
Ana Luísa Amaral e Luís Caetano
29 de Junho de 2022
Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]

A teu pedido saí pela estrada vazia
medindo o compasso da respiração
a frequência do voo dos pássaros
apreciando a textura dos grãos de areia.
Ninguém me guia nem me segue
nenhum corpo de homem ou mulher
estende a invisível rede que compõe
a humanidade.
Só eu na estrada e o silêncio alado
dos pássaros que riscam o céu
de cumplicidade.

Filas para o pão, para a caixa, para o jornal. Filas para o almoço e para o jantar. Filas de gente pacata e paciente, que assume o seu lugar com a naturalidade e a filosofia de inúmeros Verões no Algarve, com chapéu amolgado na cabeça, calções pingões, perninhas meio arqueadas, t-shirts de cor berrante e vários sacos pendurados nos ombros.
As filas não são comigo. Sofro-as porque não tenho alternativa, como não a há às melgas e suas mordeduras, com as consequentes borbulhas de comichão torturante. Mas não consigo ser paciente nem pacata nem tolerante.
Outra inevitabilidade são as marcações para o jantar, dos cafés de sandes e cervejas às pizzarias e marisqueiras. E mesmo naqueles restaurantes que há 2 meses nos recebiam de sorriso rasgado, arranjando mesas sem dificuldades, passam agora a fortalezas inexpugnáveis, por onde só se pode esperar na fila na porta da frente, mesmo que se vejam variadíssimas e extensíssimas mesas vazias no interior. Ou aqueles outros lugares onde, não tendo marcação agendada, temos lugar nas mesas ao pé do caixote do lixo, ou na cozinha.
Mas há alturas de sorte, em que pequenas dádivas aparecem sem se fazerem esperar.
Subimos umas íngremes escadas, com esperança de poder comer qualquer coisa no terraço. Sem perguntar pela marcação, um jovem muito simpático e bonito aponta-nos uma mesinha mesmo à beira do varandim, com vista para a praia. Rapidamente vieram as bebidas, depois a comida, tudo acompanhado por um brasileiro armado de violão, com um reportório maravilhoso e uma voz a sério. No fim o pagamento merecido e as palmas solitárias, mas sentidas.
Serenidade.

No primeiro dia de praia, depois de muitos anos sem a frequentar, tudo parece novo e diferente, mesmo sendo velho e habitual.
O fato de banho que quase não serve, que quase se desmonta por estar gasto e esquecido, as chinelas, o saco, o guarda-sol leve, leve, que levitará rapidamente se houver uma brisa mais veemente, e aquele balandrau que não tem forma mas que serve a toda a gente (leia-se toda a gente que é obesa).
Tudo preparativos para a primeira sensação que se recorda com carinho e antecipação - os pés na areia, macia, morna.
Depois as pequenas irritações que vão regressando, como a tendência de acumulação de gente num espaço exíguo, com a armação de guarda-sóis a milímetros dos que já lá estavam, para se poderem ouvir as conversas, observar as iguarias, quase colocar creme nos vizinhos.
E o mar, o mar de maré vaza, as conchinhas a debicarem os pés, o frio a arrepiar as pernas, os ombros bem encolhidos e a respiração suspensa até ao primeiro mergulho.
Para culminar no regresso, em que tentamos saltitar de pé em pé, como os lagartos do deserto, pelo tanto que escalda a areia.
Férias.
Por muito que se esforcem os cabeleireiros, os cabelos são imprevisíveis.

Albert Einstein

Seremos as pregadeiras
Do mundo que nos calhar
Como pedras parideiras
Devotos mas sem altar
Serão os dias de flor
Sem cantos nem oração
Bálsamo que acalma a dor
Das feridas da paixão
E os abismos da tormenta
Que arrefecem madrugadas
Com salpicos de água benta
Serão asas prateadas
Seremos de terra e bruma
Anéis de vento e de mar
Nas vagas de amor e espuma
Sem medo de navegar
[17/Julho/2022]

A Bundle of Nerves Sculpture
Esta ansiedade palpável
Com que me deito e levanto
Numa correria instável
Com que atraso e adianto
Os segundos sem ponteiros
De um tempo reversível
Os relógios desordeiros
De uma calma impossível
Esta fase treme e louca
De noitadas em vigília
Vira noites sem boca
E faz ranger a mobília
Vem a manhã corrompida
De cansaço inundada
Lembrar ao corpo que a vida
Acorda de madrugada
Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...