Quando chegava à entrada da vila, procurava uma bata branca vestida por um velhote ligeiramente curvado, com uma coroa de cabelos, do lado de fora da porta verde da Farmácia Nacional, e uma velhota baixa, com bata e carrapito, que espreitava pela porta entreaberta da sua casa. Mal podia conter a alegria que queria soltar-se da garganta, ao correr para aqueles velhos, que de ano para ano encolhiam, embranqueciam, mas sempre a esperavam.Depois era o cheiro da casa, o frio da sala, a braseira, os lençóis gelados, o tabuleiro de manhã, na cama, o café com leite demasiado doce, o pão com queijo, o creme da cara endurecido, que mal se espalhava, a água gelada da torneira que se misturava com a água a escaldar da cafeteira, as pedras da escada do quintal, o poço, o galinheiro, as mulheres embrulhadas em mantas com os olhos pequeninos que levavam os nomes de remédios inexistentes em fragmentos de papel, escritos com lápis, numa letra tremida no esforço da aplicação, o chão de azulejo branco sujo de lama, os frascos e os boiões alinhados nos armários de madeira branca.
Depois era o sempre eterno chá antes de ir para a cama, as canecas individualizadas com cenas campestres compradas nas feiras, os biscoitos de azeite, o leite creme com açúcar queimado.
Mesmo agora, no dia em que se decretou que se lembrassem os mortos, como se os mortos não estivessem entranhados em todas as pequenas fibras das casa em que viveram, das ruas que palmilharam, dos vivos que tocaram, parece-lhe ainda ouvir aquelas vozes, ao abrir a porta verde, mesmo em frente à escada que subia quatro a quatro, para dentro da sua infância.
(pintura de David Miller)
Que saudade... fizeste-me chorar...
ResponderEliminarSaudade boa!
ResponderEliminarÉ fantástica a tua descrição. Simultaneamente realista e expressiva. Gostei imenso. Parabéns.
ResponderEliminarLS