06 agosto 2022

O Som que os Versos fazem ao Abrir

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Poemas de amor


Ana Luísa Amaral e Luís Caetano


29 de Junho de 2022


 

A teu pedido

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Tawaraya Sōtatsu


 


A teu pedido saí pela estrada vazia


medindo o compasso da respiração


a frequência do voo dos pássaros


apreciando a textura dos grãos de areia.


Ninguém me guia nem me segue


nenhum corpo de homem ou mulher


estende a invisível rede que compõe


a humanidade.


 


Só eu na estrada e o silêncio alado


dos pássaros que riscam o céu


de cumplicidade.


 

05 agosto 2022

Pequenas dádivas

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Cletonina


Filas para o pão, para a caixa, para o jornal. Filas para o almoço e para o jantar. Filas de gente pacata e paciente, que assume o seu lugar com a naturalidade e a filosofia de inúmeros Verões no Algarve, com chapéu amolgado na cabeça, calções pingões, perninhas meio arqueadas, t-shirts de cor berrante e vários sacos pendurados nos ombros.


As filas não são comigo. Sofro-as porque não tenho alternativa, como não a há às melgas e suas mordeduras, com as consequentes borbulhas de comichão torturante. Mas não consigo ser paciente nem pacata nem tolerante.


Outra inevitabilidade são as marcações para o jantar, dos cafés de sandes e cervejas às pizzarias e marisqueiras. E mesmo naqueles restaurantes que há 2 meses nos recebiam de sorriso rasgado, arranjando mesas sem dificuldades, passam agora a fortalezas inexpugnáveis, por onde só se pode esperar na fila na porta da frente, mesmo que se vejam variadíssimas e extensíssimas mesas vazias no interior. Ou aqueles outros lugares onde, não tendo marcação agendada, temos lugar nas mesas ao pé do caixote do lixo, ou na cozinha.


Mas há alturas de sorte, em que pequenas dádivas aparecem sem se fazerem esperar.


Subimos umas íngremes escadas, com esperança de poder comer qualquer coisa no terraço. Sem perguntar pela marcação, um jovem muito simpático e bonito aponta-nos uma mesinha mesmo à beira do varandim, com vista para a praia. Rapidamente vieram as bebidas, depois a comida, tudo acompanhado por um brasileiro armado de violão, com um reportório maravilhoso e uma voz a sério. No fim o pagamento merecido e as palmas solitárias, mas sentidas.


Serenidade.

Escalda

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No primeiro dia de praia, depois de muitos anos sem a frequentar, tudo parece novo e diferente, mesmo sendo velho e habitual.


O fato de banho que quase não serve, que quase se desmonta por estar gasto e esquecido, as chinelas, o saco, o guarda-sol leve, leve, que levitará rapidamente se houver uma brisa mais veemente, e aquele balandrau que não tem forma mas que serve a toda a gente (leia-se toda a gente que é obesa).


Tudo preparativos para a primeira sensação que se recorda com carinho e antecipação - os pés na areia, macia, morna.


Depois as pequenas irritações que vão regressando, como a tendência de acumulação de gente num espaço exíguo, com a armação de guarda-sóis a milímetros dos que já lá estavam, para se poderem ouvir as conversas, observar as iguarias, quase colocar creme nos vizinhos.


E o mar, o mar de maré vaza, as conchinhas a debicarem os pés, o frio a arrepiar as pernas, os ombros bem encolhidos e a respiração suspensa até ao primeiro mergulho.


Para culminar no regresso, em que tentamos saltitar de pé em pé, como os lagartos do deserto, pelo tanto que escalda a areia.


Férias.

18 julho 2022

Da imprevisibilidade capilar

Por muito que se esforcem os cabeleireiros, os cabelos são imprevisíveis.


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Albert Einstein

Ipse Conjungat Vos

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Salvador Dalí


 


Seremos as pregadeiras


Do mundo que nos calhar


Como pedras parideiras


Devotos mas sem altar


 


Serão os dias de flor


Sem cantos nem oração


Bálsamo que acalma a dor


Das feridas da paixão


 


E os abismos da tormenta


Que arrefecem madrugadas


Com salpicos de água benta


Serão asas prateadas


 


Seremos de terra e bruma


Anéis de vento e de mar


Nas vagas de amor e espuma


Sem medo de navegar


 


[17/Julho/2022]

16 julho 2022

Esta ansiedade palpável

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A Bundle of Nerves Sculpture


Alan Resnick


 


Esta ansiedade palpável


Com que me deito e levanto


Numa correria instável


Com que atraso e adianto


 


Os segundos sem ponteiros


De um tempo reversível


Os relógios desordeiros


De uma calma impossível


 


Esta fase treme e louca


De noitadas em vigília


Vira noites sem boca


E faz ranger a mobília


 


Vem a manhã corrompida


De cansaço inundada


Lembrar ao corpo que a vida


Acorda de madrugada


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...