13 fevereiro 2024

Entrudos

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Entrudo - aldeias do xisto de Góis


 


É mesmo um Carnaval, ao que vamos assistindo.


Em vésperas de eleições, os bailes televisivos são feios, cacofónicos, inúteis, tristes, dispensáveis. Nem as máscaras são novas, nem bem feitas, nem vistosas. Apenas velhas, defeituosas e assustadoras.


Ouvem-se palavras e ideias, palavras sem ideias e ideias verdadeiramente inomináveis. Parece que, de repente, todos nos transformámos em gente grosseira, sem princípios nem valores, de uma estreiteza de vistas difíceis de compreender.


De tudo se faz tábua rasa - militares e paramilitares a fazer greve e filiados em partidos? Por que não? Ameaças de boicote às eleições? Qual o problema? Criminalizar os imigrantes sem autorização de residência? Os malandros que nos andam a tirar empregos e a islamizar?


As guerras na Ucrânia e israelo-palestiniana? Não têm interesse nenhum. O que é importante é o leilão das medidas, sem qualquer base estratégica, sem qualquer noção do que se quer, do rumo e do investimento (não só financeiro) que se entende melhor para o futuro.


Infelizmente, o Entrudo não acaba amanhã. Estaremos em corso sem paragem pelo menos até 10 de março. Em Portugal, nos EUA, na Europa. Mais tarde ou mais cedo, virá a Quaresma.

04 fevereiro 2024

Cada um cumpre o destino que lhe cumpre

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Valeriy Osmakov


 


Cada um cumpre o destino que lhe cumpre.


E deseja o destino que deseja;


                Nem cumpre o que deseja,


                Nem deseja o que cumpre.


 


Como as pedras na orla dos canteiros


O Fado nos dispõe, e ali ficamos;


                Que a Sorte nos fez postos


                Onde houvemos de sê-lo.


 


Não tenhamos melhor conhecimento


Do que nos coube que de que nos coube.


                Cumpramos o que somos.


                Nada mais nos é dado.



[Ricardo Reis]

19 janeiro 2024

Entrados............

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Chaos in Motion


Arne Quinze


 


Seguiram as festas, boas e menos boas, saiu o ano e entrou o outro, de formas mais ou menos inusitadas.


E aqui estamos no início, que não é início nem fim, mas um contínuo que teimamos em dividir em parcelas mais ou menos significativas, mais ou menos histriónicas, mas ou menos românticas, de um ano que se avizinha louco.


Em Portugal, eleições à vista. O nosso protagonista presidencial, que tanto falou, opinou, ameaçou e ironizou durante o ano da maioria absoluta de um governo que nunca o soube ser, está hoje perdido em parte incerta, depois dos casos que lhe souberam indigitar, tentando resguardar-se após o caso das gémeas brasileiras, a polémica decisão de dissolver o Parlamento, etc.


Polémica não seria, mas tudo ele transformou em polémica, a propósito da controvérsia no seio do Conselho de Estado.


Caminhamos a passos largos para aquilo a que temos assistido noutros países – fragmentação dos parlamentos, radicalização do discurso político, predominantemente à direita, demagogia e populismo sem pejo.


Vou assistindo às notícias das televisões, ouvindo as rádios e lendo os jornais – eu pertenço a essa já mumificada geração que ainda o faz – e encolho-me cada vez mais com as perspetivas.


A crise dos media tradicionais, infelizmente, não me parece resolúvel. As novas gerações não leem jornais, não veem televisão, não sei se ouvem rádio. Estão absorvidos e mergulhados em grupos que não se entrecruzam de redes sociais, vivem uma realidade paralela à nossa, não acreditam nas evidências e não lhes interessa o mundo.


Não digo isto por ser ranzinza, embora também o seja. Todas estas coisas são cíclicas e a sociedade de há 50 anos era muito diferente da de agora. Já não há quase ninguém que tenha vivido a II Guerra Mundial, nada do que se passou já tem eco nos mais novos.


A intolerância, o anti-semitismo, a xenofobia, resultantes predominantemente da gritante desigualdade social, da pobreza de tantos e da opulência de tão poucos, as regras que são ditadas por entidades sem rosto, que podem ser de fundos obscuros ou de outra coisa qualquer, a desumanização e o egoísmo das nossas sociedades de consumo desenfreado, com as novas ideologias fraturantes, que muitas vezes não são mais que a comercialização do politicamente correto e da imagem, o policiamento da linguagem, a proibição e rescrição de eventos e de livros, crescem inexoravelmente.


É muitíssimo preocupante ver jornais como o DN a desaparecerem e a TSF, que revolucionou a rádio em Portugal, que é sinónimo de mudança e liberdade, independentemente de gostarmos mais ou menos do estilo, também a estiolar. Assino 2 jornais diários, que são os que leio. Ouço permanentemente rádio, várias. Vejo as notícias e alguns poucos programas de informação e entretenimento na televisão portuguesa. Mas sou um dinossauro e estou a desaparecer.


E a democracia, o pluralismo, o debate de ideias, o confronto das fontes e das informações, tudo isso que amamos, que é a essência da nossa liberdade e da nossa forma de vida, está ameaçado.


No resto do mundo as notícias não são melhores – as guerras, os autoritarismos a subir, a instabilidade, as revoltas, a intolerância, o medo.


Enfim, nada de auspicioso, este início de 2024.


Mas cá continuamos. Enquanto pudermos.


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Zhanna Martin


Nota: Só me falta dizer que no meu tempo é que era bom. Espero sinceramente que esteja apenas a demonstrar a minha velhice, tal como tantas vezes ouvi pais e avós manifestarem.

24 dezembro 2023

Boas Festas


Air des Matelots | Marin Marais


Shashank Subramanyan & Os Músicos do Tejo


 


Lá fora o sol parece aquecer as almas


que descansam numa clausura serena.


As janelas separam o real do sonhado,


o barroco musical do ruído artificial.


 


Ouço este silêncio aconchegado


antes que me inunde o dilúvio do Natal.


 

11 dezembro 2023

Quadras de Natal (10)

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Salvador Dalí (1971)


 


Não apagues essa luz
Que a noite não se detém
E eu quero ver Jesus
Com o brilho que ele tem


Não apagues a lareira
Que a noite não se detém
E no lume da fogueira
Nasce a estrela de Belém


Não feches o cortinado
Que a noite não se detém
E este fogo ateado
Reconforta quem lá vem


Não desfaças já a mesa
Que a noite não se detém
E quem chegar de surpresa
Será servido também


Não temas a solidão
Que a noite não se detém
Na concha da tua mão
O mundo sabe tão bem

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...