18 junho 2018

Rouen

Antes de chegarmos a Rouen passámos por Lisieux para tomar um café. Havia um mercado de rua (era sábado), do mesmo tipo das nossas feiras por todas as pequenas cidades e vilas de província. Encontrámos uma banca que vendia livros em segunda mão, tendo sido obrigatória a compra de alguns livros de banda desenhada de Achille Talon, muito apreciado por certas pessoas.


achille talon.jpg


Rouen é célebre por vários motivos, um deles a sua catedral, enorme, de estilo gótico, não só por ter sepultado o coração de Ricardo, Coração de Leão, mas também pelo facto de ter sido pintada por Monet numa série que retrata as suas diferentes luminosidades, com pelo facto de ter sido ficado bastante destruída pelos bombardeamentos aliados em 1944.


 


Rouen catedral 1944.jpg


RouenCathedral_Monet.jpg


Claude Monet


 


No centro histórico as casas têm cores acastanhadas e ocre e traves que se cruzam formando ângulos rectos. Encontrei uma num equilíbrio bastante instável, inclinada para o lado esquerdo, quase como se fosse desabar. Demos uma volta num daqueles pequenos comboios turísticos, aproveitando para descansar um pouco.


IMG_20180616_152134.jpg


A etapa seguinte levou-nos a Dieppe.



There'll Always be an England


Vera Lynn

Jeanne d'Arc

Jeanne_d'Arc.jpg


Jules Lenepveu


 


Sempre tive uma grande curiosidade pela figura de Joana d’Arc. É uma história romântica, quase inacreditável, mais olhada como uma lenda do que como um facto histórico. Uma rapariga humilde, filha de agricultores que, guiada por Deus, se transforma numa guerreira que luta e ganha batalhas pela França, que consegue levar um rei à coroação e que é aprisionada, julgada e morta como herege por um tribunal religioso, sendo queimada viva.


 


Tem tudo para ser inacreditável e espantosa – a ascensão de quem nada pode e nada tem, uma rapariga que se veste de homem para passar segura entre homens, num tempo em que isso era visto como um atentado às leis dos homens e de Deus, a capacidade que tinha de galvanizar as pessoas, de todas as camadas sociais, a sua religiosidade – ouvia vozes de santos e santas – que convencia militares e reis (ou aspirantes a reis).


 


Por isso foi com todo o entusiasmo que fui ouvir e ver a história de Joana d’Arc, em Rouen. A história é contada com recurso a uma recriação do julgamento póstumo, 25 anos após a sua morte, que a inocentou dos crimes de que foi acusada e que levaram à sua condenação a morrer queimada. De facto interessante, mas tão prolongada e tão arrastada que, depois de ter subido uma interminável escada em caracol (íamos passando de sala em sala), decidi que já estava esclarecida.


 


Joana d’Arc foi canonizada já no séc. XX, 5 séculos depois de ter vivido (e morrido). A sua história inspirou muita literatura, filosofia, teatro, poesia e cinema, tendo havido já inúmeros filmes que se debruçaram sobre a sua personagem. Vi um deles, há bastantes anos, protagonizado por Ingrid Bergman, uma das minhas actrizes preferidas.


 


filme ingrid.jpg


É-me muito difícil compreender como foi possível a uma mulher tão jovem e tão simples e, muito provavelmente iletrada, que ouvia vozes, ter tido audiência junto de um pretendente ao trono e dos seus mais directos colaboradores. Mas a verdade é que quando o desespero impera, tudo vale e a fé pode mover montanhas. Ainda hoje é assim, mesmo com toda a ciência e toda a tecnologia existente.


 


igreja santa joana darc.jpeg


Igreja Santa Joana d'Arc - Rouen


 



Joanni


Kate Bush

Um dia como os outros (182)


UmDiaComoOsOutros.jpeg


(...) E assim não nos darmos conta de esta ser também uma tragédia nossa. A de termos media que desde 2003 se especializaram nas acusações sem provas, coadjuvados por um cada vez maior grupo de comentadores para quem o Estado de Direito é uma maçada, uma desnecessidade até. A de termos um ministério público que continua a ostentar em alguns casos interpretações romanceadas, canalhas, voyeuristas e preconceituosas de "provas" e chegou agora ao ponto de permitir -- se nada faz para impedir nem punir, permite -- a exibição televisiva de vídeos de interrogatórios. A de termos uma justiça na qual algo como o que fizeram a Paulo Pedroso sucede e que não é capaz de o reparar, de tornar claro que é inadmissível, que tem de haver consequências e que, sobretudo, não pode mais acontecer. O que, claro, quer dizer que não temos justiça. Mas, está visto, não nos faz falta: temos a nossa opinião. Como aquela pessoa que em 2003 me disse: "Já viste que ele não tem barba? Tem mesmo cara de pedófilo."


 


Fernanda Câncio


17 junho 2018

De Bayeux a Utah Beach

Antes de chegarmos a Utah Beach passámos por Sainte-Mère-Église, uma das primeiras vilas a ser libertada no dia D, célebre pelo facto de um para-quedista americano – John Steele - ter ficado pendurado na igreja na noite de 5 para 6 de Junho de 1944. A igreja tem um pequeno largo, rodeado de cafés com mau aspecto, descuidados, tal como quem atende que, para além do descuido também é mal-encarado.


 


ste mere eglise.jpg


A verdade é que já sabia um pouco desta história, tal como da operação Overlord, pois estive a ler um livro de Cornelius Ryan, O Dia Mais Longo, que conta mais de 10 anos de investigação histórica e de entrevistas aos protagonistas da invasão da Normandia. Desde os planos, aos desaires dos parquedistas, à resistência alemã predominantemente na Omaha Beach, está tudo lá, lendo-se quase como um romance. Não admira que tenha sido posteriormente adaptado ao cinema, resultando um filme com o mesmo nome.


 


Depois alcançámos Utah Beach. Não sei o que esperava encontrar. Uma praia enorme, de onde se podem adivinhar as restantes praias, quase sem ninguém, encimada por uma escultura alusiva ao desembarque. A sensação de que, tantos anos depois, é como se tudo o que sabemos ter acontecido parecer uma invenção de alguém com uma imaginação doentia, ao observarmos a paz e a tranquilidade que reina, o mar, o vento, o silêncio, ao contrário do ruído ensurdecedor das explosões e dos tiros, dos gritos dos homens, da morte e do sofrimento.


 


IMG_20180615_171947.jpg


Aqui começa a Via da Liberdade, com o marco 00, que termina em Bastogne.


 


via liberdade.jpg


O museu, para além de várias salas dedicadas ao desembarque americano, tinha também uma sala dedicada aos prisioneiros alemães, submetidos a uma espécie de reeducação. O local onde estiveram aprisionados, as actividades que faziam, o envolvimento com as comunidades. Apercebi-me, inclusivamente, que muitos voltaram a França e cá ficaram a viver. Infelizmente os exemplos de maus tratos aos prisioneiros de guerra não são apanágio apenas dos alemães, pois todos os cometeram – americanos, ingleses, japoneses, soviéticos, etc.


 


A ocupação da França pelos alemães durou 4 anos. Durante todo esse tempo as populações, melhor ou pior, mais ou menos revoltadas, mais ou menos resistentes, tiveram que se adaptar a uma nova vida. Muitos conviveram com as tropas alemãs, compostas por gente tão solitária e saudosa da sua terra e da sua família, gente que se misturou com os locais. Grandes dramas se passaram após a libertação, quando se caçaram os colaboracionistas, uns verdadeiros traidores, outros que apenas continuaram a sua vida o melhor que puderam; julgamentos sumários e humilhações públicas. Verdadeiros dramas para todos.


 


E decidimos regressar a Caen sem passar pelas outras praias, com os olhos inundados das imagens do desembarque na Normandia. Com a gratidão de quem, como eu, deve a todos os que lutaram a sociedade em que agora vivemos - a cooperação entre todos os países da Europa em paz e liberdade.


 


 


IMG_20180615_171958.jpg


 



Marlene Dietrich


Lili Marlene

Bayeux

Bayeux é uma cidade no departamento de Calvados, na Normandia, célebre pela sua tapeçaria. É uma cidade muito bonita e tivemos sorte com o tempo, que não estava frio nem demasiado quente. Depois de estacionar o carro, demos logo com a Boutique Coquelicot, engalanada por papoilas. Desde que soube que as papoilas se transformaram num símbolo da I Guerra Mundial, parece-me vê-las por todo o lado, despontando em qualquer campo por onde passo, assinalando a esperança e o renascimento. Fiquei imediatamente conquistada.


 


IMG_20180615_102350.jpg


Iniciámos a visita dos 3 museus pelo da Tapeçaria de Bayeux. Fiquei verdadeiramente abismada. Ao contrário do que esperava, a tapeçaria de Bayeux (uma peça de linho bordada a lã) tem 70 metros de comprimento e 50 cm de altura! Conta a história, como se fosse uma banda desenhada, da conquista do trono de Inglaterra a Haroldo por Guilherme o Conquistador, nomeadamente a batalha de Hastings (em 1066). Esta tapeçaria foi encomendada por Odo, Bispo de Bayeux e meio-irmão de Guilherme, e provavelmente confeccionada numa oficina de bordadoras profissionais. Pudemos contar com uma espécie de telemóvel, em português, para a explicação da história, cena por cena. A tapeçaria era exposta regularmente para a população a ver, tendo sofrido várias andanças e bolandas, nomeadamente durante a II Guerra Mundial, em que escapou a ser rapinada pelos alemães, como tantas outras obras de arte. De facto, extraordinária!


 


Normans_Bayeux.jpg


Fiquei a saber ainda que a dentelle de Bayeux é uma espécie de renda de bilros, típica desta cidade.


 


dentelle bayeux.jpg


A seguir decidimos visitar o Museu Memorial da Baralha da Normandia. Como a cidade é pequena pensámos que os museus eram todos no centro, mas foi um loooongo engano, pois andámos quilómetros até lá chegar. Percorremos as salas do museu, onde se conta com pormenor o desembarque nas praias da Normandia, no dia 6 de Junho de 1944, o que aconteceu em cada uma delas – as americanas com os nomes de código Utah Beach e Omaha Beach (onde houve maiores baixas no desembarque); as inglesas com os nomes de código JunoGoldSword – e a resistência alemã, naqueles dias e nos meses posteriores, que levou a que apenas a 19 de Agosto os Aliados chegassem a Paris. Cá fora, um pouco afastado, o cemitério militar Britânico com campos cheios de lápides de militares mortos durante a II Guerra. Em cada lápide o nome, a idade e a força a que pertencia o morto. Quando não se chegou a uma identificação, a lápide tem as inscrições um soldado, ou um marinheiro, morto na II Guerra Mundial. E são bastantes.


 


IMG_20180615_144106.jpg


IMG_20180615_144159.jpg


Não saímos de Bayeux sem comprarmos Calvados – uma aguardente de cidra ou pêra, e Pineau de Charentes, um aperitivo que tínhamos descoberto o ano passado mas sem o encontrar em lado nenhum.


 


Já um pouco moídos, dirigimo-nos a Utah Beach.


 



Germaine Sablon


Le Chant des Partisans

16 junho 2018

De Chartres a Caen

A cada um a sua peregrinação. Uma das minhas é a visita aos locais emblemáticos da II Guerra Mundial, tentando compreender porque aconteceu, o que se passou, como conseguiu o mundo vencer a ditadura criminosa de Hitler, o que se passou depois. Este ano a ideia era visitarmos os locais do desembarque das forças aliadas na Normandia – operação Overlord.


 


De Chartres a Caen, com uma chuva miudinha e um céu que não prometia nada de bom, o próprio gps estava em modo disfuncional, pelo que pedimos ajuda a um polícia. Este, depois de nos obrigar a repetir com ele Cãã, e de ele repetir de novo Cãã, e não Caen como nós pronunciávamos, apontou-nos um caminho muito rápido e fácil. Mas não era o correcto.


 


Dedicámos a tarde à visita ao Memorial de Caen, onde passámos cerca de 2 horas a visitar a exposição permanente, que se inicia com a explicação da ascensão das ditaduras após a I Guerra Mundial, a tomada de poder por Mussolini, Hitler e Estaline, a expansão alemã, as anexações meteóricas pela Alemanha dos países vizinhos, o pacto germano-soviético, as tentativas de paz de Chamberlain e, inexoravelmente, a guerra, após a invasão da Polónia. Todos os aspectos são tocados, também com recurso a filmes e documentários. Muito interessante e muito educativo.


 


Extraordinário ver fotografias de Caen na altura do desembarque. Ficou completamnete destruída, como muitas outras cidades por toda a Europa. Esta destruição foi essencialmente feita pelos bombardeamentos aéreos dos Aliados, para destruirem tudo o que os Alemães poderiam usar como meios de comunicação. E no entanto, agora nada se percebe. Estes anos que passaram acabaram também por apagar da memória das populações os horrores da guerra.


caen 1944.jpg


O jantar foi perto do hotel, num restaurante que se chama Hyppopotamus. E, de facto, acredito que após algumas refeições lá, todos nos transformemos em hipopótamos. Pedimos uma tábua com queijos, presunto, paté, isto só para começar e para partilhar, o que valia quase pelo jantar inteiro. Tudo muito bom, complementado pela simpatia do rapaz que nos atendeu, que repetia hop e hopa com uma frequência alucinante.


 


Reservámos o dia seguinte a Bayeux e às praias do desembarque na Normandia.


De Paris a Chartres

Não, desta vez não me esqueci da carta de condução, estivemos às voltas no aeroporto à procura da empresa de aluguer de carros, a rapariga que nos atendeu tinha uma pronúncia cerrada mas lá conseguimos sair, sãos e salvos, em direcção a Chartres.


 chartres_cathedral.jpg


Antes de entrar na cidade, pequena e um pouco escura, a catedral impõe-se, imponente, dominadora, avassaladora. Os vitrais são lindíssimos, embora não tenhamos tido a sorte os ver com a luz de um dia de sol. Mas valeu a pena. À volta da catedral há inúmeras galerias com obras em vidro e verdadeiros vitrais. Pululam os turistas, como nós. Há ainda um pequeno largo de onde se tem uma vista fantástica sobre a cidade.


Cathedral-chartres stained-glass-window.jpeg


Durante a viagem sintonizámos uma rádio local (jazz) que passava, entre outras, In the Mood, de Glenn Miller. Estranhamente apropriado ao tema desta viagem.


Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...