ética e deontologia médica ao serviço ao doente.
Estatutos da Ordem dos Médicos
(...)
- Art. 4.º
1. A Ordem dos Médicos reconhece que a defesa dos legítimos interesses dos médicos pressupõe o exercício de uma medicina humanizada que respeite o direito à saúde de todos os cidadãos.
2. A Ordem dos Médicos exerce a sua acção com total independência em relação ao Estado, formações políticas, religiosas ou outras organizações.
3. O sistema democrático regula a orgânica e vida interna da Ordem dos Médicos, constituindo-se o seu controle um dever e um direito de todos os seus associados, nomeadamente no que respeita à eleição e destituição de todos os seus dirigentes e à livre discussão de todas as questões da sua vida associativa.
(…) - Art. 6.º
A Ordem dos Médicos tem por finalidades essenciais: a) Defender a ética, a deontologia e a qualificação profissional médicas, a fim de assegurar e fazer respeitar o direito dos utentes a uma medicina qualificada; b) Fomentar e defender os interesses da profissão médica a todos os níveis, nomeadamente no respeitante à promoção sócio profissional, à segurança social e às relações de trabalho; (Esta norma foi declarada inconstitucional, com força obrigatória geral, na parte que se refere a "relações de trabalho", pela Resolução 11/78 do Conselho da Revolução, publicada na 1.ª Série do DR de 26.01.78); c) Promover o desenvolvimento da cultura médica e concorrer para o estabelecimento e aperfeiçoamento constante do Serviço Nacional de Saúde, colaborando na política nacional de saúde em todos os aspectos, nomeadamente no ensino médico e carreiras médicas; d) Dar parecer sobre todos os assuntos relacionados com o ensino, com o exercício da medicina e com a organização dos serviços que se ocupem da saúde, sempre que julgue conveniente fazê-lo, junto das entidades oficiais competentes ou quando por estas for consultada; e) Velar pelo exacto cumprimento da lei, do presente Estatuto e respectivos regulamentos, nomeadamente no que se refere ao título e à profissão de médico, promovendo procedimento judicial contra quem o use ou a exerça ilegalmente;
(...)
o meu comentário aos três posts aqui apresentados:
ResponderEliminar"Tem toda a razão"
Parabéns
Obrigada, J.F e boas entradas!
ResponderEliminarConcordo com a necessidade de os horários dos médicos serem monitorizados. No entanto, concerteza por influência de quem conheço, sou bastante sensível ao que apelidas o "reverso da medalha", e que não só é sub-valorizado (ignorado até, na ofensiva do ministro na opinião pública) como é "sabotado" pelos próprios médicos, que ao falar não se cansam de darem tiros nos pés.
ResponderEliminarE o que é então para mim o reverso da medalha? Falo do que conheço por experiência próxima, naturalmente, mas do que sei asseguro que, por cada médico que trabalha menos que as contratualizadas 42 horas semanais (isto em relação aos que têm vínculo à função pública; quanto aos contratos individuais de trabalho, que são cada vez mais comuns, essa é outra questão), há pelo menos 3 que trabalham mais, muito mais, que as horas "normais". De tal forma que, para mim, o problema não é no controlo da assiduidade "per se", mas antes na absoluta certeza que tenho que, se todos os médicos sem excepção trabalharem as horas devidas, nem a mais nem a menos, com todos os deveres (assiduidade, pontualidade) e direitos (folgas) a que têm direito, se isso acontecer os hospitais passarão a funcionar muito pior do que até agora.
Dou-te exemplos: pegando na tua afirmação de doentes com consultas marcadas para as 8h00 que só são atendidos às 10h00, afirmo com conhecimento de causa que isso acontece porque as consultas são muitas vezes marcadas com intervalos de 10 minutos, às vezes até há várias marcações para a mesma hora. Ora como muitos doentes demoram mais que 10 minutos na consulta, o que acho perfeitamente razoável, é natural que as consultas vão atrasando... os doentes não têm culpa, obviamente, mas os médicos também não. Este problema só será agravado se os médicos forem compelidos a cumprir horários: porque, pelo menos no hospital que conheço melhor, o limite de doentes por médico é de 12. Cada médico vê, no mínimo, 20 - muitas vezes 30 ou 40, implicando sair do hospital às 20h00 em vez de às 17h00... ora se passarem a cumprir o horário, saindo à hora certa e vendo o número certo de doentes, as listas de espera de consultas (muitas delas importantes, urgentes até) vão engrossar insuportavelmente. E o mesmo para as cirurgias, se os médicos deixarem de operar por isso implicar sair bem depois do horário estipulado...
Este é o ignorado reverso da medalha, com potencial suficiente para levar o SNS até novos abismos de desencorajamento, para médicos ou futuros médicos, e para doentes que cada vez menos quererão ir aos hospitais e se conformarão com a elevada conta do médico privado. Isto, cara Sofia, é o que está na realidade por trás de decisões aparentemente "justas" como a de controlar a assiduidade dos médicos, e quando o ministro diz, como hoje, que até é positivo que os médicos deixem de dar "borlas" aos hospitais, fá-lo na certeza de com isso beneficiarem o sector privado, de onde o sr. Correia de Campos é oriundo e para onde voltará quando deixar de ser ministro.
E já falei demais... fico à espera da resposta para o exercício do contraditório :)
António Rufino: não tenho dúvidas de que há muitíssimos médicos que ultrapassam os seus horários semanais nos serviços públicos de saúde, assim como não tenho dúvidas de que há muitos outros que fazem muito menos horas semanais do que o seu horário os obrigaria a fazer. O controle da assiduidade DEVE ser efectuado, até para se saber com rigor quantos médicos faltam, em que áreas, em que especialidades, em que serviços, em que zonas do país e quais, pelo contrário, têm serviços sobredimensionados ou, mais prosaicamente, em que os profissionais não cumprem. Talvez sirva para os directores de serviço, em vez e se demitirem porque estão contra um VERDADEIRO controle da assiduidade, se unirem para exigir, junto da administração, dos directores clínicos e do ministro, condições para atenderem os doentes duma forma condigna, sem que tenham que observar vários na mesma sala, o pagamento das horas efectuadas a mais, o cumprimento da lei das folgas a seguir às urgências, etc. O controle de assiduidade é UM dos instrumentos de gestão de uma qualquer unidade de trabalho, NÃO É O ÚNICO. E, ao contrário do que parece quereres dizer no fim do teu comentário, não percebo em que é que esta medida privilegia o sector privado. Talvez torne mais transparente a ligação entre os dois sectores pois se forem cumpridos horários nos serviços públicos talvez não sobre assim tanto tempo para se cumprirem outros horários, em acumulação, no sector privado!
ResponderEliminarBom ano, bom trabalho e bons “posts”!
Concordo contigo, como já tinha dito, que deve haver controlo, nem acho que os próprios médicos tenham assim tanto contra isso. O problema é que está a ser insinuado na opinião pública - ou, como ontem, dito com todas as letras pelo ministro - que é a classe médica, como um todo, que não trabalha porque não quer, e é isso que passa sempre para a opinião pública. Os médicos que conheço não são contra o controlo de assiduidade, mas vêm este discurso como uma afronta, um insulto. Muito mais quando o ministro insinua, como ontem, que os casos de sobrelotamento das urgências (a da Feira, no caso) não são verdade e diz aos médicos, claramente, que "chega de patriotismo barato" e que "quem não queira trabalhar que se vá embora". Mais grave ainda, disse aos internos - os especialistas de amanhã, os que supostamente vão suprir as necessidades que existem - que "se sentem que não lhes dão as condições para uma correcta aprendizagem, que vão para Espanha". Achas que isto é um discurso de quem se preocupa com o SNS? Isto é um discurso de quem não quer saber, porque a perda de uns (público) será sempre o ganho de outros (privado).
ResponderEliminarE é fácil ver como tudo isto poderá beneficiar o sector privado: mesmo se nenhum médico sair do público (os quais iriam obviamente para o privado), se os hospitais públicos reduzirem a qualidade do serviço que prestam, como estou convencido de que acontecerá se TODOS os médicos cumprirem o que têm a cumprir (volto a repetir, há muito mais médicos que fazem horas a mais do que os que fazem a menos), se o serviço público piorar, mais e mais doentes optarão, ou ver-se-ão obrigados, a recorrer ao sector privado.
Está à vista de todos, e não é de agora, é de há muitos anos, simplesmente agora é gritantemente visível...
PS - Também é revelador que nenhum partido - com a excepção do recorrente grito de alerta do PCP, que infelizmente por vir do "partido da cassette" não tem praticamente destaque (afinal, é só mais uma cassette) - que nenhum partido, dizia, se levante contra esta lenta - agora já não tão lenta - degradação do SNS...
António Rufino, vamos recuar uns dias: a comunicação social fez alarde do pedido de demissão em bloco de 19 de 25 Directores de Serviço do Hospital Pedro Hispano, em protesto contra um sistema biométrico de controlo da assiduidade que estava a ser testado. Por coincidência esse pedido de demissão foi entregue ao Director Clínico após uma reunião entre os Directores de Serviço, o Bastonário da Ordem e uma representante do SIM que, na sequência da dita reunião, explicam à opinião pública que não entendem o porquê da implementação de um controlo de assiduidade, que esse mesmo controlo irá pôr em causa o bom atendimento dos doentes e que, ouvi eu da boca do próprio Bastonário, os médicos auto controlavam a assiduidade e que os seus únicos patrões eram os doentes.
ResponderEliminarUns dias depois o Ministro desloca-se à mesma unidade hospitalar e, após reunião com os mesmos Directores de Serviço, declara que afinal havia má informação dos médicos relativamente ao sistema a implementar, que por essa má informação seriam responsáveis alguns representantes da classe, e que tudo estava sanado. Até agora, pelo menos pelo que noticiam os jornais de hoje, não foi recebido pelo Director Clínico nenhum pedido de demissão de nenhum Director de Serviço.
E onde estão as declarações dos Directores de Serviço? Não têm nada a dizer? E onde está Pedro Nunes? Nada a retorquir? E onde está o SIM? Tem uma nota on-line em que defende que os controlos de assiduidade são legais, mas em que aconselha os seus associados a não colaborarem nas fases de teste.
Podemos discutir todo o tipo de medidas e de políticas governamentais, ou a falta delas. Mas, neste caso, o que está em causa é o direito que uma entidade empregadora (Estado) tem de controlar a assiduidade dos seus funcionários, o que me parece não poder ser posto em causa.
Não concordo com muito do que o Ministro da Saúde faz e concordo ainda menos com a enorme quantidade de disparates que diz. Mas, infelizmente, a opinião pública não necessita que o ministro a envenene. Infelizmente, os próprios médicos encarregam-se disso, fazendo estas tristes figuras.
Quanto às "tristes figuras" que os médicos fazem quando enfrentam a comunicação social - ou, se quiseres, a "falta de eficácia" na transmissão da sua mensagem - ela existe, como quis dizer ao referir-me aos tiros nos pés que estes profissionais constantemente dão.
ResponderEliminarEm relação às demissões de quase todos os directores de serviço do Hospital Pedro Hispano, elas existiram mesmo e estão em cima da mesa. O que acontece é que, como tu adivinhaste e para maximizar o efeito mediático das mesmas, elas foram entregues ao director clínico mediante uma declaração colectiva. O que o ministro disse em frente às câmaras é que essas demissões não têm valor jurídico, pois para tal supostamente teria de haver declarações individuais assinadas. Ou seja, deu a ideia de que não houve demissões, mas elas - correctamente entregues ou não - existiram, na medida em que os referidos directores de serviço se mantêm demissionários. Aliás, tenho a informação de que as tais declarações individuais serão entregues brevemente, embora provavelmente já longe dos holofotes dos "media", e por isso sem divulgação pública. O que só reforça a minha frustração pelos tais "tiros nos pés" que ambos concordamos serem dados...
Quanto ao direito do Estado controlar a assiduidade dos seus funcionários: já disse também que é perfeitamente legítimo, mas - como aliás preconiza a própria Comissão Nacional de Protecção de Dados - todo o processo deveria ter sido conduzido de forma inteiramente diferente, com os médicos e não contra eles. Neste contexto, a sua indignação é compreensível. E, volto a insistir, o desmantelamento do SNS prossegue.