17 abril 2022

Desamor

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Erosion


Penny Hardy


 


Nunca será demais a palavra que se cala


perante a dor do desencontro


o fundo e inexplicável vazio do desamor.


 

Da eternização em círculo

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A propósito de um artigo que apenas li hoje, no Expresso, de Joana Ascenção e Sofia Miguel Rosa, sobre a partilha da licença de parentalidade, fui reler algumas coisas que eu própria tinha escrito sobre o mesmo tema, em 2008! Passaram-se 14 anos.


Depois, porque estava no mesmo grupo de artigos que apareceram com a palavra licença, li também um texto sobre as notícias da saída de médicos do SNS para o privado. Esse texto é de 2009, portante de há 13 anos.


É extraordinário como os problemas se eternizam, sempre com grandes artigos cheios de opiniões, sentenças e, supostamente, novidades, que têm tudo menos o facto de serem novas. Catorze e treze anos depois, continuam as mesmas discussões, sem que nada de diferente se tenha realizado, sem que qualquer solução se tenha implementado.


Estamos condenados a uma ruminação permanente. De quando em quando regurgitamos as nossas doutas sapiências.

13 abril 2022

Páscoa

Lamentación_sobre_Cristo_muerto,_por_Andrea_Mante


Andrea Mantegna


Cristo morto


 


Cristo vai morrendo serena


e diariamente sem remédio nem retorno


dos pecados que o mundo lhe oferece


na eternidade da paixão que ressuscita.


Entre pedras tumulares e gritos de espanto


Cristo morre e levita


sem sentido nem perdão


atraiçoado pela fé que em si e em nós


deposita.

08 março 2022

De mulher

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Zaan Claassens


 


De mulher temos os ramos


por onde trepam angústias e segredos


e sofremos os ninhos


remendando asas e nuvens


de rosas e espinhos.


 

06 março 2022

Guerra


The Telegraph


 


As imagens entram pelos nossos olhos sem intervalos. A destruição o medo, os destroços, os estrondos, as lágrimas, o espanto, o indizível subitamente real e feroz.


Que fazer? Até onde e quando se poderá permitir a escalada?


Putin não vai parar. E nós a assistir.


Não sei muito bem como nem quando, mas todos vamos ser chamados a participar nesta guerra. A apoiar quem precisa. Se não for pior, haverá uma recessão económica mais grave e duradoura que aquelas que passámos.


Tristes tempos nos esperam.

03 março 2022

A crueldade das boas intenções

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São Petersburgo (24/02/2022)


No frenesim de apoiar os ucranianos, que defendem o seu país da invasão da Rússia, um estado ditatorial imposto por Putin, estão a atingir-se proporções assustadoras no que diz respeito à massificação do espectáculo que é a solidariedade e às boas intenções dos povos democráticos.


Mas, como em tudo, não há bons e maus, heróis e vilãos, por muito que seja isso o que a inundação mediática nos faz crer. O mundo livre, nomeadamente os países da União Europeia e os EUA, combate a Rússia, não os russos.


No mundo livre e democrático, ninguém deve ser obrigada a dizer quais as suas opções políticas. Ninguém deve ser perseguido pelas suas opiniões ou pelo silêncio sobre elas.


Considero uma aberração, compreensível, mas não deixando de o ser, as várias manifestações de bulling à comunidade russa portuguesa, tal como aos intelectuais que não se declaram contra a invasão e contra Putin. Num país em que o uso da palavra guerra é considerado traição, parece-me incrível que os corajosos intelectuais ocidentais, sentados confortavelmente nas suas sociedades livres e democráticas, julguem aqueles que pagam com a sua liberdade e a sua vida a manifestação de discordância perante o poder autocrático de um ditador.


Ainda por cima vindo de tantos que, por exemplo em Portugal e durante a ditadura, tiveram que assinar documentos em que negavam ser comunistas ou participar em actividades subversivas para que pudessem manter o emprego.


A liberdade deve ser para todos, de se manifestarem ou de não se manifestarem. Tenho as maiores dúvidas sobre os boicotes culturais e sobre a condenação de quem não expressa o que, subitamente, se tornou na nova verdade inquestionável e soberana. Tenho as maiores reticências à censura de canais de televisão e de agências de informação.


Tenho um enorme cepticismo sobre estas ondas mediáticas intensíssimas e fugazes, que se arriscam a soçobrar perante o peso do ruído omnipresente.


Tenho uma enorme desconfiança a tantos postos de trabalho já disponíveis a quem foge da guerra. Será que já se esqueceram dos médicos, engenheiros, professores, músicos e tantos outros técnicos qualificados que, durante anos, alimentaram a mão de obra barata da construção civil e do serviço doméstico, sem que o país lhes reconhecesse as competências e pudesse oferecer-lhes os empregos correspondentes às suas qualificações?


Há muita crueldade nestas ondas mediáticas de apoios, julgamentos e solidariedades, muitas vezes postiças e fúteis. Espero que esteja enganada, pois esta guerra vai durar e destruir ainda muitas vidas. E nós vamos esquecer depressa as boas intenções e regressar rapidamente às nossas vidas em que o medo do outro e o preconceito são reis.


A não ser que também façamos parte da destruição. E mesmo na dor e no sofrimento, a solidariedade é uma rara ocorrência.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...