26 agosto 2020

Luz coada


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Glass Petal


Emily Williams



 


1.


Viajamos dentro de nuvens


sem ver o brilho do mundo.


A luz coada veste-nos as emoções


de uma seda enganosa.


A nudez da alma é indispensável


ao espectáculo da vida


que o medo encolhe e banaliza.


 


2.


Deste Outono que me cobre


a gentileza da chuva


no olhar que não desiste.


Arrumo de noite os punhais


que o flagelo da realidade


torna redundantes.


06 agosto 2020

De passagem

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Sinan Soycut


 


Afinal


já a dança nos afasta. Os lugares desconhecidos


assim mesmo permanecerão. Afinal já o tempo


importa e todas as pequenas frivolidades que


adiamos caberão noutras vidas. Afinal já a porta


se vai fechando e a perda dos afazeres da futilidade


pesa mais que todos os versos que ainda não


descobrimos.


 

A realidade a ultrapassar a ficção

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Nunca julgaria possível ver na Presidência dos Estados Unidos alguém tão inqualificável como Donald Trump.


Todos os dias se excede em afirmações bombásticas, estúpidas, mentirosas, irresponsáveis. Não sei se estará demente ou se é apenas uma desculpa que arranjamos para aceitar que foi eleito, que o mesmo país que elegeu Obama foi capaz de o substituir por tamanho incapaz.


Estaremos ainda para assistir a piores desmandos, com a desavergonhada suspeição que levanta sobre as próximas eleições, com a inusitada classificação de ataque ao imenso desastre em Beirute.


Isto passa-se nos Estados Unidos da América, não numa qualquer República de um país de banda desenhada ou de filme do Woody Allen.

29 julho 2020

Aproximo

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The Scotish Poet Library


 


Não é por me afastar


que me aproximo


se o abraço me faltar


estendo os olhos


nas palavras a guardar


falta-me a boca


que me nego a calar


pois serei louca.


Se o silêncio me bastar


cavo um buraco


para quando me fartar


deste pedaço.

26 julho 2020

Cigarras

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Cigarra


 


O ar completamente parado, sufocante, de uma luz amarelada e bafienta. As tardes de Verão na província, a obrigatória sesta nos quartos insuportavelmente quentes, com as portadas de madeira que abriam riscas de pó dançante, até que o sono vencia as mais resistentes pálpebras. Ao longe o canto das cigarras era a única coisa que se ouvia.


Outro dia surpreendi-me a ouvir cigarras no Jamor, enquanto me preparava para o treino. Repentinamente senti-me outra vez com 10 anos, naquelas imensas tardes suspensas, como se a vida sustivesse a respiração.

Reorientar prioridades

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Se calhar já ninguém se lembra das previsões do tsunami da pandemia que estava prestes a atingir Portugal. Convém lembrar que a previsão mais benigna era de termos 16.395 casos a 30 de Março, e a mais negativa projectava 48.110 casos no mesmo dia. Felizmente apenas a 18 de Julho se atingiram os 48.390 casos (110 dias depois).


Ao contrário das muitas declarações que se multiplicam veiculadas por diversas entidades e personalidades com diferentes formações e responsabilidades, considero que, em Portugal, a situação nunca esteve descontrolada e até tem corrido bastante bem.


Se bem me recordo, o grande objectivo era achatar a curva, de forma a reduzir ao máximo a inundação dos serviços de saúde e a mortalidade, minimizando as infecções nas faixas etárias mais elevadas. Até hoje, mesmo após o desconfinamento, isso tem sido conseguido.


covid 26_07_2020.jpgEspero sinceramente que se possam retomar todas as actividades o mais depressa possível, vencendo o alarmismo e o pânico que nos assolam. Não podemos manter alocados todos os recursos, nomeadamente os da saúde, a tratar uma doença que, apesar de tudo, atinge 0,5% da população do país, se considerarmos apenas os casos confirmados de infecçãoHá imensas outras patologias que foram deixadas à sua sorte, muitos doentes que deixaram de ser acompanhados, ou porque não procuraram os serviços ou porque estes estavam impossibilitados de os atender.


covid 2 26_07_2020.jpgÉ indispensável, sem que abrandemos os cuidados e a prevenção da infecção, que saibamos conviver com este vírus. Não me parece justificável a manutenção diária de notícias que nos convencem de uma magnitude que está desfocada da realidade.


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Não desvalorizo a COVID-19, até porque muito há ainda para saber e descobrir sobre esta entidade. Mas a hipertrofia mediática do SARS-CoV-2 faz-nos desfocar de todos os outros problemas tão ou mais graves e muito mais prevalentes nas nossas sociedades. É altura de recuperarmos do susto e de reorganizarmos as prioridades.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...