
pintura de Gustave Doré
A morte de Abel
Génesis
Capítulo IV
- E conheceu Adão a Eva, sua mulher; e ela concebeu e pariu a Caim, e disse: Alcancei um Varão do Senhor.
- E pariu também a seu irmão Abel: e Abel foi pastor de ovelhas, e Caim foi lavrador da terra.
- E aconteceu a cabo de dias, que Caim trouxe do fruto da terra [uma] oferta ao Senhor.
- E Abel também trouxe dos primogénitos de suas ovelhas, e de sua gordura: e atentou o Senhor para Abel e para sua oferta.
- Mas para Caim e para sua oferta não atentou. E assanhou-se Caim em grande maneira, a ponto de lhe caírem suas faces.
- E o Senhor disse a Caim: Porque te assanhaste? E porque te caíram tuas faces?
- Não haverá exaltação se fizeres o bem? E se não fizeres o bem, o pecado está deitando à porta, com desejo de ti, e ele se assenhorará.
- E falou Caim com seu irmão Abel: e aconteceu, que estando eles no campo, se levantou Caim contra seu irmão Abel, e matou-o.
- E disse o Senhor a Caim: Onde está Abel teu irmão? E ele disse: Não sei. Sou eu guardador de meu irmão?
- E disse [Deus]: Que fizeste? A voz do sangue de teu irmão clama a mim da terra.
- E agora maldito sejas tu na terra, que abriu sua boca para receber o sangue de teu irmão de tua mão.
- Quando lavrares a terra, não te dará mais sua força: vagabundo e forasteiro serás na terra.
- Então disse Caim ao Senhor: Maior é minha maldade, que se perdoe.
- Eis que hoje me lanças da face da terra, e de tua face me esconderei; e serei vagabundo e forasteiro na terra; e acontecerá que todo aquele que me achar me matará.
- Porém o Senhor lhe disse: Qualquer que matar a Caim, sete vezes será castigado. E pôs o senhor um sinal a Caim, para que não o ferisse qualquer que o achasse.
- E saiu Caim diante da face do Senhor: e habitou na terra de Nod, na banda do oriente do Éden. (…)
Bíblia Ilustrada, tradução de João Ferreira Annes de Almeida; apresentação e fixação do texto: José Tolentino Mendonça; ilustrações: Ilda David; Assírio & Alvim
Caim (lança) o primogénito, talvez o preferido de Eva, Caim o lavrador, aquele que faria o bem para que fosse recompensado, aquele que ferveria de ciúmes perante Abel (nada), que era crente e solícito, que era bom.
Caim, aquele que escolheu o mal, aquele que pecou, aquele que foi condenado a prisão perpétua e não à morte, o que fugia de Deus e da voz do sangue do seu irmão, aquele que viveu a leste do Paraíso.
Caim, o escolhido por Deus como exemplo, o escolhido de Deus como sinal do lado negro do homem, o escolhido por Deus como prova. Caim, o sacrificado por Deus.
Esta história é uma história de humanidade e desumanidade, de amor, paixão, ciúme e morte, de condenação sem perdão. É uma história de sempre. Crentes, ateus ou agnósticos, há nestes livros uma profunda reflexão sobre nós, como nos vemos, como nos relacionamos, como nos amamos. Podemos sempre interpretá-los de forma literal, mas perderemos um manancial de informação sobre a nossa própria memória ancestral, os nossos medos e os nossos mitos.