16 abril 2015

Da exaustão como arma política

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Erwin Jules de Vries


 


Há muitas formas de alienação, umas privadas e auto sustentadas, outras públicas e utilizadas como arma política. Muitas vezes ambas se confundem e se alimentam. A religião e o futebol são as mais conhecidas e citadas. Mas uma das mais eficazes é o trabalho insano, os horários desumanos e a exaustão completa dos poucos cidadãos que conseguem trabalho e, por isso, deixam de reivindicar qualquer capacidade de protesto.


 


A falta de tempo e de disposição mental para pensar, para ter outra vida que não a que lhe é exigida pelas empresas, individuais ou colectivas, amesquinha, aplana e apaga a criatividade, a vontade e a auto estima, deixando apenas o instinto de sobrevivência e a intolerância absoluta por qualquer movimento que estimule e contenha dinamismo que, por sua vez, aumenta a exaustão.


 


Não tenhamos dúvidas – a concepção do trabalho e das relações laborais desta maioria que nos governa, em Portugal e na Europa, é aquela que reduz a capacidade crítica e que aumenta a subserviência dos cidadãos. É toda uma ideologia subjacente à retórica da economia e do moralismo bacoco, ultrapassado e obsceno que nos inunda.

04 abril 2015

Das referências

A diferença entre o despojamento, a generosidade e a integridade de Ramalho Eanes e os de outros candidatos, é que o primeiro não precisou de se adjectivar nem de proclamar os seus créditos de honestidade e seriedade, as suas qualidades de servidor público e amante da Pátria - isso foi a imagem com que o País ficou dele pela sua atitude a pela sua forma de fazer política.


 


A ambição em ser Presidente da República é legítima e pode ser a de qualquer um de nós que se sinta capaz e com vontade de exercer o cargo. A menção de Ramalho Eanes, porque é uma referência em Portugal, tem o perigo de ser interpretado como uma manobra de marketing algo desastrada e, parece-me, sem qualquer efeito nos cidadãos. Além disso, Eanes foi Presidente numa altura específica e especial, como esta agora também especial e específica é, não valendo a pena forçarem-se paralelos para empolgar os incréus.


 


A moralidade e a idoneidade fazem (ou não) parte de cada um e é com as suas características que cada candidato deve apresentar-se ao eleitorado, não com aquelas que pensa que serão mais aceitáveis. O carisma tem-se, não se pede emprestado.


 


Independentemente de não me rever nas candidaturas de Henrique Neto e de Sampaio da Nóvoa, ambos merecem o nosso respeito por terem clarificado as suas intenções e por se disponibilizarem para a corrida à Presidência. A democracia faz-se exactamente com alternativas e com coragem política. Aguardemos que outras personalidades sintam também esse apelo de cidadania, seja qual for o seu espaço político. É mais que tempo de se delinerarem as propostas para o novo ciclo político. Quanto mais cedo, melhor.

03 abril 2015

Raízes


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 Mary Ellen


1.


O nosso amor é terreno


sobrevive aos desarrumos aos enxovalhos


ao desaprumo às curvas da desilusão.


 


O nosso amor é sereno


carente de afagos de encostos


adormecidos nas almofadas da paixão.


 


O nosso amor é divino


confortável e demente destino


de raízes permanentes em contradição.


 


 


2.


A cor breve da manhã uma melodia


sem sentido um toque sem aviso


um olhar cheio de rosas o abismo


de uma página em espera a melancolia


da terra sedenta tudo me sabe a sal.


 


Como as indizíveis horas


em que calo


o amor que te tenho


e me embala.

Manoel de Oliveira

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 Manoel de Oliveira


 


Correndo o risco de ser proscrita pelos amantes do cinema, nunca fui apreciadora da obra de Manoel de Oliveira. Com excepção do iniciático Aniki Bóbó, os poucos que tentei ver, posteriormente, foram desilusões tremendas e afastaram-me dos seus filmes. Lembro-me de, num documentário sobre Agustina Bessa Luís ter percebido que ela discutia sempre com Manoel de Oliveira a propósito das adaptações que fazia dos seus livros, o que me fez solidarizar-me de imediato com ela.


 


Mas Manoel de Oliveira é reconhecido mundialmente pelos seus pares, tem uma obra centenária, que atravessa os séculos XX e XXI e a própria hstória do cinema, viveu muito e produziu muito, foi admirado por realizadores e actores com quem trabalhou, levou o nome de Portugal pelos vários festivais de cinema por esse mundo fora. São-lhe por isso devidas as homenagens que se devem às grandes figuras da cultura (portuguesa).

Do próximo Presidente da República (4)

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 António Sampaio da Nóvoa


 


Citando Eduardo Pitta, a Esquerda prepara-se com afinco para perder as Presidenciais de 2016.


 


Não estão em causa as qualidades de Sampaio da Nóvoa mas sim a capacidade de envolver e motivar à participação cívica nas eleições, para empolgar e fazer renascer a esperança dos cidadãos, para conseguir retirar a cada um de nós o melhor que temos para dar, enquanto membros de uma sociedade que está exausta e deslaçada.


 


Se for esta a candidatura do PS, considero-a um erro que terá proporções de arrastamento para uma escassa vitória nas legislativas, como já defendi, e reduzirá, em vez de aumentar, o espaço político necessário a uma maioria absoluta.


 


Não é aos partidos que compete a escolha de um candidato presidencial mas nenhum candidato com ambições de vitória avançará sem a certeza de um apoio partidário. Sampaio da Nóvoa, se aparecer rodeado por Mário Soares, como vem noticiado, reduz muitíssimo a margem para o aparecimento de outro candidato que possa englobar o PS e uma multidão de pessoas que votaram nas primárias e esperam que António Costa apresente a estratégia ganhadora para as legislativas e para as Presidenciais. Infelizmente, quanto mais tempo passa mais longínqua me parece essa possibilidade.


 


O PS precisa de realismo e coragem, não se socorrendo das bandeiras da intelectualidade para se afirmar de esquerda. Nada disso arrebata nos dias de hoje, pois tudo é feito de forma massificada e histriónica, com pouca substância e muita forma repetitiva e massacrante, o que cansa de imediato porque não significa nada.


 


Reafirmar valores e enfrentar o politicamente correcto é essencial para desmontar o totalitarismo emergente dos big brothers fiscais, da mediocridade reinante, das listas de pedófilos e de contribuintes VIPs, das causas fracturantes e dos comentadores econométricos, da notável falta de rigor e honestidade intelectual, da devassa da privacidade e atropelo aos direitos, liberdades e garantias em nome do moralismo abjecto e incapacitante.


 


É urgente que apareçam candidatos que tenham credibilidade, que tenham carisma, à esquerda, à direita, ao centro, em qualquer localização espacial. Estamos todos sedentos de gente séria, de gente da política, de gente que tenha vergonha e que não nos envergonhe.

27 março 2015

Um dia como os outros (154)

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Preservar a privacidade das pessoas é um objetivo estimável. Devia ser aliás preocupação de toda a gente - afinal, é um valor fundamental, consignado em todas as constituições de Estados modernos democráticos. Daí que, à partida, não veja nada de escandaloso na criação de um sistema que vise acautelar a consulta indevida, por parte de funcionários da administração, de dados fiscais - e mesmo, admito, num sistema que detetando um universo de contribuintes que atraiam mais a "curiosidade" vise apertar a malha no que respeita à devassa das suas declarações contributivas e respetiva utilização indevida.


 


Não é democrático e há até quem avente crime numa lista desse tipo? Não sei que crime pode estar em causa, mas, se vejo todas as privacidades igualmente dignas de recato, sei que não são todas atacadas por igual, o que poderá, em teoria, justificar medidas específicas. O problema será sempre a prática: quem, com que critérios e fito, definiria o universo dos contribuintes com proteção reforçada? E quem tem legitimidade para aprovar tal definição? E aí, já se percebeu, tudo nesta estória está errado. Não só a lista terá sido pensada na sequência de revelações sobre o historial contributivo do PM como ninguém quer assumir a sua existência, paternidade, responsabilidade e critério, o que nunca é um bom sinal.


 


Ontem, não só vimos a revista Visão comprovar documentalmente a existência da dita lista como foi difundida a informação de que esta conteria apenas quatro nomes (o do PM, do PR e do vice-PM, mais o do secretário de Estado da Administração Fiscal). A ser assim - difícil crer, apesar de tudo -, a lista não seria uma medida de preservação de privacidade de pessoas avaliadas como sendo de alto risco de "ataque", aceitável embora discutível, mas uma clara instrumentalização da administração pública por parte de interesses privados. Os interesses das personalidades em questão e das forças e setores políticos que representam, assim protegidos por uma aplicação informática especialmente criada para o efeito pelo Estado - e em ano eleitoral.


 


O mesmo ano eleitoral em que assistimos diariamente à "revelação", nos media, de alegadas peças processuais e informações apresentadas como estando em segredo de justiça, incluindo matérias do foro privado (e até político) sem que no governo uma sobrancelha se levante, quanto mais se proponham medidas, por exemplo de alerta informático?, para o evitar. O mesmo ano em que o governo propõe uma outra lista - a de abusadores sexuais com pena cumprida, obrigados a viver em perpétua exposição e infâmia - alegando para tal dados falsos sobre reincidência. Proteger a privacidade (intocabilidade) de uns, atacar e anular as de outros, usando o aparelho de Estado, a insídia e a demonização como meio para os dois fins: o método tem barbas e bastos exemplos históricos. Dá ideia é que há muita gente sem memória. Ou distraída.


 


Fernanda Câncio

24 março 2015

Aos amigos

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 Herberto Helder


 


Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.


Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,


com os livros atrás a arder para toda a eternidade.


Não os chamo, e eles voltam-se profundamente


dentro do fogo.


— Temos um talento doloroso e obscuro.


Construímos um lugar de silêncio.


De paixão.


 



Vitorino & Pedro Caldeira Cabral & Janita Salomé

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...