02 dezembro 2006

Música



Por dentro da música
nas cordas da guitarra
sem ver nem ouvir
sou as notas dedilhadas
fogosas ou solitárias
efémeras como o som.

01 dezembro 2006

Heranças




Enquanto carregava o enorme frasco com a aguardente, as cascas e os caroços de pêssegos, despojos da sessão compoteira de Setembro, subindo as escadas como se tivesse vários longos braços de polvo, com numerosos sacos a abarrotar de garrafas vazias que tinha recolhido nos cafés mais próximos, para reciclar, espantou-se mais uma vez com os caminhos desviantes que a vida percorre.

Quem poderia imaginar, muito menos ela, que seria a guardiã das tradições culinárias do Natal, que seria ela a receber a herança dos licores, das consoadas, do bacalhau cozido, das rabanadas, do ananás com vinho do Porto?

Mediu bem medida a infusão de aguardente e pêssego, e pôs a panela ao lume com o açúcar e a água, para fazer o xarope. Ainda hoje lhe tinham falado mais uma vez de um pesa-xaropes, um utensílio misterioso de que toda a gente sabia a existência, menos ela.

Procurou em várias gavetas um guardanapo de linho para filtrar o licor. Foi provando e aquecendo, à medida que as faces se lhe avermelhavam, e que as pernas se tornavam mais pesadas.

Agora só faltava distribuí-lo pelas garrafas que, entretanto, tinha lavado, desinfectado e limpo de rótulos e cola. E colar os novos rótulos que tinha feito no computador.

Estava divinal, um néctar digno de deuses. Doce e aveludado, mesmo apropriado para Nossa Senhora, que de há 2000 anos a esta parte não parava de dar à luz!

Licor de pêssego



  • Deixar cascas e caroços de pêssego dentro de uma boa aguardente vínica, bem forte, por uns 2 meses, num grande frasco de boca larga, bem fechado;

  • Quando a cor das cascas tiver passado para a aguardente, filtrar a infusão (em pano de linho, em papel de filtro, naquilo que não abusar demasiado da paciência);

  • Fazer um xarope (para 1l de infusão/ 1l de água) com água e açúcar (1l água/750gr açúcar ao lume, a ferver, durante 15 minutos);

  • Deitar a infusão filtrada para o xarope e deixar levantar fervura;

  • Filtrar outra vez;

  • Engarrafar (rolhar só quando estiver frio!).


[pode provar-se (muitas vezes), para ver se não se estragou…]

Poeira


Frutos do acaso, do encontro
fortuito, da troca azarada
de matéria orgânica,
insignificantes partículas
do universo,
preocupados com a relevância
que não temos,
com focos de originalidade
que não somos,
orbitamos à volta da esfera
dos corpos,
numa amálgama deformada
de moléculas e sentimentos
irrepetíveis,
irrelevantes.


(fotografia de Ignacio de la Cueva Torregrosa: La Vía Láctea en Sagitário)

Dezembro

O dia amanheceu de cara lavada. Bach convida à meditação.

Começamos o mês da boa vontade artificial, da solidariedade encomendada e enfeitada, dos coros pouco celestiais.

Olhemos para nós, para o percurso da nossa vontade, dos nossos gestos diários, das nossas prioridades enquanto cidadãos. Dezembro é o exemplo do desperdício, do cinismo e da hipocrisia, da inveja e da ambição, de tudo o que é descartável e perecível.

Ainda estamos a 1 de Dezembro deste ano. Eu gostaria de estar já a 1 de Janeiro do próximo ano.


(Ilustração de Stefan Mart: christmas shopping)

30 novembro 2006

Referendo


Para que não restem quaisquer dúvidas...

Condição Militar


Em Portugal, apesar de muito se falar pouco se decide e quase nada se faz de acordo com o que se promete. As Forças Armadas portuguesas, depois de um período áureo após o 25 de Abril, em que foram consideradas heroínas nacionais, com a consolidação da democracia e com a natural subordinação ao poder político, foram sendo esquecidas, abandonadas, desprezadas e vilipendiadas.

Hoje em dia é frequente ler e ouvir diversas personagens interrogarem qual as funções dos militares, discorrerem sobre a inutilidade do financiamento do Exército, Marinha ou Força Aérea, dando a entender, implícita ou explicitamente, que o conjunto dos militares são sobejamente dispensáveis na nossa sociedade democrática, e que qualquer arremedo de protesto da parte da própria Instituição deve ser esmagada arrogante e exemplarmente.

Com frequência são as mesmas pessoas que sugerem a importância da representação de Portugal no exterior, nomeadamente com a presença das mesmas Forças Armadas em terrenos de conflito internacional, como parte de corpos de manutenção da paz, congratulando-se com o elevado profissionalismo e qualidade desses corpos especiais.

Ontem, a propósito da divulgação de uma carta ou memorando do Chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas (Almirante Mendes Cabeçadas) ao Ministro da Defesa, Jorge Coelho, na Quadratura do Círculo, defendeu que os militares deveriam acatar as decisões do governo e que era natural que não gostassem quando lhes tiravam regalias, o que acontecia com todas as outras classes profissionais. E ainda que era preciso cumprir a lei. E ainda que não é por eles terem armas que se deve recuar.

É claro que o país é pobre e tem muitas dificuldades. Mas os militares não têm uma profissão idêntica às outras profissões, não são funcionários públicos como todos os outros. São servidores do Estado com deveres muito específicos, entre os quais a disponibilidade completa do seu tempo, da sua pessoa, por vezes da sua própria vida. Não têm os mesmos direitos cívicos que todos os outros cidadãos, visto não poderem manifestar-se, criar sindicatos que tratem dos seus problemas laborais, que reivindiquem aumento de ordenados ou pagamentos de horas extraordinárias (para eles não há horas extraordinárias), não podem pertencer a partidos ou candidatar-se a cargos políticos, têm algumas das suas liberdades cívicas cerceadas.

Parece-me natural que o Estado deva dar algumas contrapartidas a estes seus servidores. Sou a favor da extinção da ADSE, das caixas de previdência dos magistrados, dos juízes, dos advogados, dos médicos, dos jornalistas, até de toda a função pública. Com excepção do subsistema de saúde para os elementos das Forças Armadas, da Guarda Nacional Republicana e da Guarda Fiscal. Sou totalmente a favor de se olhar para as remunerações e para os fundos de pensões destes cidadãos de forma distinta da utilizada noutros grupos profissionais.

Esta é a chamada “condição militar”, que é tão importante que tem forma de lei (Lei n.º 11/89 de 1 de Junho - Bases gerais do estatuto da condição militar) aprovada por Cavaco Silva enquanto primeiro-ministro. Será que esta lei está a ser cumprida?

Será que nos outros países da União Europeia os militares têm o mesmo estatuto que em Portugal? Será que o nível remuneratório, a protecção na saúde e na doença e a protecção às famílias são comparáveis?

Eu também acho as manifestações, associações, passeios e sindicatos absolutamente inaceitáveis, além de ilegais, a pedirem uma resposta firme e imediata da parte do governo. Mas será que um governo que quer ser respeitado tem tido o mesmo respeito pela instituição militar?

Aos militares pede-se que honrem o seu compromisso. Ao Estado pede-se que honre os seus cidadãos, entre os quais aqueles que são o último garante da existência do próprio Estado.

29 novembro 2006

Outras margens


Esqueço-me muitas vezes de abrir a janela e deixar esfriar a pele, secar afogueamentos de paixões inúteis, estéreis, frívolas, respirar a humidade da noite, sentir as luzes que se movimentam nas casas, viver para lá dos compromissos, da tortura do controlo.

Outras margens me esperam, outras viagens planeadas, outros acasos surgirão. Na roda do imparável, microcosmos no universo, pequenas moléculas num organismo que se move lentamente em direcção ao caos.

Desenho fronteiras quando escrevo
letras e sementes inventadas.
Para lá do poema apetecido
guardo as palavras cobiçadas
na sombra do sonho proibido.


(pintura de Irene Gomes: os moinhos de vento)

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...