08 maio 2023

O princípio do fim

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Largada de paraquedistas no sul de França


Faz hoje 78 anos que foi assinada, em Reims, a rendição incondicional da Alemanha, após os anos devastadores da II Guerra Mundial, desencadeada pela Alemanha Nazi.


O fim da II Guerra, na Europa, tinha sido precedida pelo desembarque das tropas Aliadas no dia 6 de junho de 1944 (D-Day), na operação militar conhecida como Operação Overlord. A invasão da Normandia, pelos Aliados, iniciou a reconquista e a libertação da Europa.


Também a 15 de agosto de 1944, os Aliados desembarcaram na Provença, na operação que ficou conhecida como Anvil-Dragoon, em que invadiram a costa mediterrânica da França entre Toulon e Cannes. As duas operações faziam parte da estratégia dos Exércitos Aliados de pôr os alemães a defenderem-se em duas frentes diferentes, em França - uma vinda do Atântico (o martelo - Overlord), outra do Mediterrâneo (bigorna - Anvil).


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L'Ést Republicain


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L'Ést Republicain


O conjunto de Tropas envolvidas na invasão da Provença era constituído por americanos e franceses. Estes provinham do seu império colonial, a grande maioria do Norte de África - Argélia (europeus e muçulmanos), Marrocos, Senegal.


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Mapa da operação Dragoon


Em Toulon a batalha que se seguiu (entre 20 e 26 de agosto), deixou a cidade destruída, nomeadamente o seu Vieux Port, que foi, inclusivamente, sabotado pelos alemães.


Depois de aterrarmos em Marselha, rumámos a Toulon onde, num fim de tarde lindíssimo, passeámos pela marina e acabámos a saborear o mar, o pôr-do-sol e umas moules frites que estavam divinas.


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Hoje resolvemos ir visitar o Mémorial du Débarquement et de la Libération en Provence, situado no cimo do monte Faron. Foi um susto chegar lá, por uma estrada estreitíssima, com abismos de ambos os lados, inclinações e curvas perigosíssimas. Mas valeu a pena. Para além de bem documentado, com vídeos e narrativas que explicavam com detalhe o que se passou, pudémos apreciar a extraiordinária vista sobre Toulon e um bom pedaço da costa mediterrânica.


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Em todas as histórias há episódios que ficam registados e são inúmeras vezes lembrados, outros que parecem ficar esquecidos. E, no entanto, são tão importantes como os primeiros.

06 maio 2023

Antecipação


Viajar? Para viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de estação para estação, no comboio do meu corpo, ou do meu destino, debruçado sobre as ruas e as praças, sobre os gestos e os rostos, sempre iguais e sempre diferentes, como, afinal, as paisagens são.


Se imagino, vejo. Que mais faço eu se viajo? Só a fraqueza extrema da imaginação justifica que se tenha que deslocar para sentir.


«Qualquer estrada, esta mesma estrada de Entepfuhl, te levará até ao fim do mundo.» Mas o fim do mundo, desde que o mundo se consumou dando-lhe a volta, é o mesmo Entepfuhl de onde se partiu. Na realidade, o fim do mundo, como o princípio, é o nosso conceito do mundo. É em nós que as paisagens têm paisagem. Por isso, se as imagino, as crio; se as crio, são; se são, vejo-as como às outras. Para quê viajar? Em Madrid, em Berlim, na Pérsia, na China, nos Pólos ambos, onde estaria eu senão em mim mesmo, e no tipo e género das minhas sensações?


A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos.


[Bernardo Soares - Livro do Desassossego]



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25 abril 2023

Madrugamos

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Vaso com cravos


Vincent Van Gogh


 


Nos cravos que madrugamos


inauguramos renovamos


refazemos celebramos


o início do sol e das flores


a querida


a sofrida


liberdade.


 

06 abril 2023

Cordeiro

 


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Mosaico


Museu Glencairn


 


Nesta roda mal rodada


Que com penas nos depena


Pelo tempo depenada


Com suspiros mas sem pena


 


Hora agora que rezamos


Aos fiéis de pacotilha


As mãos postas que mostramos


Santa cruz na gargantilha


 


Não nos chegam os pregões


Nem os joelhos no chão


Amealham-se os sermões


p'ra futura redenção


 


Toca o sino e o badalo


Pasta o cordeiro de leite


Dorme o burro e canta o galo


Não há deus que se respeite


 

27 março 2023

Jardim Zoológico de Cristal

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Jardim Zoológico de Cristal


Há momentos que nunca esquecemos e que regressam mesmo sem que nos apercebamos.


Há muitos anos, estava eu a passar uma ou duas noites em casa de uma amiga minha, coisa que muito enervava a minha mãe muito pouco habituada a estas liberdades habituais em gente que vinha de África, quando senti a irmã dessa minha amiga chegar a casa, vinda do teatro.


Vinha a chorar desabaladamente, de uma forma que me impressionou e tocou profundamente. A peça que tinha ido ver era o Jardim Zoológico de Cristal, de Tennessee Williams. A sequela de uma poliomielite fazia-a coxear e (penso eu, pois nunca o verbalizei, tal o pudor que tive de falar de algo tão íntimo e doloroso), isso fê-la identificar-se com a protagonista.


Eu conhecia a peça pois tinha visto, uns anos antes, o filme de 1950 - Glass Managerie, de Irving Rapper, a preto e branco, de que tinha gostado muito. E a cena que mais me impressionou foi a que se passava na escola de datilografia, em que se via Laura a coxear e o ruído do aparelho da perna omnipresente e ensurdecedor.


Depois li mais do que uma peça de Tennesse Williams, que considero um extraordinário escritor.


 


Ontem fui ver O Jardim Zoológico de Cristal, encenado por Natália Luísa, do e no Teatro Meridional.


É sempre uma experiência diferente. O foyer espelha o clima do Teatro, as opções estéticas do Meridional, o carinho e o cuidado que põem na construção das peças, os cenários, as cores, a luz, os objetos, os tecidos, tudo que o que descobre a propósito de um texto, de uma época, o envolvimento com outros grupos, escolas, etc.


O café, o chá, os bolos, o som do espanta-espíritos que nos deixa de imediato arrepiados e expectantes. A sala com as cadeiras ocupadas por mantinhas, a penumbra e o perfume.


Sempre me espanto pela intrínseca qualidade e sofisticação de tudo quanto o Meridional faz. A escolha dos atores é sempre certa, de tal maneira que não nos ocorre nenhuma outra. A entrega de todos, a dicção perfeita, as emoções que despertam, o respeito pelo autor, pelas palavras, pela história, pela memória, a música presente-ausente.


Absolutamente emocionante. Um clássico com uma interpretação sublime de todos os atores, uma cenografia simples, sem que nada falte nem seja supérfluo.


É difícil descrever o turbilhão de sentimentos que me assaltaram. Fui para casa muito mais rica.


Obrigada, Natália, por mais esta peça inesquecível.

19 março 2023

Pais e Filhos

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Fatherhood as Described by Paul Beatty


Rashid Johnson


2011


 


Acabaram de sair de casa. Contentes e serenos, lado a lado.


Vou arrumando minimamente os desarrumos. E recordando outros dias, outras refeições, com os mesmos ou mais protagonistas.


Tenho saudades de mais lugares ocupados, particularmente um, que de vez em quando me dói como se me faltasse um bocado. Que falta.


Uma mesa de família, naqueles momentos em que as famílias são o aconchego e a razão do nosso equilíbrio, naquelas horas em que apenas as boas memórias nos assaltam.


Eu tenho muito boas memórias. E a mesa tem sempre o ruído das vozes, os cheiros da comida, o prazer da companhia.


Ficamos os dois. Ficamos bem.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...