15 novembro 2020

Respeito

virus.jpg


 


Vivemos tempos muito difíceis, a todos os níveis. A pandemia veio agravar e reacender problemas anteriores, colocando as populações perante dilemas impossíveis.


A cacofonia de opiniões, interpretações, descobertas reais ou fictícias, a disseminação da certeza de que todos sabemos de tudo e o fenómeno da proliferação de meios de manipulação, desde os tradicionais aos futuristas, transforma a decisão individual e colectiva numa tarefa hercúlea.


Por outro lado, a politização da pandemia vem baralhar ainda mais os cidadãos. Em vez de uma troca de informações e opiniões baseadas nas evidências científicas assistimos à divisão entre os bons e os maus, os certos e os errados, colando cada sector a uma área ideológica, o que é, por si só, a negação da evidência científica.


Acrescem as revoltas e incertezas quanto ao futuro, que se nos afigura triste e longínquo, o aumento das desigualdades, da pobreza, da marginalização dos mais fracos e indefesos e o crescer dos populismos e das tentações autoritárias. Trump é anterior a tudo isto, mas é bem o corolário da loucura instalada.


Por isso mesmo é preciso que tenhamos a noção daquilo que, apesar de tudo, mesmo com muitos erros e indecisões, mudanças de atitude e de orientações, nos é pedido. Vivemos numa democracia representativa e num Estado de Direito. Todas as decisões sobre confinamentos, recolheres obrigatórios, máscaras, etc., por muito penosas e discordantes das nossas próprias opiniões e (in)certezas, são tomadas pelos representantes das instituições que livremente elegemos, que mandatámos excatamente para estes fins.


Esta é uma crise global, que nos assusta e desafia a todos. Não nos devemos impedir de pensar e de partilhar as nossas opiniões e dúvidas, de debater as medidas uma a uma, de questionar e os poderes sobre as suas decisões e de os julgar, nas urnas. É assustador o espírito pidesco e de pensamento único que se está a impor nas nossas sociedades, apelidando todos os que não concordam com a linha oficial de negacionistas e divulgadores de fake news.


Mas nada disto deve diminuir a nossa vontade de fazer aquilo que está determinado pelo governo, assente nas promulgações do Presidente da República e pela aprovação do Parlamento. Nada disto deve colocar em causa a confiança na competência da DGS nem no SNS. Não há milagres e as mudanças nas orientações gerais são o espelho do que ainda há a descobrir sobre esta doença e este vírus, e do andamento das investigações internacionais que, comparando com outros momentos semelhantes, tem sido de uma rapidez notável.


Tenho imenso respeito por todos aqueles que, neste momento, têm nos ombros a tarefa de nos orientar. Imagino as infindáveis horas de reuniões, discussões, trocas de argumentos, indecisões, desespero, as insónias e as angústias antes de decisões com custos tão elevados.


Respeito por todos eles, um enorme respeito. Mesmo que não concorde, que me irrite, que me espante e me revolte, cumprirei as regras.

14 novembro 2020

Filhos

tree.jpg


Tommy Craggs


 


Crio filhos como quem cria árvores.
Deixo-as varridas pelas intempéries
descobrindo pássaros e revivendo almas
dos que às suas sombras se recolhem.
De vez em quando arrastam braços
e arrancam raízes numa ânsia de movimento.
Nesses dias aparo troncos com sangue e lágrimas
cavo mais fundo a terra para que
do meu corpo se equilibrem de novo.
Aí para sempre me deitarei um dia dormindo
entre o lodo e a eterna revolução de viver.

10 novembro 2020

Novembro

Jannick-Deslauriers-Fracture.jpg


Fracture


Jannick-Deslauriers


 


Em frente a mim sem espelho nem nuvens


apreendo o espaço que me rodeia


respiro as últimas gotas de passado


encerro o pó e a juventude.


Não sei das janelas do futuro


nem dos ninhos de águas revoltas


que me arrastavam pela vida.


Mas ainda me esperam as papoilas de Novembro


e o doce sabor da aventura.


 

05 novembro 2020

Quinze (15) anos

QUIET WHISPER.jpg


Quiet Whisper


Miertje Skidmore


 


Quinze anos se passaram desde que comecei este blogue. Quinze anos em que muito aconteceu e mudou, no mundo e em mim.


Olho para a realidade actual e pergunto-me em que medida fiz parte destes quinze anos, como terei eu participado, moldado ou sido moldada pelas torrentes que nos assolam diariamente, umas mais subterrâneas, outras mais transparentes.


Definhei, particularmente na cor com que olho para o presente e para o futuro. Vou emudecendo, de espanto e incapacidade de processar este novo anormal em que nos tornámos como comunidade. As convicções nos alicerces da liberdade e da democracia rudemente postas à prova perante tão avassalador ataque aos valores da justiça, solidariedade, independência, sabedoria, competência, humildade, todos aqueles que nos habituámos a associar à sociedade do novo milénio, em que o acesso à informação e à cultura, aos mais elementares meios de dignificação da vida seriam, pelo menos, mais alargados, em que a igualdade fosse mais espalhada.


Na verdade parece tudo estar a ruir. A inacreditável hipótese de reeleição de alguém como Donald Trump para a Presidência dos EU é assustadora. A falta de respostas dos sistemas democráticos, o deslaçar das sociedades, o aumento das desigualdades, da pobreza, da xenofobia, do racismo, com o consequente aumento dos populistas, é perigoso e parece não ter forma de ser detido. Os partidos da esquerda não têm sido capazes de dar respostas aos problemas cada vez mais urgentes e os totalitarismos já não são apenas larvares.


Na minha vida também aconteceram coisas muito boas. A internet tem lados negros mas é uma ferramenta poderosíssima no conhecimento, na informação, na criação de laços entre pessoas que, de outra forma, nunca se encontrariam. Conheci pessoas fantásticas, embrenhei-me em grupos, discussões, trocas de experiências, algumas negativas mas a maioria positivas. Estou mais velha mas fiz coisas diferentes e que nunca teria pensado fazer, tanto a nível profissional como pessoal. Publiquei 4 livros de poesia, mudei duas vezes de local de trabalho, participei na organização de vários eventos científicos, ri muito e chorei muito, zanguei-me muito, esperei muito.


Apesar do desânimo, sei que é passageiro. Espero ainda muito, de todos, mas principalmente de mim. Vai-se fazendo tarde e começa a faltar o tempo.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...