06 dezembro 2020

Da irresponsabilidade criminosa

vacinas covid expresso.jpgTítulos do Expresso entre 26 e 27 de Nov/2020, por ordem cronológica


 


Vivemos tempos de perigo e populismo. A pandemia libertou fantasmas e o pior que há em nós.


A incerteza, o medo, o nascimento espontâneo de especialistas em virologia, epidemiologia, imunologia, saúde pública, vacinação e estatística, arrebatados e comandados pela enorme necessidade de ter audiências e pelo desnorte dos responsáveis políticos, leva ao descrédito e à desconfiança de quem tenta perceber o que se passa.


O Expresso deixou há muito de ser um jornal sério e de referência, mas vai-se superando a si próprio. O mais assustador é a falta de calma e ponderação de quem vai atrás dos títulos bombásticos e gera ainda mais pânico. Talvez um dia haja várias teses de doutoramento sobre o comportamento dos media na pandemia (refiro-me a esta - COVID-19).

Da demolha e cozedura do bacalhau

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Com ou sem pandemia, o calendário aí está e a noite de Natal aproxima-se a largos passos. É tudo muito estranho pois este ano parece que não passou, que ficou suspenso desde Março e que não sabemos quando vai recomeçar.


Mas tudo continua nas profundezas dos movimentos de rotação da Terra e da órbita à vota do Sol. Portanto convém começar a fazer planos para a Consoada que vai ser uma realidade, independentemente do número de pessoas que pudermos e quisermos juntar.


E do bacalhau não nos escapamos. E como, de vez em quando, resolvo regressar à busca do básico mais básico para uma aprendizagem em etapas, nunca chegando às superiores e voltando ciclicamente às dos patamares, resolvi investigar o problema da demolha do bacalhau e do ainda mais importante tema da cozedura do mesmo.


Está tudo na internet. Depois de assistir a vários tutoriais no YouTube e a descrições mais ou menos exaustivas dos processos (até a DECO tem um artigo sobre este magno problema), cheguei à conclusão que nunca, mas mesmo nunca, cozi o bacalhau como devia. O mistério é ele não se ter queixado, nem nenhum dos comensais.


Vamos por partes: a demolha - não é mais que reidratar o bacalhau, ou seja, restituir-lhe a água que perdeu com a salga (para quem gosta de usar o bacalhau seco e salgado, claro, porque já há bacalhau demolhado e congelado à venda). Deve colocar-se sempre a pele para cima, as postas do bacalhau não devem assentar no fundo do alguidar, onde devem ficar a nadar, para que o sal não se deposite na carne do bicho, a água deve estar fria, sendo substituída frequentemente (não há consenso – nuns sítios dizem de 3 em 3 horas, noutros de 8 em 8 horas). Antes do alguidar deve passar-se o bacalhau por baixo da torneira para retirar de imediato o excesso que está à vista. O tempo da demolha é ditado pelo tipo de bacalhau que se tem.


tempo demolha bacalhau.PNG


Durante este processo o bacalhau deve ser mantido no frigorífico, pois à medida que perde o sal e ganha a água aumenta o risco de se deteriorar. Para se ter a certeza de que está bem, tira-se uma lasca de uma posta e prova-se.


A cozedura foi todo um novo abrir de olhos para segredos culinários, pelo menos para mim, que há anos que como bacalhau cozido com todos nas várias épocas do ano. Pois fiquei a saber que o bacalhau não deve ser fervido. Portanto põe-se um tacho cheio de água ao lume, perfumada (adoro estes preciosismos linguísticos) com um pouco de azeite, louro e alho. Quando a água ferver coloca-se o bacalhau no tacho (com a pele para cima), deixa-se levantar de novo fervura, retira-se o tacho do fogão (desliga-se o lume), tapa-se bem tapado e espera-se 15 minutos.


E pronto, aqui está o resumo da matéria estudada. O momento da verdade será o próximo dia 24 à noite. Eu adoro experimentar coisas quando não devo. É mesmo uma estranha atracção pelo abismo.

05 dezembro 2020

Presidenciais

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As próximas eleições presidenciais arriscam-se a ser uma desresponsabilização total, por parte da população, de um acto extremamente importante nos sistemas democráticos. Para isso contribuem as diversas crises que nos têm assolado e depauperado, a pandemia e o medrar dos populismos, que a abstenção alimenta.


A cerca de um mês do fim do prazo para a finalização das candidaturas, Marcelo Rebelo de Sousa vai fazendo campanha a coberto do seu cargo, sem ter ainda formalizado a sua recandidatura. Não havia necessidade.


Os restantes candidatos têm a árdua tarefa de mobilizar um eleitorado descrente, desmotivado e alheado, encolhendo os ombros a mais esta eleição, a que não dão qualquer importância.


E no entanto, prevendo as enormes dificuldades económicas e sociais, para não dizer políticas, que se avizinham, a legitimação de um Presidente com uma grande afluência às urnas seria fundamental para que os cidadãos se pudessem rever no seu representante.


A democracia não é um assunto dos políticos. É um assunto de todos. No momento em que deixarmos de acreditar nisso abrimos as portas à instalação de ditaduras e à entrega do poder a gente inqualificável.

Se o meu amor me deixar

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O abraço


Gustav Klimt


 


Se o meu amor me deixar


Perdida na imensidão


Serei mais terra que mar


Fogueira de solidão


 


Se o meu amor regressar


Mãos vazias de ternura


Já não me vai encontrar


Em suave e lenta fervura


 


Se o meu amor viajar


Pelas terras do além


E a um canto semear


Pozinhos de fazer bem


 


Hei-de limpar-lhe de medo


A cama onde se deitar


Faço uma trança em segredo


Dos sonhos que ele guardar


 

15 novembro 2020

Das terapêuticas anti-virais (reload)

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Não vá o diabo tecê-las


Obrigatória a prevenção


Maleitas temporãs nem vê-las


Afastamo-las com estadão


 


Panelas grandes a preceito


Há que manter a tradição


Descascar ameixas a eito


Para dentro do panelão


 


Do gengibre são conhecidas


As vantagens medicinais


Qualidades enaltecidas


E uns poderes fenomenais


 


Da canela não é segredo


Que cura gosmas e terçolhos


Contra enfartamentos e medo


Elimina até os piolhos


 


Juntar açúcar bem medido


Do branco ou do amarelo


A ser mexido e remexido


Como se enrolasse um novelo


 


As quantias serão as certas


Para adoçar o paladar


Menos ou mais verás que acertas


No gosto que mais te agradar


 

Dos modernos e tecnológicos contos do Vigário

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Ontem coloquei umas coisas a vender no OLX. Mal tinha acabado de publicar os anúncios recebo um telefonema de alguém com voz e sotaque bastante rústicos, para me dizer que estava interessado em comprar as peças. Muito surpreendida com a rapidez da decisão de compra, confirmei a minha disposição de venda não tendo sido questionado o preço, o eventual estado mais ou menos depauperado. Prometeu-me o levantamento das ditas peças em minha casa, no dia seguinte. Mais disse que queria pagar de imediato por MB WAY.


Apesar da rapidez e da aparente facilidade de tão inédita transacção, perguntei porque não pagava depois de ter as peças. A resposta veio despachada, dizendo-me que só precisava dos números para completar o pagamento.


Depois de perguntar várias vezes a que números se referia lá acabou por dizer que era o PIN.


Transacção de imediato cancelada com interrupção abrupta da ligação, da minha parte, depois de perguntar se estava a brincar comigo.


Imediatamente a seguir telefona outro rústico, dizendo que se tinha enganado no número do telemóvel para o pagamento, e que precisava dos números do PIN. Aí já não achei tanta piada.


Depois de desligar o telemóvel vi que tinha um sms do serviço MB WAY, avisando-me que tinha havido 2 tentativas de uso do PIN que estava errado e que me restava uma tentativa.


Ou seja, os rústicos tinham usado o meu número de telemóvel para tentar pagamentos com MB WAY e usaram um qualquer PIN, tentando engodar-me para lho dar.


Depois de uma pesquisa pela internet com as palavras burlas e MB WAY, lá estava bem visível o esquema. Para quem não esteja familiarizado com o MB WAY, a rapidez e o despacho dos burlões podem baralhar os incautos e induzi-los a colaborar. Mesmo assim o pedido do PIN deve acender todas as campainhas e despertar todos os alarmes.


Mais um conto do Vigário. Esta nunca me tinha acontecido.

Respeito

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Vivemos tempos muito difíceis, a todos os níveis. A pandemia veio agravar e reacender problemas anteriores, colocando as populações perante dilemas impossíveis.


A cacofonia de opiniões, interpretações, descobertas reais ou fictícias, a disseminação da certeza de que todos sabemos de tudo e o fenómeno da proliferação de meios de manipulação, desde os tradicionais aos futuristas, transforma a decisão individual e colectiva numa tarefa hercúlea.


Por outro lado, a politização da pandemia vem baralhar ainda mais os cidadãos. Em vez de uma troca de informações e opiniões baseadas nas evidências científicas assistimos à divisão entre os bons e os maus, os certos e os errados, colando cada sector a uma área ideológica, o que é, por si só, a negação da evidência científica.


Acrescem as revoltas e incertezas quanto ao futuro, que se nos afigura triste e longínquo, o aumento das desigualdades, da pobreza, da marginalização dos mais fracos e indefesos e o crescer dos populismos e das tentações autoritárias. Trump é anterior a tudo isto, mas é bem o corolário da loucura instalada.


Por isso mesmo é preciso que tenhamos a noção daquilo que, apesar de tudo, mesmo com muitos erros e indecisões, mudanças de atitude e de orientações, nos é pedido. Vivemos numa democracia representativa e num Estado de Direito. Todas as decisões sobre confinamentos, recolheres obrigatórios, máscaras, etc., por muito penosas e discordantes das nossas próprias opiniões e (in)certezas, são tomadas pelos representantes das instituições que livremente elegemos, que mandatámos excatamente para estes fins.


Esta é uma crise global, que nos assusta e desafia a todos. Não nos devemos impedir de pensar e de partilhar as nossas opiniões e dúvidas, de debater as medidas uma a uma, de questionar e os poderes sobre as suas decisões e de os julgar, nas urnas. É assustador o espírito pidesco e de pensamento único que se está a impor nas nossas sociedades, apelidando todos os que não concordam com a linha oficial de negacionistas e divulgadores de fake news.


Mas nada disto deve diminuir a nossa vontade de fazer aquilo que está determinado pelo governo, assente nas promulgações do Presidente da República e pela aprovação do Parlamento. Nada disto deve colocar em causa a confiança na competência da DGS nem no SNS. Não há milagres e as mudanças nas orientações gerais são o espelho do que ainda há a descobrir sobre esta doença e este vírus, e do andamento das investigações internacionais que, comparando com outros momentos semelhantes, tem sido de uma rapidez notável.


Tenho imenso respeito por todos aqueles que, neste momento, têm nos ombros a tarefa de nos orientar. Imagino as infindáveis horas de reuniões, discussões, trocas de argumentos, indecisões, desespero, as insónias e as angústias antes de decisões com custos tão elevados.


Respeito por todos eles, um enorme respeito. Mesmo que não concorde, que me irrite, que me espante e me revolte, cumprirei as regras.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...