17 novembro 2022

Eu fui à terra do bravo


Canção popular dos Açores


Zeca Afonso


 


Eu fui à terra do bravo


Eu fui à terra do bravo


Bravo meu bem


Para ver se embravecia


Bravo meu bem


Para ver se embravecia


 


Cada vez fiquei mais manso


Cada vez fiquei mais manso


Bravo meu bem


Para a tua companhia


Bravo meu bem


Para a tua companhia


 


Eu fui à terra do bravo


Eu fui à terra do bravo


Bravo meu bem


Com o meu vestido vermelho


Bravo meu bem


Com o meu vestido vermelho


 


O que eu vi de lá mais bravo


O que eu vi de lá mais bravo


Bravo meu bem


Foi um mansinho coelho


Bravo meu bem


Foi um mansinho coelho


 


As ondas do mar são brancas


As ondas do mar são brancas


Bravo meu bem


E no meio amarelas


Bravo meu bem


E no meio amarelas


 


Coitadinho de quem nasce


Coitadinho de quem nasce


Bravo meu bem


P'ra morrer no meio delas


Bravo meu bem


P'ra morrer no meio delas


 

10 novembro 2022

Memórias

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Memories, Dreams, & Reflections


Deirdre Doyle


 


Vou cantando em novelas de encantar


Embrenhada nas florestas invisíveis


Respirando como flor a despertar


Entre as pedras de caminhos impossíveis


 


Salgo o sangue com que tatuo o destino


Refluindo nas palavras que desenho


Mais fugazes que um poema repentino


Mais letais do que as espadas que não tenho


 


Forma um grito o teu nome que não vejo


Na candura da minha dedicatória


A presença mais ausente que protejo


Esculpida na cortina da memória

09 novembro 2022

Força Estranha


Caetano Veloso & Gal Costa


 


Eu vi um menino correndo


Eu vi o tempo brincando ao redor


Do caminho daquele menino


 


Eu pus os meus pés no riacho


E acho que nunca os tirei


O sol ainda brilha na estrada e eu nunca passei


 


Eu vi a mulher preparando outra pessoa


O tempo parou pra eu olhar para aquela barriga


A vida é amiga da arte


É a parte que o sol me ensinou


O sol que atravessa essa estrada que nunca passou


 


Por isso uma força me leva a cantar


Por isso essa força estranha


Por isso é que eu canto, não posso parar


Por isso essa voz tamanha


 


Eu vi muitos cabelos brancos na fronte do artista


O tempo não para e no entanto ele nunca envelhece


Aquele que conhece o jogo, do fogo das coisas que são


É o sol, é o tempo, é a estrada, é o pé e é o chão


 


Eu vi muitos homens brigando, ouvi seus gritos


Estive no fundo de cada vontade encoberta


E a coisa mais certa de todas as coisas


Não vale um caminho sob o sol


E o sol sobre a estrada, é o sol sobre a estrada, é o sol


 


Por isso uma força me leva a cantar


Por isso essa força estranha


Por isso é que eu canto, não posso parar


Por isso essa voz tamanha


 


Por isso uma força me leva a cantar


Por isso essa força estranha no ar


Por isso é que eu canto, não posso parar


Por isso essa voz tamanha

06 novembro 2022

Assim o amor

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Sophia de Mello Breyner Andresen


 


Assim o amor


Espantando meu olhar com teus cabelos


Espantando meu olhar com teus cavalos


E grandes praias fluidas avenidas


Tardes que oscilavam demoradas


E um confuso rumor de obscuras vidas


E o tempo sentado no limiar dos campos


Com seu fuso sua faca e seus novelos


 


Em vão busquei eterna luz precisa


 


Sophia de Mello Breyner Andresen


in Geografia, 1967

Permaneço

wait for the promised.jpg


wait for the promised


Peter Demetz


 


Permaneço nos simples gestos do viver.


O segurar da maçã o apertar dos olhos


o arrepiar da roupa o engolir do silêncio


gota a gota saboreando a dureza


e a maturidade das rugas


o aninhar do corpo o enrolar da toalha


somando os intervalos da respiração do mundo.

O sinal

The_Three_Wise_Monkeys,_Nikkō_Tōshō-gū;_April_


Três Macacos Sábios


Santuário Tōshō-gū


A mais subtil e invencível censura é a própria, tendendo a transformar-se em omnipresente. Impõe-nos um silêncio que se torna mais profundo e que abrange cada vez mais assuntos. E eu estou imersa na capacidade de me auto-censurar.


Ontem este blogue fez 17 anos. Tal como eu e tantas coisas que aprecio, nomeadamente a liberdade, está fora de moda. Discutir, trocar ideias, colocar opiniões à apreciação pública sem que estas sejam de imediato a razão de insultos, de assassinatos de carácter, do destilar de ignorância, preconceitos, ódio, desprezo, acusações, são conceitos datados e a cheirar a bafio.


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Pedro Silva


Mas quando me revolto e resolvo empunhar a metafórica pena da expressão livre do pensamento, quando decido que vou opinar sobre as minhas pequenas e pouco importantes preocupações, ouço o nosso Presidente Marcelo Rebelo de Sousa a demonstrar que o silêncio pode ser mesmo de ouro, que as palavras devem ser medidas e escrutinadas pela nossa censura interior, que a prudência e a possibilidade de causar mais turbulência e ruído esdrúxulo devem ser muito ponderadas, antes de as proferirmos.


Aliás o nosso Presidente é o exemplo vivo da verborreia cada vez mais perigosa, da falta de filtros, do desbragar do disparate. Não percebo bem se o objectivo é provocar ou se é apenas um destemperamento irreprimível de alguém que nunca foi muito contido.


E por isso, tal como um sinal dos céus, desce de novo sobre mim o manto da censura impelindo-me ao calar da boca, mas mantendo os olhos e os ouvidos bem abertos.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...