21 julho 2018

Da Mediania

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Warren King


 


 


Na verdade, só agora percebeu a bênção que é não se inteirar de nada. O mundo deixou de lhe interessar. Tanto que a sua arrogância tinha para dizer, tudo o que pensava precisar de partilhar, pensamentos, sugestões, indignações, espantos, comoções, palavras, textos, poemas, notícias dissecadas, treino de costela detectivesca, desprezos, confianças, juras de fidelidade e dores de traições, nada mais lhe interessava.


 


A vida facilitou-se enormemente com o afastamento da mundana necessidade de estar a par dos acontecimentos. Vagueia mole e sonolentamente pelas redes sociais, observa com um olho meio fechado os títulos dos jornais, ouve de vez em quando os locutores dos canais de notícias, com aquele jeito de estar sempre a anunciar o apocalipse, os comentadores a perorar sobre as últimas colheitas e a próxima guerra intergaláctica.


 


O mundo não precisava da sua atenção, nem das suas análises. Pode concentrar-se na perpétua e menor actividade de passar um dia após o outro entre as paredes da sua realidade, com pedras e flores mais ou menos aleatórias. A comezinha tarefa de viver, comer, dormir, trabalhar, rir, chorar, ver séries de televisão à desfilada, ouvir música, muita música, acordar para a ginástica, discutir e planear concertos, teatro, livros, sonhar as viagens que há-de curtr.


 


A mediania que nasce connosco e não se encomenda, mas que se recomenda.

16 julho 2018

O Oráculo de Jamais

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É dos livros mais extraordinários que li até hoje, há já muitos anos. Comovente, lindíssimo. De Altino do Tojal.

15 julho 2018

Pombos de guerra

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Cher Ami


 


 


Na era das comunicações digitais, globais e internáuticas, em que a comunicação é instantânea e os segredos deixaram praticamente de existir, causa-nos uma enorme estranheza a utilização de pombos como mensageiros, ainda por cima em tempo de guerra, em que as informações são extremamente sensíveis.


 


E, no entanto, os pombos (especificamente uma determinada raça, os homing pigeons) foram importantíssimos para o esforço de guerra, em todos os lados do conflito, pela capacidade única de conseguirem regressar a um local de onde partiram (homing) por aquilo a que se chama magnetorecepção (capacidade de detectar um campo magnético para estabelecer coordenadas de altitude, direcção e localização). Há registos da utilização dos pombos como mensageiros militares desde o império romano.


 


Nas I Guerra Mundial um pombo (o Cher Ami) foi condecorado com a Croix de Guerre, pelos valorosos serviços prestados na Batalha de Verdun. Na II Guerra Mundial a Dickin Medal foi atribuída a 32 pombos.


 


Mesmo neste século ainda há notícias de pombos usados em comunicações militares. É extraordinária a capacidade do Homem em colocar a natureza ao seu serviço, transformando os animais em extensões das suas necessidades.

14 julho 2018

Ecos

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Crescent


Thomas Joynes


 


 


Os teus olhos as tuas mãos


as vozes no rumor do começo.


Onde estou agora? Por onde


passaram os dias que me espreitam


de longe? Ecos de uma vida


que já não reconheço.

Erbarme dich, mein Gott


 Anne Sofie von Otter


J. S. Bach - Matthäus-Passion

Redoma

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Papoilas de cerâmica


Lincoln Castle


 


Da janela enfrento as nuvens dentro da redoma do esquecimento.


Espero o vagar do sono os gestos do descanso a que me obrigo


aplicadamente para suster a respiração. As bandeiras


deixaram a cor empalidecer e os hinos estão calados. Amanhã


acordarei a alma por eles.

09 julho 2018

A poesia na Grande Guerra

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Gassed


John Singer Sargent


 


All a poet can do today is warn. That is why the true poet must be truthful


Wilfred Owen


 


poesia é um dos grandes testemunhos da I Guerra Mundial. Muitos dos poetas eram jovens que combateram e morreram nas batalhas ou como consequência delas. A poesia foi um meio de expressarem o seu medo, a sua fúria, a sua tristeza, a sua vulnerabilidade. Transformaram-se nas vozes das consciências dos povos, pela sua comovedora sinceridade e honestidade, numa linguagem que se desligou de artificialismos formais e nos aproxima do sofrimento, da amizade e da solidariedade.


 


Muitos foram os que publicara os seus poemas durante a Grande Guerra, havendo inúmeras antologias já do pós-guerra.


 


IN FLANDERS FIELDS


 


In Flanders fields the poppies blow


Between the crosses, row on row,


    That mark our place; and in the sky


    The larks, still bravely singing, fly


Scarce heard amid the guns below.


 


We are the Dead. Short days ago


We lived, felt dawn, saw sunset glow,


    Loved and were loved, and now we lie,


        In Flanders fields.


 


Take up our quarrel with the foe:


To you from failing hands we throw


    The torch; be yours to hold it high.


    If ye break faith with us who die


We shall not sleep, though poppies grow


        In Flanders fields.


 


John Mccrae


 


 


THE DEAD


 


These hearts were woven of human joys and cares,


      Washed marvellously with sorrow, swift to mirth.


The years had given them kindness. Dawn was theirs,


      And sunset, and the colours of the earth.


These had seen movement, and heard music; known


      Slumber and waking; loved; gone proudly friended;


Felt the quick stir of wonder; sat alone;


      Touched flowers and furs and cheeks. All this is ended.


 


There are waters blown by changing winds to laughter


And lit by the rich skies, all day. And after,


      Frost, with a gesture, stays the waves that dance


And wandering loveliness. He leaves a white


      Unbroken glory, a gathered radiance,


A width, a shining peace, under the night.


 


Rupert Brooke

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Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...