15 março 2026

Nova morada - do Sapo para o Blogger

Resilience

O Sapo vai deixar de ser uma plataforma de alojamento de blogs.

Tudo acaba. Os blogs estão em agonia e só mesmo alguns maduros, e velhotes (como eu), insistem em escrever.

Bem sei que escrevo cada vez menos. Mas vou escrevendo. Porque insisto? Por que me faz bem.

Vou partilhando, agora, de novo, no Blogger.

Vamos caminhando.

01 março 2026

Apelo

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Sly as a Fox

Richard Clifton

 

Falta-me uma raposa de dentes finos e agudos

Olhos rasgados e cauda de fogo

Falta-me esse apelo agreste e selvagem

Para que me liberte

E procure o alimento nas estrelas sem saber

Do amanhã

Arroz de sardinhas

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Nada de mais básico, que este arroz de sardinhas. Quando falo em sardinhas refiro-me a filetes das mesmas, congelados.

Muita cebola, muito alho, muito tomate, muitos pimentos de várias cores, sal, pimenta, coentros, folhas de louro, vinho branco. Tudo ao lume a refogar e a abrir e a misturar.

Os filetes, descongelados anteriormente, polvilhados de sal e regados com sumo de limão, colocam-se em cima dos legumes e deixam-se cozinhar por muito pouco tempo (10 minutos, se tanto). Mas atenção. Há aqui um truque, bastante importante.

A pele dos ditos filetes vem sem escamar. Ou seja, ou se tiram a pele e as escamas, ou se tiram as escamas, antes de irem ao tacho.

Depois de cozinhados, retiram-se e reservam-se. Junta-se o arroz (eu uso sempre basmati, mas há quem prefira carolino) e, quando já estiver quase, quase pronto, juntam-se os filetes. Ou comem-se à parte (que foi como resolvi servir).

Acompanhar com um belo vinho branco e boa companhia.

Muito, muito bom.

Berlim

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Foram muitos Berlins, em mim.

A dolorosa aventura de uma viagem a só, o receio de se ver perdida num grupo desconhecido, a descoberta de uma cidade luminosa, grande, larga, em que todos os passos nos guiam pela História do séc. XX. A biblioteca vazia, as inúmeras homenagens às vítimas dos nazis, o museu judaico, a biblioteca vazia, o museu da Resistência, as pedras da calçada com nomes de mortos, as memórias da noite de cristal, a estação de comboios que transportavam os judeus para os locais de aniquilação, a plataforma 17, a contabilização quase diária da humanidade que se assassinava. O muro, os restos do muro, a história do muro, a STASI, o medo, os informadores, a tortura, a censura. E a queda do muro, a libertação, os Trabanti, o tempo que parou, os consumíveis, a morte de quem queria a liberdade.

E a descoberta de outras formas de viajar, de que um grupo de desconhecidos pode transformar-se num grupo de companheiros, os silêncios e as conversas, as cervejarias, os Apfelstrudel, o aprender, o conhecer o que foi para saber o que poderá ser.

Berlim, o recomeço da abertura ao mundo.

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Inquietude

La-desserte-The-Dinner-Table-by-Henri-Matisse_1024

La desserte

Henri-Matisse

 

A pouco e pouco, vai reencontrando o equilíbrio. A velha inquietude, arrasada e desaparecida, refaz o caminho.

O sol também começa a aparecer e os corpos abrem-se às amenas claridades.

Nada como a alegria do convívio, os gestos com que cozinha, mistura os cheiros, abre as garrafas de vinho.

E depois a porta que se abre, as vozes, os abraços, a conversa.

A partilha das palavras, dos olhos, das mãos, o comungar da refeição, das preocupações, das incertezas da vida.

A vida que vai acontecendo.

À espreita, uns olhinhos espantados, observadores, risonhos, uma vozinha que derrete todos os medos e tristezas, vai absorvendo o estar junto de quem se gosta.

A continuidade.

15 fevereiro 2026

Somos democracia

Apesar de André Ventura ter apelado desesperadamente para o adiamento das eleições presidenciais, com o argumento de “que se lixem as eleições”, Portugal demonstrou que a democracia não é alguma coisa que se possa menorizar. Ns difíceis condições que tanta gente está a sofrer, as eleições decorreram com uma afluência assinalável, em que o esforço e a cidadania de quem votou e de quem ajudou a votar ensinou a este populista que a democracia não se adia.

António José Seguro venceu e venceu bem. Tem uma legitimidade reforçada pelo expressivo número de votos conseguidos. O seu discurso de vitória foi muito bom. Foi apaziguador, assertivo e esperançoso.

Finalmente, este Presidente disse, tal como a sua mulher, aquilo que é óbvio e lógico, mas que uma bafienta mole de gente não aceita: na República Portuguesa é eleito um ou uma Presidente e não um casal presidencial; a Constituição não contempla Primeiras damas, esse epíteto ridículo e reacionário.

Grande satisfação pela declaração de Margarida Maldonado Freitas - "Sou farmacêutica e não primeira-dama" e do Presidente recém-eleito - "Respeitarei sempre aquilo que forem as suas decisões. (...) A minha mulher é uma empresária independente, é uma mulher com vida própria e respeito isso".

O regime democrático foi reafirmado e celebrado da melhor forma possível – elegendo o nosso Presidente.

14 fevereiro 2026

Fala do homem nascido

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António Gedeão

 

(Chega à boca da cena, e diz:)

Venho da terra assombrada,
do ventre da minha mãe;
não pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém.
Só quero o que me é devido
por me trazerem aqui,
que eu nem sequer fui ouvido
no acto de que nasci.

Trago boca para comer
e olhos para desejar.
Com licença, quero passar,
tenho pressa de viver.
Com licença! Com licença!
Que a vida é agua a correr.
Venho do fundo do tempo;
não tenho tempo a perder.

Minha barca aparelhada
solta o pano rumo ao norte;
meu desejo é passaporte
para a fronteira fechada.
Não há ventos que não prestem
nem marés que não convenham,
nem forças que me molestem,
correntes que me detenham.
Quero eu e a Natureza,
que a Natureza sou eu,
e as forças da Natureza
nunca ninguém as venceu.

Com licença! Com licença!
Que a barca se faz ao mar.
Não há poder que me vença.
Mesmo morto hei-de passar.
Com licença! Com licença!
Com rumo à estrela polar.

Nova morada - do Sapo para o Blogger

Resilience Paula Crown O Sapo vai deixar de ser uma plataforma de alojamento de blogs. Tudo acaba. Os blogs estão em agonia e só mesmo algu...