Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos,
melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
A mais subtil e invencível censura é a própria, tendendo a transformar-se em omnipresente. Impõe-nos um silêncio que se torna mais profundo e que abrange cada vez mais assuntos. E eu estou imersa na capacidade de me auto-censurar.
Ontem este blogue fez 17 anos. Tal como eu e tantas coisas que aprecio, nomeadamente a liberdade, está fora de moda. Discutir, trocar ideias, colocar opiniões à apreciação pública sem que estas sejam de imediato a razão de insultos, de assassinatos de carácter, do destilar de ignorância, preconceitos, ódio, desprezo, acusações, são conceitos datados e a cheirar a bafio.
Mas quando me revolto e resolvo empunhar a metafórica pena da expressão livre do pensamento, quando decido que vou opinar sobre as minhas pequenas e pouco importantes preocupações, ouço o nosso Presidente Marcelo Rebelo de Sousa a demonstrar que o silêncio pode ser mesmo de ouro, que as palavras devem ser medidas e escrutinadas pela nossa censura interior, que a prudência e a possibilidade de causar mais turbulência e ruído esdrúxulo devem ser muito ponderadas, antes de as proferirmos.
Aliás o nosso Presidente é o exemplo vivo da verborreia cada vez mais perigosa, da falta de filtros, do desbragar do disparate. Não percebo bem se o objectivo é provocar ou se é apenas um destemperamento irreprimível de alguém que nunca foi muito contido.
E por isso, tal como um sinal dos céus, desce de novo sobre mim o manto da censura impelindo-me ao calar da boca, mas mantendo os olhos e os ouvidos bem abertos.
Quando o confinamento nos foi imposto em 2020 e 2021, li extensos textos sobre o respirar da Terra exausta, a felicidade da paragem da vida, da interiorização e individualidade humanas, odes ao fim do consumismo e do desperdício, à vida saudável, simples e sustentável.
Foram dois anos em que a maior parte das actividades económicas pararam, em que os governos gastaram milhões de euros a apoiar as pessoas que, dentro de portas, não podiam sustentar-se. Não houve défices nem obrigações de pagamentos de dívidas.
Não sei o que esperávamos, mas era lógico que este tipo de situação geraria crises posteriores, com a obrigação dos Estados refazerem as suas economias. Como era de prever, a suspensão das regras europeias e os perdões dos endividamentos dos Estados não durariam para sempre.
Depois a guerra, a inqualificável invasão da Ucrânia pela Rússia, a crise energética, as sanções, o medo, o pessimismo europeu, o arrefecer das perspectivas de reanimação económica, as dificuldades que se avizinham e o desconhecido decorrente de mentes loucas como a de Putin em relação a uma possível guerra nuclear.
Para além disso, as alterações climáticas com as suas secas históricas, as suas cheias monumentais, tufões, etc., que alteram as colheitas, que modificam as estações do ano, que reactivam ou adormecem pragas e pandemias.
É óbvio que teremos de aprender a viver de outra forma, usando pouco, menos, cada vez com mais parcimónia, os recursos naturais. Teremos de racionar os nossos gastos de água, de electricidade, de gás. Teremos de usar menos os carros, as televisões, as máquinas. Teremos de andar mais a pé. Teremos de comer menos e coisas diferentes. Teremos de reduzir, regrar, reutilizar. Nós, mundo ocidental, cuja pequena parcela rica gasta tudo e ainda mais que a enorme maioria da humanidade.
Esperam-nos tempos difíceis, muito difíceis, mais ainda se o pior se concretizar. Olhemos para o futuro com a esperança possível, aproveitando para mudar o que pudermos e associarmos à sociedade uma outra dimensão – a sustentabilidade dos recursos, liderada por nós.