
Peech Bubble XII
Discursam discursos
Orelhas de abano
Cornetas de guerra
Orelhas de terra
Não saem da boca
Os dados quadrados
Movem-se na boca
Os sons desbotados
Discursos discursam
O povo envelhece
Palavra a palavra
O povo empobrece
Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]

Peech Bubble XII
Discursam discursos
Orelhas de abano
Cornetas de guerra
Orelhas de terra
Não saem da boca
Os dados quadrados
Movem-se na boca
Os sons desbotados
Discursos discursam
O povo envelhece
Palavra a palavra
O povo empobrece

Oh Povo bom Povo
Tanto de ti se fala
Tão pouco por ti se faz
Tanto que o povo cala
Tanto que o silêncio trás
Oh Povo triste Povo
Tanto que de ti se pede
Tão pouco que a ti se dá
Vinho que não mata a sede
Os sonhos do que não há
Oh Povo grande Povo
Tão pouco de tanto guardas
Tanto do muito que perdes
Tanto em ser feliz tardas
Do tanto de ti que rendes
Salazar vomitando a Pátria – não se percebe bem o que é Salazar, o vómito ou a Pátria. Se calhar é esse mesmo o objectivo: não distinguir umas coisas das outras porque Salazar, a Pátria e o vómito, deviam ser sinónimos para Paula Rego.

Salazar vomiting the Homeland – 1960
De um abstraccionismo estranho e aterrador, de um exílio de muitos olhos e muitas línguas, passa para uma pintura figurativa exímia, com proporções grotescas, intencionalmente absurdas, em que as mulheres são másculas, com braços curtos, cabeças e mãos enormes, expressões fechadas e, por vezes, quase demenciadas.

The maids – 1987
As pinturas de Paula Rego vivem das histórias infantis, em que os personagens reais se transformam e adquirem animalescas figuras, animalescas atitudes e visões. Os adultos com a crueldade desses contos, com a ingenuidade simples e concreta das crianças. Em muitos quadros há várias cenas de uma peça que está a ser visionada, normalmente em planos diferentes, com dimensões diminutas ou cores esbatidas, escondidas em brinquedos ou peças de mobiliário.
Em raros quadros se nota alguma felicidade, com no quadro da dança ou no quadro da fuga para o Egipto. Neste último a figura masculina é preponderante e acolhedora, a feminina carinhosa, sem toque.
Os quadros que retratam as bailarinas são chocantes, pois as figuras a que estamos habituados a associar leveza e beleza, aparecem curtas, grossas, pesadas, desfeadas, em vestidos de cores fortes e escuras, tudo bizarro e violento.

War – 2003
Os últimos quadros retratam a velhice nas suas facetas mais cinzentas, ridículas, dependências e decadências de corpos, amarguras e solidões de almas.

O repouso na fuga para o Egipto – 1998
Interessantíssimos os estudos para os quadros, onde se percebem várias hipóteses antes da decisão, elas próprias séries espantosas, como as da dança, em que há alguns desenhos de corpos em dança satânica, tal como um quadro a preto e branco de diabos e outro sobre as bruxas e os seus bruxedos.

Dancing Ostriches from Disney’s Fantasia - 1995
Não sei como Paula Rego convive com ela própria, mas a quem olha o que ela pinta, o estômago, os nervos e a cabeça revolvem-se e transtornam.
É uma pintura visceral, e que provoca reacções viscerais. É espantosa.

Scavengers – 1994

Nesta carta que te escrevo
Com tantas letras de espanto
Abro os dedos com enlevo
Como os versos que te canto
Mas a voz que me emudece
Numa angústia esculpida
Confiança que estremece
Como folha ressequida
Não aprende a esvoaçar
Enfrentando a ventania
Que pressinto nesse olhar
Que desfaz a poesia
Recolho então de mansinho
E dissolvo-me no ar
Das palavras faço um ninho
No vazio que é amar

Conheci alguém que, de cada vez que fazia anos de casada, aparecia com uma joia nova, com muito ouro e muitas pedras preciosas, predominantemente brincos e anéis, que eram a prenda que o marido lhe dava pelo aniversario de casamento. Outra conhecida, bastante bem humorada e verrinosa, lançou o boato de que era a própria aniversariante que comprava as joias e não o marido, que não parecia nada o género comprador de ouros e que, para além do mais, tinha toda a pinta de nem se lembrar sequer da data.
Isto vem a propósito de hoje fazer 35 anos de casamento. É obra! 35 anos é já uma eternidade!
A internet diz-me que aos 35 anos se celebram as bodas de coral, nos sites brasileiros a que fui parar nesta importante pesquisa científica. E coral porque os corais marinhos levam anos a formar-se. Bem, de facto 35 anos já deve dar um belo coral terreno, já um ecossistema bem organizado e estável.
Decidi que este ano, para comemorar tanta construção e maturidade em união casamenteira, era a altura certa para o meu espantado marido me ofertar um colar, um anel ou uns brincos de intenso, duro, e intrincado coral. E decidi ainda que, tal como o boato que circulava em relação à pessoa que conhecia, seria eu própria a comprar as ditas joias, já que o meu querido marido achou que eu tinha endoidecido, pois nunca em 35 anos de casamento me viu querer qualquer adorno desse tipo, sendo mesmo militantemente contra as arrecadas e semelhantes.
Ao passar em frente a uma loja que vendia artefactos com cristais coloridos, comprei um colar, uns brincos e um anel, não de coral mas multicolores, para compensarem todos os outros anos, para além de anteciparem todas as próximas bodas até às de ouro.
Ele gostou e eu estou muito contente.
O resto do dia foi típico de um casal com 35 anos, resolvendo assuntos domésticos e empresariais, sempre a dois, amparados pelos intervalos gastronómicos, olhares e cantaroladas de paz e harmonia, pois que em dia de aniversário outra coisa não se espera.
Céu azul com algumas nuvens, numa viagem sem grandes sobressaltos, com exceção daqueles que mantém o coral vivo e a crescer.

Se estes 48 anos fossem um lugar, uma paisagem, um país de terra e mar com gente que vive, sofre, luta, ama e morre, ao lado de um país anterior, de terra e mar com gente que vivia, sofria, lutava, amava e morria, eu abriria as minhas fronteiras para que essa gente do país anterior pudesse viver no país de Abril.
É a mesma gente, a mesma terra, mas é uma outra paisagem, um outro clima, uma outra natureza. Há ventos e maremotos de liberdade, culturas de democracia, prados vermelhos de cravos e poemas.
Estes são os 48 anos do meu país, do meu país de Abril. Temos ainda parcelas de eternidade até ao próximo lugar, que construiremos com esta gente, desta terra, que vive, sofre, luta, ama e morre, colhendo com esforço e leveza alguns momentos de felicidade.

No antigo edifício do Diário de Notícias, ao cimo da Avenida da Liberdade, junto ao Marquês de Pombal, está a exposição Proibido por inconveniente, organizada a partir do espólio Ephemera de José Pacheco Pereira.
Simples, sóbria e muito eficaz, damo-nos conta de todas as áreas aonde, durante 48 anos - a sociedade, as ideias, os filmes, as notícias, os livros, os filmes, as opiniões, desde as políticas às religiosas, da Guerra Colonial aos direitos das mulheres, da sexualidade à moralidade e costumes - eram passadas a pente fino pelos olhos dos inquisidores, mantendo um povo anónimo, cinzento, sem sobressaltos sentidos e sem alma visível.
Junto o exemplo da avaliação do livro A Criação do Mundo, de Miguel Torga, e Jesus de Nazaré, de José da Felicidade Alves.

Miguel Torga - A Criação do Mundo

José da Felicidade Alves - Jesus de Nazaré
A liberdade e a democracia são nossa responsabilidade diária. Convém que nos lembremos do que era antes de 25 de Abril de 1974.
Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...