19 janeiro 2024

Entrados............

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Chaos in Motion


Arne Quinze


 


Seguiram as festas, boas e menos boas, saiu o ano e entrou o outro, de formas mais ou menos inusitadas.


E aqui estamos no início, que não é início nem fim, mas um contínuo que teimamos em dividir em parcelas mais ou menos significativas, mais ou menos histriónicas, mas ou menos românticas, de um ano que se avizinha louco.


Em Portugal, eleições à vista. O nosso protagonista presidencial, que tanto falou, opinou, ameaçou e ironizou durante o ano da maioria absoluta de um governo que nunca o soube ser, está hoje perdido em parte incerta, depois dos casos que lhe souberam indigitar, tentando resguardar-se após o caso das gémeas brasileiras, a polémica decisão de dissolver o Parlamento, etc.


Polémica não seria, mas tudo ele transformou em polémica, a propósito da controvérsia no seio do Conselho de Estado.


Caminhamos a passos largos para aquilo a que temos assistido noutros países – fragmentação dos parlamentos, radicalização do discurso político, predominantemente à direita, demagogia e populismo sem pejo.


Vou assistindo às notícias das televisões, ouvindo as rádios e lendo os jornais – eu pertenço a essa já mumificada geração que ainda o faz – e encolho-me cada vez mais com as perspetivas.


A crise dos media tradicionais, infelizmente, não me parece resolúvel. As novas gerações não leem jornais, não veem televisão, não sei se ouvem rádio. Estão absorvidos e mergulhados em grupos que não se entrecruzam de redes sociais, vivem uma realidade paralela à nossa, não acreditam nas evidências e não lhes interessa o mundo.


Não digo isto por ser ranzinza, embora também o seja. Todas estas coisas são cíclicas e a sociedade de há 50 anos era muito diferente da de agora. Já não há quase ninguém que tenha vivido a II Guerra Mundial, nada do que se passou já tem eco nos mais novos.


A intolerância, o anti-semitismo, a xenofobia, resultantes predominantemente da gritante desigualdade social, da pobreza de tantos e da opulência de tão poucos, as regras que são ditadas por entidades sem rosto, que podem ser de fundos obscuros ou de outra coisa qualquer, a desumanização e o egoísmo das nossas sociedades de consumo desenfreado, com as novas ideologias fraturantes, que muitas vezes não são mais que a comercialização do politicamente correto e da imagem, o policiamento da linguagem, a proibição e rescrição de eventos e de livros, crescem inexoravelmente.


É muitíssimo preocupante ver jornais como o DN a desaparecerem e a TSF, que revolucionou a rádio em Portugal, que é sinónimo de mudança e liberdade, independentemente de gostarmos mais ou menos do estilo, também a estiolar. Assino 2 jornais diários, que são os que leio. Ouço permanentemente rádio, várias. Vejo as notícias e alguns poucos programas de informação e entretenimento na televisão portuguesa. Mas sou um dinossauro e estou a desaparecer.


E a democracia, o pluralismo, o debate de ideias, o confronto das fontes e das informações, tudo isso que amamos, que é a essência da nossa liberdade e da nossa forma de vida, está ameaçado.


No resto do mundo as notícias não são melhores – as guerras, os autoritarismos a subir, a instabilidade, as revoltas, a intolerância, o medo.


Enfim, nada de auspicioso, este início de 2024.


Mas cá continuamos. Enquanto pudermos.


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Zhanna Martin


Nota: Só me falta dizer que no meu tempo é que era bom. Espero sinceramente que esteja apenas a demonstrar a minha velhice, tal como tantas vezes ouvi pais e avós manifestarem.

24 dezembro 2023

Boas Festas


Air des Matelots | Marin Marais


Shashank Subramanyan & Os Músicos do Tejo


 


Lá fora o sol parece aquecer as almas


que descansam numa clausura serena.


As janelas separam o real do sonhado,


o barroco musical do ruído artificial.


 


Ouço este silêncio aconchegado


antes que me inunde o dilúvio do Natal.


 

11 dezembro 2023

Quadras de Natal (10)

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Salvador Dalí (1971)


 


Não apagues essa luz
Que a noite não se detém
E eu quero ver Jesus
Com o brilho que ele tem


Não apagues a lareira
Que a noite não se detém
E no lume da fogueira
Nasce a estrela de Belém


Não feches o cortinado
Que a noite não se detém
E este fogo ateado
Reconforta quem lá vem


Não desfaças já a mesa
Que a noite não se detém
E quem chegar de surpresa
Será servido também


Não temas a solidão
Que a noite não se detém
Na concha da tua mão
O mundo sabe tão bem

02 dezembro 2023

20ª Competição Internacional de Piano de Leeds


Alim Beisembayev (1º prémio)


Sergei Rachmaninov – Rhapsody on a Theme of Paganini

Um dia como os outros (193)

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"(…) Costa estava para durar e mesmo aqueles que sonhavam 24 horas por dia em derrubá-lo reconheciam isso. E, de repente, Costa cai não porque os seus inimigos políticos o tivessem derrubado, nem pela luta política normal, mas por uma política anormal em democracia, uma mistura grande de incompetência e irresponsabilidade e uma ideologia corporativa antidemocrática, o justicialismo.


É por isso que se devia falar, e muito, deste evento, porque ele transcende a prática normal da democracia e é relevante para todos, sejam da situação ou da oposição. Porque o justicialismo não é redutível ao confronto partidário, não é do PSD contra o PS, ou vice-versa, não é da direita versus a esquerda, ou vice-versa. É uma intervenção no terreno da política democrática de uma concepção corporativa que encontra legitimação numa ideia de superioridade do seu poder assente numa bondade, honestidade e integridade atribuídas a uma casta, que precisa de ter inimigos para se justificar como superior. E esses inimigos são os políticos em democracia, o “outro” poder.

(…) O justicialismo é uma forma mais sofisticada de populismo, mas muito próxima da substância do populismo que alimenta o Chega. Como se verifica no caso actual, os resultados da sua acção podem ser instrumentalizados, o que faz a direita radical e o lucrativo jornalismo de escândalos, retaliação e vingança, cuja ideologia também mergulha nas mesmas fontes. Mas o mecanismo do justicialismo actua para além dos seus efeitos no equilibro político, no reforço da imagem da casta e na intangibilidade dos seus poderes, sempre apresentados como sendo em nome de um valor maior que superaria os estragos menores que provocam.

(…) Estou consciente que há muitas vezes uma linha fina entre criticar o MP e querer estar acima da lei e não ver os seus crimes expostos e sujeitos a sanção. Mas aqui não há uma linha fina, há até uma bastante grossa que deveria existir entre a justiça e a política, e o justicialismo apaga-a todos os dias."



Público, José Pacheco Pereira (02/12/2023)

12 novembro 2023

A democracia encontrará um caminho


Jurassic Park


Os acontecimentos da última semana em Portugal, em que um Parlamento eleito há cerca de 1 ano, com uma maioria absoluta que suporta um governo, é dissolvido por causa da queda do mesmo, são muito preocupantes.


António Costa pede a demissão após as diligências resultantes de investigações a membros do seu governo, envolvidos em supostos casos de corrupção, assim como a existência de suspeitas relativas ao seu próprio comportamento, por ter sido mencionado em escutas telefónicas.


O Presidente aceita a demissão, resolve dissolver a Assembleia da República e marcar novas eleições, mantendo o governo e o Primeiro-ministro em funções, até à aprovação do OE para 2024.


Era mesmo necessário que fosse António Costa a assegurar o governo, já demitido? Não seria possível a Ministra Mariana Vieira da Silva, Ministra da Presidência, ou qualquer outro dos Ministros, assumir o governo até às eleições?


O comportamento e a morosidade da Justiça em todo o nosso período democrático não é de molde a tranquilizar ninguém. Seja qual for o desfecho, o facto é que houve uma intervenção da Justiça no normal funcionamento das Instituições.


Não havia alternativa às eleições antecipadas. Resta-nos esta esperança: a democracia encontrará um caminho (*).


(*) Life finds a way

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...