Voz de Sal
Rodrigo Leão & Ana Carolina Costa
Martirio & Raúl Rodríguez
Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]

Luís de Camóes
Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E para mais m´espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado.
Fui mau, mas fui castigado:
Assim que: só para mim
Anda o mundo concertado

Der Tod und das Mädchen
Pergunto-me muitas vezes porquê o esforço? O insano e titânico esforço para fazer aquilo que deve ser feito, o correto, o certo.
O que é então o certo, o correto, o que deve ser feito?
Sempre, sempre o que custa mais, o que dói, o que precisa de tanto trabalho e frustração. Aquilo que, só mesmo de vez em quando. se consegue.
Então porquê o esforço? Porquê? Se não há Deus para castigar ou premiar, se todos vamos morrer da mesma forma, com pele, ossos, carne e vísceras, algumas peças dentárias, algumas próteses com que vamos enchendo corpos e almas ao longo da vida?
Porque nos embrenhamos na culpa de, dentro do mais fundo de nós, sentirmos o prazer como pecado, a facilidade como preguiça, o conforto como luxúria a que não temos direito?

Muitas vezes me questiono sobre os valores morais, a decência, a mudança dos mesmos e das suas definições ao longo dos séculos, o que é aceitável em 1500, 1900, 1940 ou 2024, de como, no século XXI, tantos comportamentos assustadores e inimagináveis começam a reaparecer. Como foram possíveis, no último século, e como estão eles a renascer?
A relatividade com que, hoje, se fala dos direitos, liberdades e garantias, a falta de sobressalto quando se ouvem líderes políticos defenderem atitudes, comportamentos, leis, que há uns anos nos pareceriam dignos de gente louca, terrorista ou criminosa, mostra bem que somos os mesmos, a mesma massa humana, e que tantos séculos de evolução pouco mudaram a nossa mente.
Mas na verdade, as pulsões da intolerância, da xenofobia e do racismo mantêm-se, por vezes mais abertas por vezes mais escondidas. O que permitiu às sociedades ocidentais fenómenos ditatoriais e de escravização das minorias, dos diferentes, a forma como rapidamente o anti-semitismo cresce e se espalha, como gente comum se torna em gente mesquinha, medrosa, criminosa (a tal banalidade do mal), é aquilo a que vamos assistindo, ciclicamente, ao longo da História.
Porque os sentimentos humanos, a generosidade e a solidariedade, o respeito pelo outro, a empatia e a compaixão, a certeza de que há atitudes, pensamentos e valores que são certos e que devem ser defendidos a todo o custo, mostram-nos que somos amálgamas imperfeitas mas que há sempre aqueles que são justos, mesmo com risco da própria vida.
O livro Village of Secrets - Defying the Nazis in Vichy France, é a história de muitos heróis simples e discretos, gente que, mesmo com as dificuldades da ocupação, com a fome e o roubo a que permanentemente estavam sujeitos pelos ocupantes alemães, aqueles que se negaram a colaborar com a regime de Vichy, numa comuna francesa junto à fronteira com a Suíça (Le Chambon-sur-Lignon), fizeram das suas casa, quintas, hotéis, cafés, escolas, caves, dos seus amigos, conhecidos, familiares, um exército civil de resistência, de esconderijos e refúgio para judeus, criação de identidades falsas e arquivos de nomes verdadeiros de crianças, juntamente com impressões digitais, para que, na esperança de um fim mais feliz, fosse possível aos milhares de martirizados que ajudavam, recuperarem o mínimo da sua identidade familiar e cultural.
Não nos enganemos. Podemos ser os libertadores e os algozes. Aquilo a que vamos assistindo pelo mundo, à destruição da decência, a criação de verdades e de factos alternativos, o desatar dos nossos mais baixos instintos, auguram o regresso da escuridão. Felizmente há sempre alguma luz. Que não a percamos de vista.


Há muitos anos, mais precisamente 47, houve um concurso televisivo que se chamava A Visita da Cornélia.
Vários pares de candidatos aos prémios tinham que fazer provas, das mais diversas, sendo avaliados por um júri, que dava notas.
Temos, agora, a renovação deste género de consursos - A Visita dos Candidatos. Os júris são diferentes, consiante os meios de informação, mas tudo o resto é semelhante. Os candidatos cumprem as provas, cada vez mais histriónicas e disparatadas, mas o espetáculo tem que continuar.


Ultimamente tenho andado bastante em TVDE, pela capacidade proibitiva de médicos super cautelosos, que não me deixam conduzir durante 6 semanas.
A verdade é que decidi entrar no ano de 2024 visitando o Serviço de Urgência, depois de dias e dias a aconselhar a toda a gente da minha roda familiar, que não poderia escorregar, tropeçar, cair, contrair maleitas fossem elas quais fossem, porque os serviços de urgência não estavam visitáveis.
Portanto eu, fazendo jus ao certeiro provérbio faz o de ele diz, não faças o que ele faz, a poucas horas do réveillon, decidi tropeçar em casa, cair e partir o braço, felizmente o esquerdo. Ou seja, lá fui experimentar a doce satisfação de ir para as urgências, de braço em ângulo exótico, RX, TAC, redução, gesso, RX e a maravilhosa notícia, já nos primeiros minutos de 2024, de que teria de ser operada, com a sentença de iniciar uma baixa médica por 8 dias.
E assim foi, dia 3 de janeiro, um êxito de operação, uma simpatia, profissionalismo e competência de todos (das urgências ao bloco operatório, da radiologia ao recobro) os que me trataram, com a fantástica notícia de que teria de estar de baixa 1,5 meses.
É claro que já estou a trabalhar, mas como não posso mesmo conduzir (amanhã faz 6 semanas, felizmente), tenho andado em TVDE. Já me calharam condutores silenciosos, outros faladores, mais novos e mais velhos, paquistaneses, indianos, brasileiros, portugueses, de todos os tamanhos e feitios, todos muitíssimos corteses e disponíveis a ajudar.
Um dos últimos, simpaticíssimo e alegre, veio todo o caminho a falar, tendo-me confidenciado que o Trump sabia perfeitamente que os drones eram comandados por extraterrestres, que Marcelo Rebelo de Sousa (seu amigo) estava à espera de ordens, que os políticos não podiam fazer mais porque os extraterrestres não deixavam, mas que se nos quisessem matar, já estávamos todos mortos.
Amanhã recomeçarei a levar o carro, devagar, devagarinho.
Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...