07 fevereiro 2021

Dos corriqueiros acidentes confinados

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Este confinamento, que a todos põe os nervos em franja, tem sido fértil em pequenos acidentes e desastres que parecem insolúveis, ou muito mais difíceis de resolver quando apenas podemos usar o computador.


Vem este desabafo a propósito de uma irritação doméstica que me acometeu, há uns dias, e que me levou a constatar que coisas muito pouco importantes têm o condão de nos deixar al borde de un ataque de nervios*.


A mobília do meu quarto (cama, mesas de cabeceira, cómoda e roupeiro) foi a primeira coisa que comprámos para a nossa casa, antes de nos casarmos. Daquelas rústicas, de madeira, grande, pesada e fidedigna, uma metáfora para o que se esperava do próprio casamento. Foi comprada na Rebordosa, depois de uns dias de visitas a várias casas (de fábricas) de móveis com uma prima muito querida que nos acompanhou e ajudou nesses primeiros passos pré casório.


Mas a verdade é que já passaram vários (muitos, mais precisamente 32, quase 33) anos. E a mobília começa a dar conta do seu (e nosso) envelhecimento. E a cama primeiro rangia horrorosamente: descobrimos que era do estrado, que foi substituído. Depois foi-se abaixo de uma das pernas, tendo-se partido o encaixe de uma das tábuas (nessa altura éramos ambos bastante elegantes). Um vizinho velhote mas que sabia arranjar tudo tirou-nos do aperto. Depois tivemos que trocar de colchão, o que resultou numa escalada diária ao Everest, visto que não me lembrei de medir a altura do dito. Desde então sou fã de banquinhos que ajudam a chegar mais alto, o que muito me mortifica porque é bastas vezes aproveitado para as torturas diárias do treino (agora que é feito em casa tudo serve para me fazer sofrer).


Há quase um ano, em pleno confinamento e a meio de obras de remodelação, foi-se abaixo de outra das pernas, tendo dado azo a um episódio de rir até às lágrimas, quando recuperei do susto de ter visto o meu querido esposo a desaparecer pela cama, fazendo saltar o tabuleiro com o pequeno almoço que eu, extremosa esposa, tinha trazido para a manhã de sábado (ou domingo, já não me lembro). Dessa vez fomos salvos pelo carpinteiro que tinha arranjado a estante do meu escritório, em perigo por suster tanto livro. Felizmente foi muito simpático e  disponível e resolveu o assunto em três tempos.


Mas há umas semanas, depois de várias ameaças perceptíveis apenas para os ouvidos mais receosos (eu), com alguns sons de protesto quando nos virávamos mais bruscamente, resolveu partir-se de novo. Desta vez estávamos atentos e não fomos apanhados de surpresa. Mas a cama deixou de o ser para passar a tripé periclitante.


A solução gritava – tínhamos de trocar a cama. Só que com todas as lojas de móveis e decoração encerradas, o objectivo não era fácil de atingir. Resolvemos optar por um sommier (confesso que só agora percebi o que era). Mas qual, com que altura, se sem pés se com pés, baixos ou altos, foi todo um emaranhar de decisões difíceis e cheias de armadilhas, pois uma coisa é apreciar ao vivo outra muito diferente é ver fotografias no ecrã dos computadores.


Outra novela foi a entrega e a montagem. Sim, porque arriscarmo-nos a montar uma cama depois do fraquejo dos pés da outra, nem pensar.


Resumindo e concluindo: tivemos que dormir uns dias com o colchão em cima do estrado directamente no chão, o que me obrigou a treinos suplementares de sentar e levantar (com a barriga encolhida e as omoplatas juntas) sempre que pretendia levantar-me da cama. Andava deprimida, confesso.


No dia em que chegou a encomenda fiquei aterrada porque as embalagens não pareciam corresponder ao sommier (com estrado e pés) que vira no site onde o tinha comprado. Concluí de imediato que me tinha enganado na encomenda, o que me deixou ainda mais deprimida. Mas afinal não, tudo estava certo. No dia seguinte a eficaz montagem devolveu-nos a dormida a uma altura muito mais simpática e confortável.


O problema é que agora temos de pensar numa cabeceira, ou em almofadas, ou em travesseiros com fronhas etc., e nada disso é fácil de encontrar online. Enfim, uma enorme trabalheira por tão corriqueiro acidente.


*do título de um filme de Pedro Amodóvar

06 fevereiro 2021

Estratégias

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Evolução da pandemia (post corrigido)


(dados - corrigidos em 07/02 - do Worldometer)

Dos apelos à ilegalização do Chega

Ana Gomes decidiu avançar com uma exposição à PGR com o objectivo de se ilegalizar o partido Chega.


Não ponho em causa o empenho de Ana Gomes nem a sua coragem política ao defender as suas ideias. Mas penso que é um enorme erro político. Como dizia Joana Petiz no DN de ontem, não é o fim do Chega que acaba com os seus eleitores. Em democracia é a força das ideias por um lado e a resolução dos problemas das pessoas por outro, que podem suplantar os mais terríveis instintos da humanidade.


Devem ser responsabilizados os criminosos, independentemente dos crimes que façam. A lei deve ser sempre respeitada. Mas a xenofobia e o racismo não se resolvem proibindo esses partidos de existirem.

Dos recorrentes apelos aos governos de salvação nacional

A Nação precisa de ser salva ciclicamente. Daí, principalmente quando a direita não se constrói como alternativa, vem o Corifeu do costume apelar para um governo de iniciativa presidencial ou de salvação nacional - quem mais se não o Presidente promover a salvação da Nação?


Desde 18 de Março de 2020 que estamos, quase sem intervalos, em estado de emergência. Como é hábito, todos estes estados excepcionais resultam da necessidade de proteger os cidadãos de ameaças muito graves. Por isso aceitam-se limitações às liberdades e garantias, pois a segurança é um bem que desejamos acima de qualquer outro.


Com o país mergulhado em medo, crise pandémica e económica, com o desemprego, as desigualdades e a sensação de injustiça e de revolta a aumentarem, insufladas por uma comunicação abutre, incompetente e suicidária, nada melhor para as ambições de qualquer ditador de pacotilha a criação de casos e crises que apenas se resolvem com mão dura e abrangente, na procura de unanimidades e soluções contrárias ao espírito democrático.


Tudo serve para instalar a insegurança e o caos - a exploração ad nauseum dos números da pandemia, a insistência na balbúrdia do plano de vacinação, as horas frenéticas a decretar a os preconceitos ideológicos do governo, assim como a implícita ou explícita culpabilização dos responsáveis políticos pelas misérias morais de quem atropela os mais elementares valores de solidariedade e da decência.


Perante tudo isto, nada melhor que, fazendo tábua rasa de todo o nosso sistema político, apelar-se ao Presidente para desfazer (ou não) o Parlamento e decretar um Governo de Salvação Nacional.


Realmente precisamos de nos salvar de tais salvadores. Se houver crise de governo e demissão do mesmo, que tal ir a eleições? Não é assim que, em democracia, se resolvem as crises políticas? Salazar esteve tanto tempo no poder porque há muita gente que, mal assomam as nuvens no horizonte, vem clamar por um salvador, em forma de Presidente ou governo de bloco central, a amálgama dos interesses e do centrão que desfaz o confronto de ideias e de soluções.


Tenho Marcelo Rebelo de Sousa na conta de um democrata. Não acredito mesmo que lhe passe pela cabeça uma aventura destas. Felizmente. Foi eleito para cumprir e fazer cumprir a Constituição e pugnar pelo regular funcionamento das Instituições Democráticas, não para as subverter.

30 janeiro 2021

Resistir

Nestes tempos sem abraços


Colhemos os passos


No som da memória


Nestes tempos sem história


Sorvemos instantes


Nos olhos distantes


 


Insistimos


Resistimos


Não desistimos


 

27 janeiro 2021

Inaceitável

A AstraZeneca, após ser financiada pela União Europeia para o desenvolvimento e produção da vacina contra a COVID-19, vem agora assumir que não cumprirá o contrato de entrega das doses.


A reacção da União Europeia só pode ser esta.



"As empresas farmacêuticas, os produtores de vacinas, têm uma responsabilidade moral, social e contratual que precisam de garantir", afirmou, considerando que "a perspectiva de que a empresa não tem de cumprir, porque assinámos um contrato de "melhores esforços" não é correcta, nem aceitável".



Espero bem que esta posição inaceitável da Farmacêutica seja revertida. Mas os negócios e os milhões que se prespectivam não pronunciam nada de bom.

Das armas repressivas

Controlo da pandemia - segundo a TSF.



Quem quer sair de casa para "fruir de momentos ao ar livre" ou passear animais de estimação pode comprovar que vive por perto com um comprovativo de morada, nomeadamente a carta de condução ou qualquer recibo de água, eletricidade ou telecomunicações.


Para adquirir bens essenciais podem ser apresentadas faturas ou outros comprovativos da compra, bem como uma declaração sob compromisso de honra.


Usar um carro para usar a exceção que permite sair de casa para ter um "momento ao ar livre" está claramente proibido.


(...) o Governo decidiu, de uma vez por todas, usar a arma repressiva das forças de segurança para terminar com aquilo que está a acontecer no país (...)



Extraordinário.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...