07 março 2019

Ensaios

Tenho ensaiado alguns textos sobre diversos assuntos que considero importantes, mas quando chego a meio, desisto. Ou porque já passaram alguns dias sobre o assunto e já não é actual, havendo mais uns milhares para falar, ou porque já se disse tudo e o seu contrário, pelo que nada acrescentaria.


 


E assim vou deixando passar as oportunidades de me exprimir, desistindo da veemência, adiando as opiniões, duvidando das certezas entretanto experimentadas. Tudo acaba por se relativizar e desvanecer.


 


E, no fim do dia, qual era mesmo a notícia?

24 fevereiro 2019

Diálogos de surdos

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Dialogue des Sourds


Nadim Karam


 


 


As fake news sempre existiram. Chamávamos-lhes outras coisas, como por exemplo, na época do PREC, os boatos. O boato era a arma da reacção.


 


As fake news também são uma arma de arrebanhar incautos e gente de boa fé e, sobretudo, gente pouco preparada para desconfiar, para criticar, para confrontar fontes e fazer aquilo que agora se chama o fact checking.


 


Na verdade a capacidade de divulgação e a rapidez com que as falsas notícias se propagam e a virulência das reacções são, talvez, maiores e piores do que era hábito. São arrepiantes as caixas de comentários no Facebook e nos jornais, em qualquer coisa que esteja aberta a opiniões de leitores. Parece que se soltam todos os demónios escondidos debaixo das nossas peles e mostramos o que na realidade somos.


 


A ausência de conhecimento e maturação de ideias, conhecimentos de História e de filosofia, a ausência e redução vocabular pela inexistência de leitura e de capacidade de abstracção, a ausência de pensamento dedutivo e lógico, a enumeração e priorização de argumentos e a sua explicitação, tudo isso leva à crendice e à falta de sentido crítico. Estamos cada vez menos capazes de pensar e de ouvir o que os outros pensam. Por isso tudo se extrema e se reduz ao insulto, à fé em determinadas pessoas, à defesa incondicional de determinados factos e personagens.


 


Ninguém está imune a esta epidemia, e o autismo a que cada vez mais nos condenamos, a falta de partilha pela ausência do outro, real ou porque o excluímos ou porque se exclui, agudiza e aumenta o problema.


 


Precisamos de tempo para nos desafiarmos, de tempo para nos ouvirmos, de tempo para respirar e pensar, para ler, para saber coisas que, aparentemente, não têm aplicabilidade prática e imediata. Precisamos de ouvir histórias e de as contar, de as resumir e de as esticar, precisamos de distinguir o real do virtual, precisamos de nos confrontar e ser confrontados, de comunicar.


 


A tolerância não se decreta, aprende-se no meio dos outros, com os outros. Os populismos acabam por resultar do entrincheiramento da ignorância, da defesa do indefensável, da exploração do facilitismo e da preguiça. A democracia e a liberdade dão muito trabalho.

Óscar

(embora não tenha visto A Favorita)


Para ganhar o festival....

... esta é, de longe, a melhor canção:


12 fevereiro 2019

Algo está muito errado

Quando um Estado que se diz democrático se propõe prender por 25 anos elementos que defenderam e defendem a independência de uma região, por meios não violentos.


 


Em Espanha, por muito que eu pense que os separatistas catalães conduziram muito mal todo este processo, não consigo entender e revolta-me o meu sentimento de justiça e liberdade, quando se aceita que haja pessoas presas há mais de um ano, preventivamente, por defenderem os interesses do povo que as elegeu legitimamente, e que se coloque sequer a hipótese de as condenar como se fossem assassinas.


 


Algo está mesmo muito mal no reino aqui ao lado.

10 fevereiro 2019

Of mice and men*

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A extrema-direita alastra, perde vergonha e ganha força - em Espanha, mesmo aqui ao lado, Franco revive - ¡Una, Grande y Libre! - ¡Arriba España!


 


A democracia espanhola tem presos os políticos catalães que querem referendar a sua independência. Presos por delito de opinião são presos políticos. Apelidar de traidor a Sanchez porque tenta resolver politicamente o imbróglio catalão, aumentado e extremado pelo PP, é espantoso.


 


A extrema-direita alastra na Europa e em Portugal, basta ver as declarações do Presidente do Sindicato da PSP, reagindo à visita do Presidente da República ao bairro Jamaica, após os distúrbios que por lá aconteceram.


 


O racismo, a xenofobia, o anti-semitismo, o machismo, a violência e o desprezo pelas minorias étnicas, o regresso aos (pseudo)valores ultramontanos e ultraconservadores da família e da pátria, do papel do homem e da mulher na sociedade, é tudo triste e assustador.


 


Em Espanha, mesmo aqui ao lado, Franco revive e rejubila.


 


*título de um livro de John Steinbeck

Out of the blue

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Vamos descobrindo talentos novos e novas habilidades. Os anos que se somam também servem para remodelar ou redescobrir o mundo que somos.


 


Joaninha Costa Rosa vai expor os seus trabalhos na galeria do Auto Clube Médico Português, em Lisboa, a partir de 28 de Fevereiro. Tem uma pintura cheia de bonecos e animalejos, povoada de referências da sua vivência profissional, mas que se enrolam e misturam com os mundos da infância, com o rigor e a crueldade da inocência. Não sou entendida em pintura, mas posso dizer que gosto do que faz.


 


Resta dizer, em jeito de declaração de interesses, que a Joaninha é uma amiga, querida amiga e colega, de tantos anos e tantos mundos.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...