23 setembro 2006

Animalidade

Égua tu foras
e sem rédea
e sem trégua
te montara
por trás
em pêlo
pelo gozo que me dás.

Se vaca foras
então
tuas tetas ordenhara
e teu leite
meu deleite
por todo corpo espalhara
em louca avacalhação
de touro de cobrição.

Fosses porca de chiqueiro
e contigo chafurdava
na lama
como na cama
para guardar o teu cheiro
e nem sequer me lavava
para o ter o dia inteiro.
Varrasco me comportava
como poço de carinho
envolvendo-te em toucinho.

Talvez cabra te quisesse
para contigo saltar
e por ti toda esfregar
uma barbicha aparada
de bode que quer e pode.
Disputava-te à marrada
amarrada e bem vendada
e levavas uma esfrega
que nenhuma cabra-cega
ou menos cega imagina…
Questões de lana-caprina!

E se cadela nasceras
cada cio teu atendia
dia e noite
noite e dia
a teu sexo me prendia
e eu ladrava
e gania
sem me importar com a dor.
Podia até
por amor
tirar-te trela e coleira
mesmo que fosses rafeira
desde que fosses fiel…
Amava-te sem quartel!

Até gata te queria
com requebros nos miados.
subia por ti telhados
em noites de lua cheia
servindo-te
volta-e-meia
suculentos linguados
ou outros peixes que tais…
Amava-te nos beirais
pelas noites de janeiro
com requintes naturais
de felino cavalheiro.

Mas tu nasceste mulher
e uma mulher me gerou
homem como sou hoje
e um homem que te quer
num desejo natural
pelo mais belo animal
que Deus ao mundo deitou!

(poema de Pedro Neves; escultura de Auguste Rodin: femme accroupie)

2 comentários:

  1. Sofia Loureiro dos Santos20:58

    As minhas desculpas ao autor por não conseguir "formatar" o poema como deve ser...

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  2. ana luisa18:53

    Os meus agradecimentos à Sofia por nos dar este poema a ler.

    ResponderEliminar

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