11 dezembro 2022

Há pessoas

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Scott Jolman


 


Há pessoas que passam pela vida tão quietas, silenciosas e discretas, que a palavra que nos lembram é presença.


De corpo médio e sólido, de voz branda e palavras poucas, de olhar atento e sorriso fácil, aparecem sempre de mãos cheias sem que se lhes peça nada, aparecem sempre quando são precisas, sem que se façam lembrar.


Uma linha de continuidade, um barco à espera, um manto que aquece.


Há pessoas que passam por nós tão quietas e discretas que nos fazem lembrar como o ruído é desnecessário.

10 dezembro 2022

Quadras de Natal (9)

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Salvador Dali


 


Sem presentes nem lareira


Sem fé nem religião


Quero ter à minha beira


Uma luz de imensidão


 


Pode ser o teu olhar


Ou o quente de um abraço


O silêncio a estalar


No recanto do meu espaço


 


Mas se à porta for bater


Qualquer coisa de divino


A quem assim me quiser


Viajante ou peregrino


 


Faremos da companhia


A festa da Consoada


Carinho que se confia


À família ofertada


 

26 novembro 2022

Do Deslumbramento

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É fácil não pensar, engolir as imagens cada vez mais rápidas que nos passeiam pelos televisores, monitores de computador, ecrãs de telemóveis. Anestesiamos a voz interior, o cruzamento das ideias, a dor, a dúvida, o espanto. Acomodamos tão bem as desculpas do cansaço, do stress, do impossível reverter do tempo e da vontade adormecida.


Para que serve a arte? Para quê a cultura? Cada vez a entendemos mais como qualquer coisa que entretém, que nos desvia da dura realidade, que nos ocupa o cérebro e os poucos momentos que temos para respirar.


Esquecemos rapidamente que viver implica entrega, fracasso, sonhos, memórias, fragmentos que queremos e temos que procurar, encaixe das mais diversas sensações que não compreendemos, busca de prazer e esquecimentos selectivos, amores vários e de vários tipos, morte, ódios e desrazões, tanta contradição e nebulosas como instantes de beleza e deslumbramento.


Pois é Do Deslumbramento que falo. Fui ver esta peça domingo passado, um texto original de Ana Lázaro construído para a comemoração dos 30 anos do Teatro Meridional.


Confesso que não sei o que dizer, de tal forma me marcou.


O jogo de luzes, o espaço cénico minimalista, a depuração e simplicidade da representação, a música, a incrível sensação de que não estamos perante uma peça de teatro mas de cenas e de conversas interiores daquelas personagens.


Quem são elas? Elas como actores ou os actores como personagens? Estamos dentro de alguma coisa prestes a acontecer ou a recuperar fragmentos do que aconteceu? O que é um corpo, uma memória, uma verdade? O que faz o tempo? É o tempo que faz o corpo e a memória ou a memória que conta o tempo e constrói um corpo? De que nos lembramos verdadeiramente? O que desencadeia a sensação? A luz, a sensação de queda no abismo, a certeza do branco ou do escuro? A dúvida? A incerteza das lembranças, dos sons, dos pequenos acordares dos nervos, da água nas mãos, do inundar das perguntas?


Quem somos para nós? Quem somos para os outros? O que se esconde em cada memória refeita ou em cada corpo que retalha o tempo de que se recorda?


Teatro tão simples e erudito, que parte de cenas breves e de sensações, do trabalho do actor, de uma peça como Bruscamente no Verão Passado, em que é preciso apagar uma fatia de cérebro para cortar uma memória, para a recuperação de uma fatia de cérebro para recuperar uma vida, pela memória.


Do Deslumbramento. Das melhores peças que tenho visto no Meridional, e todas elas são soberbas.


Ainda têm uma semana.

17 novembro 2022

Se eu fosse à terra do bravo

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Fritz Bultman


 


Se eu fosse à terra do bravo


Se eu fosse à terra do bravo


Bravo meu bem


Sem a tua companhia


Bravo meu bem


Sem a tua companhia


 


E de lá viesse cravo


E de lá viesse cravo


Bravo meu bem


Para ver se alvorecia


Bravo meu bem


Para ver se alvorecia


 


Se as ondas que o mar estende


Se as ondas que o mar estende


Bravo meu bem


Nos braços da ventania


Bravo meu bem


Nos braços da ventania


 


No canto que se suspende


No canto que se suspende


Bravo meu bem


Com a tua valentia


Bravo meu bem


Com a tua valentia


 


Que seja de bravo e terra


Que seja de bravo e terra


Bravo meu bem


O amor que arrepia


Bravo meu bem


O amor que arrepia


 


No cravo da nossa guerra


No cravo da nossa guerra


Bravo meu bem


A espuma que nos sacia


Bravo meu bem


A espuma que nos sacia

Eu fui à terra do bravo


Canção popular dos Açores


Zeca Afonso


 


Eu fui à terra do bravo


Eu fui à terra do bravo


Bravo meu bem


Para ver se embravecia


Bravo meu bem


Para ver se embravecia


 


Cada vez fiquei mais manso


Cada vez fiquei mais manso


Bravo meu bem


Para a tua companhia


Bravo meu bem


Para a tua companhia


 


Eu fui à terra do bravo


Eu fui à terra do bravo


Bravo meu bem


Com o meu vestido vermelho


Bravo meu bem


Com o meu vestido vermelho


 


O que eu vi de lá mais bravo


O que eu vi de lá mais bravo


Bravo meu bem


Foi um mansinho coelho


Bravo meu bem


Foi um mansinho coelho


 


As ondas do mar são brancas


As ondas do mar são brancas


Bravo meu bem


E no meio amarelas


Bravo meu bem


E no meio amarelas


 


Coitadinho de quem nasce


Coitadinho de quem nasce


Bravo meu bem


P'ra morrer no meio delas


Bravo meu bem


P'ra morrer no meio delas


 

10 novembro 2022

Memórias

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Memories, Dreams, & Reflections


Deirdre Doyle


 


Vou cantando em novelas de encantar


Embrenhada nas florestas invisíveis


Respirando como flor a despertar


Entre as pedras de caminhos impossíveis


 


Salgo o sangue com que tatuo o destino


Refluindo nas palavras que desenho


Mais fugazes que um poema repentino


Mais letais do que as espadas que não tenho


 


Forma um grito o teu nome que não vejo


Na candura da minha dedicatória


A presença mais ausente que protejo


Esculpida na cortina da memória

09 novembro 2022

Força Estranha


Caetano Veloso & Gal Costa


 


Eu vi um menino correndo


Eu vi o tempo brincando ao redor


Do caminho daquele menino


 


Eu pus os meus pés no riacho


E acho que nunca os tirei


O sol ainda brilha na estrada e eu nunca passei


 


Eu vi a mulher preparando outra pessoa


O tempo parou pra eu olhar para aquela barriga


A vida é amiga da arte


É a parte que o sol me ensinou


O sol que atravessa essa estrada que nunca passou


 


Por isso uma força me leva a cantar


Por isso essa força estranha


Por isso é que eu canto, não posso parar


Por isso essa voz tamanha


 


Eu vi muitos cabelos brancos na fronte do artista


O tempo não para e no entanto ele nunca envelhece


Aquele que conhece o jogo, do fogo das coisas que são


É o sol, é o tempo, é a estrada, é o pé e é o chão


 


Eu vi muitos homens brigando, ouvi seus gritos


Estive no fundo de cada vontade encoberta


E a coisa mais certa de todas as coisas


Não vale um caminho sob o sol


E o sol sobre a estrada, é o sol sobre a estrada, é o sol


 


Por isso uma força me leva a cantar


Por isso essa força estranha


Por isso é que eu canto, não posso parar


Por isso essa voz tamanha


 


Por isso uma força me leva a cantar


Por isso essa força estranha no ar


Por isso é que eu canto, não posso parar


Por isso essa voz tamanha

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...