DEZ RÉIS DE ESPERANÇASe não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, não bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos à boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.
(poema de António Gedeão; pintura de Ismael Cuevas Jordán: esperança)
Gostei de reler este poema no dia em que se comemora o centenário do nascimento de Rómulo de Carvalho. Será que nos liceus de hoje ainda se ensina António Gedeão?
ResponderEliminarObrigada por esta lembrança, Sofia.
Não consigo recordar-me de António gedeão sem me lembrar da Pedra Filosofal ou dos manuais de Ciências ou de Física de quando andávamos no liceu ;)
ResponderEliminarOs poemas dele são tão especiais... Ele era mesmo especial... Adorei reler este.
:)