31 março 2007

A marca de Deus (1)

É muito complicado falar de assuntos religiosos, ou mais precisamente bíblicos, com cristãos católicos. Talvez também o seja com judeus e islâmicos, mas na verdade nunca se proporcionou a oportunidade.

Mas hoje, a propósito de Judeus, Bispos e Cardeais, eleições papais, antigo e novo testamento, falou-se inevitavelmente da Páscoa.

Páscoa (do hebraico Pessach) significando passagem - a passagem do anjo exterminador. Para os judeus a Páscoa é a festa que comemora a libertação do Egipto, após a última das dez pragas enviadas por Deus (a morte dos primogénitos egípcios) e por Moisés transmitida ao Faraó, negociando a libertação do seu povo, aplacando a ira de Deus.

Os judeus são um povo exclusivista na sua religião e na sua cultura, cioso das suas tradições. O antigo testamento é a história do povo eleito, do povo escolhido por Deus, que exclui todos os outros povos.

Embora o anti-semitismo seja uma terrível realidade histórica que nos acompanha ao longo dos séculos, com numerosas purgas, expulsões e perseguições de judeus pelo mundo fora, a Bíblia conta-nos, de forma alegórica, a primeira manifestação de ódio ou exclusão religiosa, manifestada pelos judeus, ou pelo seu Deus vingativo, contra os egípcios, ao determinar o extermínio dos primogénitos daqueles que não detinham a marca da sua religião: o sangue do cordeiro imolado na porta das suas casas.

(The Golden Haggadah: The Passover)

Passagens

Todos temos as nossas semanas pascais, em que nos preparamos para o que vier depois.

Depois, sempre depois, desde a profunda inspiração que antecede o último esforço do parto, até ao sono que anuncia o acordar.

Sempre depois do medo, da felicidade, da doença, do traumatismo, do sorriso, do abraço, estamos sempre em preparação, de passagem entre uma emoção e a que há-de existir, para além.

Todos temos os nossos momentos pascais, que nesta vida com horizontes sem sinais nem caminhos traçados tendem a ser perpétuos.


(pintura de Shem: Passage of Time)

30 março 2007

27 março 2007

Apenas

Preciso de tão pouco
para que o dia me levante.

Preciso apenas das gotas
de chuva na janela
do rumorejar das folhas
que sussurram
do pincel
dos teus dedos
na minha pele.

E no entanto
para ter
assim tanto
vivo apenas no espanto
de querer.

26 março 2007

Corrupção

Corrupção é encolher os ombros e murmurar ao ouvido do lado as iniquidades de quem manda;

corrupção é olhar na direcção contrária e estender a mão debaixo da mesa, para receber a aprovação de quem manda;

corrupção é fechar os olhos, os ouvidos e o nariz e sorrir apreciativamente aos espaventos estertorosos de quem manda;

corrupção é levantar-se do único lugar da esplanada para o dar a quem manda, e ficar com as réstias de sol que lhe sobra.

A corrupção é o resultado de milhões de anónimos tentando ignorar anonimamente o abuso de outros anónimos que se sentem com direito a ter nome.

E quem é que os nomeia?

E quem é que nos incendeia?

25 março 2007

Ainda

Esperam-nos pássaros caminhos
não ouvidos não caminhados.

Esperam-nos sonhos carinhos
não sentidos não sonhados.

Que faremos por merecer
nas pedras fontes do amanhecer?

Que faremos para entender
os mundos que sobram para viver?


(pintura de Nacera Guerin: one path)

Miséria e grandeza

Entre as cinzentas, pomposas e circunstanciais celebrações dos 50 anos da União Europeia, entendeu o nosso Excelentíssimo e Digníssimo Presidente da República excluir dos convidados de tão interessantes eventos o Dr. Mário Soares, antigo Presidente da República e, apenas e só, aquele que assinou o tratado de Adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia, em 1985.

É verdade que Mário Soares se escapuliu da cerimónia de cumprimentos a Cavaco Silva, aquando da sua tomada de posse como Presidente. Não o devia ter feito, por todas as razões que nos lembremos e mais ainda.

Mas este gesto de Cavaco Silva, como uma vingança mesquinha, só demonstra a pequenez com que interpreta o seu papel na história recente de Portugal, e a sua falta de grandeza ao não reconhecer as grandezas de outros, entre as inúmeras misérias de que todos somos protagonistas.

Ficou-lhe mal a ele, como pessoa, e ficou muito mal ao país, que ele representa, pois não foi capaz de honrar a quem muito deve.

(fotografia da assinatura do tratado de Adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia, 12/06/1985, Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa)

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...