03 julho 2022

Do ensimesmamento

Não sei se é resultado da pandemia se é apenas do passar dos anos e do encolher do corpo, das ideias, do mundo à nossa volta, do ensimesmamento a que nos votamos, da cada vez maior incapacidade de cumprir o assumimos como dever, a verdade é que sinto um cada vez maior isolamento.


A todos os níveis – familiar e profissional – e com todas as gerações. Vamos trocando mensagens, alguns telefonemas ou vídeo conferências, mas a vontade de estar junto, os abraços que foram banidos do nosso quotidiano, a moralização da pandemia com a instalação da culpa, tudo contribui para que estejamos cada vez mais sós.


E por isso as raras ocasiões em que se quebra esse hábito, viciante e desolador, fica um gosto bom de aconchego e carinho, aquele sentimento que perdura quando estar com alguém é um bem muito importante.


E como acontece desde tempos imemoriais, as refeições são uma boa razão para o convívio, a troca de ideias, o riso, a partilha de histórias. Começa-se por uma sangria de champanhe com frutos secos, continua-se com uma sardinhada, um naco na pedra, uns lagartos grelhados, os diversos e profusos brindes com os obrigatórios copos a baterem uns nos outros, melodia inconfundível de um almoço entre amigos.


Vivemos tempos em que aquilo que é mais essencial ao Homem, a sua sociabilidade, a sua necessidade de amar e ser amado, o toque das mãos, o sorriso, o olhar, a expressão facial, é agora uma memória que teima em ser enterrada, em nome de uma assépsia e de uma incrível nova ordem da esterilização da pele, do ar, do mundo.


Para além das ameaças bem reais que nos cercam, fabricamos mais medo e terror para nos transformarmos em gente que não se atreve a amar e que já se esqueceu do que era pensar nos outros e não em si mesmo.

Serena

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Tal Golan


 


No dia em que perder este cansaço


em que a angústia e a solidão


não forem mais que um barco afundado


poderei enfim desatar os soluços


e a terra onde me afundar será mais serena.


 

28 junho 2022

E o mar aqui tão perto

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E o mar aqui tão perto.


Mesmo com a angústia da guerra, com o tempo que vai escasseando para a realização dos sonhos, com a tristeza das várias nostalgias, resta-nos o mar, a fuga e o encontro da lonjura, dos outros, de mais.


E o mar aqui tão perto.

13 junho 2022

Santo António de Lisboa

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Teresinha Sousa


 


Santo António de Lisboa


Vem cá ver o que isto é


Comer sardinha com broa


Beber vinho e água-pé


 


Não há febra nem sangria


Que nos cure a tradição


De lamentar a alegria


E louvar a maldição


 


Dar vivas ao vento agreste


Cantar como quem aguenta


Implorar ao pai celeste


Aprumo nesta tormenta


 


Somos bravos pacifistas


E guerreiros de um só dia


Solitários saudosistas


Bêbados de poesia


 


Oh meu querido santinho


Quero que sejas meu par


Ampara-me no caminho


Que ainda me falta andar


 

11 junho 2022

Discursos

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Peech Bubble XII


Jürgen Drescher


 


Discursam discursos


Orelhas de abano


Cornetas de guerra


Orelhas de terra


Não saem da boca


Os dados quadrados


Movem-se na boca


Os sons desbotados


 


Discursos discursam


O povo envelhece


Palavra a palavra


O povo empobrece


 

10 junho 2022

10 de Junho de 2022

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Oh Povo bom Povo


Tanto de ti se fala


Tão pouco por ti se faz


Tanto que o povo cala


Tanto que o silêncio trás


 


Oh Povo triste Povo


Tanto que de ti se pede


Tão pouco que a ti se dá


Vinho que não mata a sede


Os sonhos do que não há


 


Oh Povo grande Povo


Tão pouco de tanto guardas


Tanto do muito que perdes


Tanto em ser feliz tardas


Do tanto de ti que rendes


 

09 junho 2022

Paula Rego - exposição em Madrid

Salazar vomitando a Pátria – não se percebe bem o que é Salazar, o vómito ou a Pátria. Se calhar é esse mesmo o objectivo: não distinguir umas coisas das outras porque Salazar, a Pátria e o vómito, deviam ser sinónimos para Paula Rego.


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Salazar vomiting the Homeland – 1960


De um abstraccionismo estranho e aterrador, de um exílio de muitos olhos e muitas línguas, passa para uma pintura figurativa exímia, com proporções grotescas, intencionalmente absurdas, em que as mulheres são másculas, com braços curtos, cabeças e mãos enormes, expressões fechadas e, por vezes, quase demenciadas.


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The maids – 1987


As pinturas de Paula Rego vivem das histórias infantis, em que os personagens reais se transformam e adquirem animalescas figuras, animalescas atitudes e visões. Os adultos com a crueldade desses contos, com a ingenuidade simples e concreta das crianças. Em muitos quadros há várias cenas de uma peça que está a ser visionada, normalmente em planos diferentes, com dimensões diminutas ou cores esbatidas, escondidas em brinquedos ou peças de mobiliário.


Em raros quadros se nota alguma felicidade, com no quadro da dança ou no quadro da fuga para o Egipto. Neste último a figura masculina é preponderante e acolhedora, a feminina carinhosa, sem toque.


Os quadros que retratam as bailarinas são chocantes, pois as figuras a que estamos habituados a associar leveza e beleza, aparecem curtas, grossas, pesadas, desfeadas, em vestidos de cores fortes e escuras, tudo bizarro e violento.


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War – 2003


Os últimos quadros retratam a velhice nas suas facetas mais cinzentas, ridículas, dependências e decadências de corpos, amarguras e solidões de almas.


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O repouso na fuga para o Egipto – 1998


Interessantíssimos os estudos para os quadros, onde se percebem várias hipóteses antes da decisão, elas próprias séries espantosas, como as da dança, em que há alguns desenhos de corpos em dança satânica, tal como um quadro a preto e branco de diabos e outro sobre as bruxas e os seus bruxedos.



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Dancing Ostriches from Disney’s Fantasia - 1995


Não sei como Paula Rego convive com ela própria, mas a quem olha o que ela pinta, o estômago, os nervos e a cabeça revolvem-se e transtornam.

É uma pintura visceral, e que provoca reacções viscerais. É espantosa.


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Scavengers – 1994

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Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...