28 outubro 2018

Escolher a democracia

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Alastra a onda de neofascismo, radicalização dos valores de direita ditatorial, xenófoba, racista, com desprezo e marginalização das minorias, pela liberdade de expressão e pela democracia. Não só nos EUA, como no Brasil, também em Portugal, quando ouvimos e lemos que há pessoas que têm menos direitos que outras, devemos perceber que a democracia não é uma conquista eterna.


 


Ao contrário do que se pensava, a globalização e democratização do acesso à informação, a facilidade de divulgar ideias e pensamentos, não nos fez mais cultos e mais críticos, apenas aumentou exponencialmente a nossa capacidade de nos entrincheirarmos e de multiplicarmos preconceitos, raiva e medos, desaparecendo o pudor e a vergonha de explorar e expor os nossos mais escuros pensamentos. O que era indizível passou a ser bandeira.


 


Sempre fui contra o politicamente correcto, no que isso significa de patrulha autoritária de comportamentos e no que isso leva a bulling social. Fui ultrapassada pelos que, aproveitando esse posicionamento ideológico, o reverteram e travestiram de ataques de ódio e de raiva, apelos ao racismo e à xenofobia, com discursos de incitamento à violência.


 


A eleição de Trump parece ter aberto uma caixa de Pandora, apesar de não ter sido a primeira nesta onda de extremismo de direita. Mas de alguma forma destapou-se uma nuvem de pragas para que muitos de nós não estavam preparados. E não podemos ignorar o que isso diz de nós próprios, como a mole humana que aceita e elege estas criaturas como representantes e motores das nossas sociedades.


 


Os meios de comunicação tradicional têm, neste momento (como ouvi alguém dizer na RTP3), uma oportunidade para recuperarem da quase extinção, se souberem ser o esteio da informação rigorosa, se souberem fugir à facilidade e mediocridade do recurso às redes sociais e semelhantes, sem confirmação de fontes fidedignas, sem manipulação de factos inventados, para que os cidadãos possam ter a possibilidade de fazer escolhas informadas.


 


A mais que provável eleição de Bolsonaro é um susto e uma tragédia. Não consigo compreender como é que entre o alinhamento dos horrores, as pessoas elejam a corrupção, por muito destrutiva que seja, como um mal pior que o assassínio e a tortura, defendidos por aquele personagem. Resta-nos trabalhar para que tudo mude, todos os dias e incansavelmente, denunciando mentiras e manipulações, discutindo ideias, confrontando o que é diferente, apurando factos verdadeiros e não alternativos, percebendo que apenas o conhecimento e a luta contra os preconceitos, filhos dilectos da ignorância, nos liberta dos monstros em que todos nos podemos transformar. E nunca nos demitirmos nem alhearmos, nunca sermos silenciosos apoiantes do que nos destrói.


 


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21 outubro 2018

Destino partido

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Yuichi-Ikehata


 


 


Parti o destino em tantas partes


que não o consigo cumprir.


Pés para um lado cabeça para outro


dedos dispersos numa outra direcção


nada se reencontra nem cola.


 


E eu de tanto me desdobrar


acabei por desaparecer e descobrir


que não sei por onde me procurar.


 

17 outubro 2018

A nova Ministra da Saúde

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Nuno Ferreira Santos


Público


 


Se tem propostas polémicas é bem vinda. Com algumas delas concordo, já há bastante tempo. Espero que as possa colocar mesmo em prática.


 


É urgente mudar e adaptar o SNS às novas realidades. Já o era há uma década, agora é ainda mais.


 


(17.01.2015)


(...) Continuo à espera que o PS, como partido que procura uma maioria absoluta para governar este desgoverno, proponha uma reforma, reestruturação, ou outra qualquer palavra que tenha um significado semelhante, com as seguintes prioridades:



  1. Investir nos cuidados primários de saúde – descentralizar o sistema deslocando a porta de entrada dos doentes para os seus centros de saúde, afastando-as do sistema hospitalar;

  2. Prover esses centros de saúde com meios de diagnóstico de rotina, próprios ou contratualizados, para que possam tratar e seguir doentes com patologias crónicas;

  3. Prover os centros de saúde de consultas de especialidade por especialistas, que possam acompanhar os doentes na comunidade, em vez de terem que sobrecarregar os hospitais, incluindo pequenas cirurgias, estomatologia, oftalmologia, etc, para que permitisse a saudável e indispensável convivência interdisciplinar com os médicos de medicina geral e familiar;

  4. Rever e providenciar para que as carreiras de enfermagem e de técnicos de diagnóstico e terapêutica possam assumir determinadas funções que, ao contrário de retirarem competências aos médicos os ajudam e os preservam para actos e funções que só eles podem fazer, com a respectiva formação e recertificação de competências;

  5. Rever e reestruturar as redes e os serviços hospitalares, começando por definir as prioridades de atendimento e de serviços oferecidos, com base no conhecimento das patologias e realidade/ dimensão das populações – investir em centros de estudo epidemiológico, estatístico, como o registo oncológico nacional, etc.

  6. Reajustar e renovar os quadros de recursos humanos, em todas as vertentes, mantendo uma estrutura que permita a formação dos mais novos e a optimização e eficiência do funcionamento dos serviços

  7. Alterar as remunerações do pessoal de saúde, com uma avaliação do desempenho real e rigorosa, adaptada a cada área e a cada função, motivando e premiando o mérito

  8. Apoiar e incentivar a formação contínua, a recertificação e a acreditação dos serviços e dos profissionais, numa cultura de verdadeira aposta na qualidade – redução dos riscos. (...)


 

16 outubro 2018

Ruídos

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Magdalena Abakanowicz


 


 


O ruído ensurdecedor da vida que baralha


a luz as cores a vibração do mundo.


Para onde foram as arrumações que o destino


organiza fora dos olhos que me habituei a usar?


 


Já não encontro as coordenadas do meu corpo


perdi-me nos labirintos da mansidão


na penumbra que me envolve e sustenta


não mais que uma sombra que se ausenta.

15 outubro 2018

Um dia como os outros (187)

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(…) Porque já tivemos muitas versões - até do que foi roubado. Em julho do ano passado, menos de 15 dias após o "roubo", o então chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, general do Exército Pina Monteiro, afirmou que parte do material furtado estava "para ser abatido", e outra parte não tinha condições para ser usada de forma eficaz. Ou seja, os ladrões, que claramente sabiam tudo sobre o funcionamento da base e do material que lá estava e onde, tinham roubado coisas, na maioria, imprestáveis? Quê, por piada? Mais de um ano depois, tendo o material sido alegadamente recuperado (com uma caixa de petardos "a mais", disseram-nos, e 1450 munições a menos), tal confirmou-se? Não sabemos.


Não sabemos nada. Não sabemos porque é que foram feitos dois buracos na rede da base de Tancos - um não chegava? Não sabemos como foi possível 300 quilos de material serem levados, supostamente a pé, num trajeto de 420 metros, até a um desses buracos, ainda por cima - se as imagens da "recuperação" do material postas a circular pelo exército são verdadeiras -, em paletes de madeira, coisa maneirinha, boa de levar às costas. Não sabemos como é possível que numa base onde a chefia sabia que tinha videovigilância, sensores e eletrificação da cerca inoperantes não existiam sentinelas nem rondas eficazes e não tenha havido disso consequências (à exceção de três processos disciplinares a baixas patentes).


Não percebemos como pode haver uma operação fantoche para "recuperar" as armas com acusações cruzadas entre três militares do Exército, um dos quais, Luís Vieira, ex-diretor da Polícia Judiciária Militar (preso preventivamente) e outro Martins Pereira, o ex chefe de gabinete do ministro e atual adjunto do chefe do Estado-Maior do Exército - e este último, Rovisco Duarte, que todos nomeou e superintende, ficar mudo e quedo como se não fosse nada com ele.


Não percebemos como pode o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, almirante Silva Ribeiro, calar-se ante toda esta fantochada.


Não percebemos como pôde o ministro agora demitido dizer, em setembro de 2017, em entrevista ao DN/TSF um mês antes da "recuperação", esta frase sibilina - "No limite, pode não ter havido furto nenhum. (...) Podemos admitir que o material já não existisse e tivesse sido anunciado... e isto não pode acontecer" -, uma frase em que põe a hipótese de todo o caso ser uma fabricação, uma sabotagem, e portanto um ato de traição perpetrado no seio do Exército, e isso não ter consequências. (…)


(…) Por exemplo o ex-porta-voz da PJM, Vasco Brazão, atualmente em prisão domiciliária, garante que esteve, no fim de 2017, numa reunião com o ex-diretor da PJM e o então chefe de gabinete do ministro, na qual foi entregue um memorando com toda a história da inventona ao chefe de gabinete (com o objetivo, alega, de o ministro retirar a PJ do rasto - mas, ainda que mal pergunte, ao CEME, seu chefe direto, nada teriam dito?). Contraditado quer pelo ex-diretor da PJM quer pelo ex-chefe de gabinete, Brazão diz, segundo o Expresso de ontem, que tem o memorando em causa e que vai dá-lo ao MP para ser analisado em busca de impressões digitais. Portanto o memorando entregue afinal ficou com ele? Já o atual adjunto do CEME certifica ter dado a "documentação verdadeira" ao MP. Ou seja, levou-a consigo quando saiu do ministério? Isto agora é assim, levam-se papéis do governo para casa quando se sai do governo e ainda se tem a lata de confessar?


"Um dia havemos de saber o que cada um sabia sobre esta história de Tancos", disse, um dia antes da demissão de Azeredo, e tão sibilino como o seu ex-ministro, o PM no debate quinzenal. Talvez venhamos a saber, talvez não. Mas já sabemos isto: da desonra o Exército não se livra. E da suspeita de que, como todos antes de si, não sabe como pôr as Forças Armadas e as forças ocultas que nela medram na ordem, o governo não se safa.


 


Fernanda Câncio

14 outubro 2018

Asfalto

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Retirantes


Portinari


 


 


As palavras decapitadas pingam no asfalto


seguem gritos de pena e balas


morros de terra abatidos navios de prata


que abrem a serenidade do esquecimento.


Sangram as palavras derretidas no asfalto


da morte tatuada nas almas dementes.


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...