01 janeiro 2022

Le Chagrin et la Pitié

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The Sorrow and the Pity


(versão com legendas em inglês)


 


Le Chagrin et la Pitié é um documentário com cerca de 4 horas, realizado por Marcel Olphüls, sobre a ocupação alemã de Clermont-Ferrand (1940 - 1944), durante a II Guerra Mundial.


Divide-se em duas partes - O Colapso e A Escolha. O realizador, entre entrevistas aos habitantes, a antigos soldados alemães, a membros da Resistência Francesa, depoimentos de várias personagens como Anthony Eden, Christian de La Mazière, Georges Lamirand e Pierre Mendès France e excertos de filmes da época, traça uma imagem extremamente incómoda da colaboração do regime de Vichy e da população da cidade.


De tal forma incómoda que o documentário (1969) foi distribuído para as salas de cinema em 1971 e apenas visto no canal FR3 em 1981, tenso sido recusada (censurada) a sua difusão até essa altura.


É muitíssimo interessante pelo que mostra do que é uma comunidade humana. A maior parte de nós tende a ajustar-se e a adaptar-se, fazendo a sua vida sem perguntar, sem querer saber, encontrando justificações para que aquilo que considera ser a sua segurança não desapareça.


Tantas vezes o nosso silêncio e a nossa incapacidade de reagir permitiram e permitem as maiores atrocidades. Mas nenhum de nós as entende como tal enquanto as vive.


Por isso os julgamentos que fazemos da mole humana é enviesada por aquilo que gostaríamos de pensar que faríamos nas mesmas circunstâncias. Por isso percebemos o quanto é artificial a divisão entre vilões e heróis. Não que eles não existam, mas somos nós mesmo que incluímos ambas as condições, e todos os cambiantes entre elas.


E não somos diferentes hoje do que éramos nessa altura. Os apoiantes das ideologias totalitárias não acabaram a 1 de Setembro de 1945, o anti-semitismo não terminou com a libertação dos campos de concentração.


A História, os movimentos das ideias, os comportamentos sociais são muito complexos. E aí está o reacender dos ódios raciais e dos totalitarismos.


O medo.


 


Nota - Publico o comentário de A. Teixeira que é de todo pertinente:



Convirá talvez esclarecer melhor no terceiro parágrafo que, depois da sua exibição nas salas de cinema, a primeira transmissão do documentário por televisão, no terceiro canal da televisão francesa só teve lugar doze anos(!) depois da produção do documentário.

Esse canal (FR3) era tradicionalmente o que possuía as menores audiências dos três (TF1/A2/FR3) que existiam então em França. Mas nas duas noites em que o documentário foi transmitido a FR3 tera tido uma audiência estimada entre 15 e 20 milhões de telespectadores. (A França contava então 54 milhões de habitantes) Podia ter havido uma grande dificuldade em transmitir o filme, mas revelou-se que havia uma enorme curiosidade em vê-lo.


Inícios

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Jonathan Mallett


 


Luminosos dias de um início.


Nascemos a cada instante para o mundo


que fizermos os abraços que tanto


nos faltam a esperança que nos dá


vida.

31 dezembro 2021

Que sejamos felizes

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No último dia de 2021 fazia um post assim titulado.


Há uma nuvem que perpassa por 2020 e 2021. Quase parece que os anos estão congelados, suspensos, tanto como suspendemos e congelámos as nossas vidas.


No último dia do último ano também tínhamos umas eleições perto. Essas previsíveis, enquanto as próximas o são menos.


Imprevisibilidade, é mesmo a palavra que me ocorre quando penso no ano de 2022.


Porque vou aprendendo, à medida que os anos passam, que tudo pode mudar de um momento para o outro, que o que sabemos certo pode transformar-se no incerto.


Perigosos tempos os que passamos.


Que sejamos felizes, É mesmo o que mais importa. Que sejamos felizes nós por fazermos felizes os outros.


Até para o ano.

28 dezembro 2021

60 pinguins

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Alguém me parabenizou com uma imagem de 60 pinguins.


Mesmo sem explicar o que esta piada privada significa, fica bem de ver que os 60 anos vierem ter comigo, ou eu deixei de fugir deles.


É realmente muito. Não sei porque são iguais aos 50 e, se calhar, também aos 40.


Os anos passam e eu sinto-me igual, com a excepção dos dias em que me sinto com 1000. Para mais, os últimos (2020 e este) não existem na minha mente, embora tenha a certeza de que irão perdurar na minha memória.


Muito obrigada a todos quantos se lembraram de mim, neste dia que acaba por ser sempre um marco, e ao qual atribuímos significados que, na maioria das vezes, não têm significado nenhum.


Para o ano haverá mais..... espero.

19 dezembro 2021

Dormências

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Harrie Fasher


 


Olho para o dia como sucessão de segundos


cada qual mais longínquo e inatingível.


Deslaçado o corpo e dormente a alma


arrasto a vontade de alargar as brumas da noite


fumos cinzentos mantos pesados


uma diáfana impalpável realidade virtual


que vai protelando transferindo adiando


desde o imperceptível estremecer da madrugada.


 

12 dezembro 2021

Cadernos de Dominguizo

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A minha amiga Ana Marques Pereira é uma mulher extraordinária.


Não só como clínica, rigorosa, competente, empática, informada (tratam-se doentes, não doenças), com quem tive o privilégio e o prazer de trabalhar durante alguns anos, mas também como pessoa interessada na vida, na História, nos livros, nos manuscritos, na arquitectura, nos objectos, nos ingredientes, na indústria, enfim, em tudo o que se relacione com cozinhas, gastronomia e alimentação humana ao longo da História.


Interessada e interessante, consegue verter os seus conhecimentos para vários livros e conferências, cursos e palestras, com a animação de quem está a contar uma história policial, com a erudição e a simplicidade de quem sabe, de facto, muito.


Também com ela partilho o gosto pelos policiais e pelos heróis de Agatha Christie. Talvez esse gosto tenha sido uma das razões pela escolha da Medicina como profissão - a procura do diagnóstico através das várias pistas que são os sinais e os sintomas, o relacionar tudo isso, o conhecer o corpo e também a personalidade do doente que nos conta, saber escutar e fazer as perguntas certas.


Pois a Ana Marques Pereira lançou ontem mais um livro interessantíssimo - Cadernos de Dominguizo. É um livro que relata a forma como descobriu imensas coisas sobre uma abastada família da Beira Baixa (séc. XIX) através de 2 cadernos de receitas manuscritos, que tinha comprado há já bastante tempo.


Uma verdadeira história policial, cheia de pistas que se vão estudando e esgotando, cheia de conhecimento, referências, citações e explicações, bem contada, num livro lindo e muito bem feito.


Parabéns a ela e a quem com ela trabalhou para que o livro se transformasse numa realidade. E a Alexandra Prado Coelho que tão bem o comentou.


E não se esqueçam! Se também escreverem à mão as vossas receitas culinárias, não se esqueçam de as compilar, dar-lhes um título, assinarem e datarem! 


Aqui está uma bela surpresa de Natal.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...