Ao meu lado correm ventos
árvores sentinelas de um templo cíclico
em que as almas e a terra vivem paralelas.
Ao meu lado repousam casas
vazias de olhares sonoros
de mundos finitos que teimam em perdurar.
Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
Ao meu lado correm ventos
árvores sentinelas de um templo cíclico
em que as almas e a terra vivem paralelas.
Ao meu lado repousam casas
vazias de olhares sonoros
de mundos finitos que teimam em perdurar.
Ontem, através do magnífico recital de poesia, tive o privilégio de viajar pelos vários séculos portugueses (desde o XVI) até à contemporaneidade, no Teatro Meridional. Com Natália Luíza, a sua escolha de textos, o seu encadeamento de palavras, a sua voz e a sua interpretação, vi Portugal desfilar, mais especificamente os Portugueses, a crise, a mediocridade, o sonho, a pequena e lampejante esperança, a doçura, o desespero e a Queixa das Almas Jovens Censuradas, o extraordinário poema de outra Natália musicado e cantado por José Mário Branco.
Não vi nenhum dos nossos governantes, nenhuma daquelas personagens que preenchem o espaço mediático, que nos embaraçam precisamente com a sua ignorância, incompetência e banalidade. Ninguém que se olhasse naquele espelho onde todos nos olhámos, confortavelmente embrulhados numa manta que, gentilmente, o Teatro Meridional proporciona à plateia, depois de um átrio acolhedor, com chá e café à discrição e fatias de bolo a 1€, num mealheiro que confia na boa-fé de quem lá está.
Pelo bilhete de 5€, recebemos muito mais que qualquer dinheiro possa pagar - a magia, o estímulo, a emoção, a lição de História, o reencontro connosco, com este Portugal tão dilacerado e, no entanto, tão apelativo. Como nos parece impossível que este país sempre tenha sobrevivido a revoadas e a esta sina fatalista de ciclicamente se destratar, se envergonhar, se dividir, sempre por aqueles em quem confiamos e nos desmerecem, sempre pelas atitudes de resignação enfastiada e triste, d'Esta Gente/ Essa Gente que paga para ser humilhada, que não enterra o dente, embora permanecendo, no fundo da noite da desilusão, num qualquer espaço de alma, esperança.
Passa o tempo e nós vamos reinventando o sofrimento, de várias formas e nas várias modas, com a circularidade do inevitável, ou dos golpes e contragolpes que nos empurram para breves instantes de clarividência.
O Teatro Meridional habituou-me a espectáculos de luxo. Do luxo da qualidade da escolha dos textos representados, do espaço cénico, do jogo de luzes, do enquadramento musical. Habituou-me ao maravilhoso que é perceber quanto a inteligência, a sobriedade e a criatividade podem ser os motores do desenvolvimento, quanto a arte é indispensável a este animal que somos.
À Natália Luíza tenho até pudor de lhe dizer o quanto a admiro, o quanto me orgulho por poder fazer parte do público que a aplaudiu de pé, após um pouco mais de 1 hora em palco, a preto, branco e cinza, em círculos concêntricos do nosso destino marítimo, com essa voz que nos envolve e estimula, nos agride e acarinha.
A toda a equipa do Teatro Meridional os meus parabéns, renovados e embevecidos, por mais um momento de rara beleza. Já só faltam 3 recitais, nos próximos dias 19, 20 e 21 de Março (21:30h) - dêem-se ao luxo de não os perder.
Estou cansada - ainda agora chorei tanto
Outra noite - o terror andou à solta
Vai e volta e promete que não volta
Vai e volta e promete que não volta
Estou cansada - chorei tanto outra vez
Outra vez a pensar que hoje talvez
Haja paz - que o terror só vai não volta
Que a tua mão não se fecha contra mim
Estou cansada - não há fim nesta demência
Ou ciência que preveja que me mates
E quem bate depois chora e promete
Que não mais a mão se levanta fechada
Estou cansada - acho que não quero nada
Que não seja uma noite descansada
Sem ter medo ou chorar na almofada
Sem pensar no amor como uma espada
Tão cansada de remar contra a maré
O amor não é andar a pé na noite escura
Sempre segura que a tortura me espera
Insegura tão desfeita humilhada
Tão cansada de não dar luta à matança
À dança negra que me dizes que é amor
Que não concebes a tua vida sem mim
E que isto assim é normal numa paixão
E eu cansada nem sequer digo que não
Já não consigo que uma palavra te trave
Não tenho nada que não seja só pavor
Talvez o amor me espere noutra estrada
Mas tão cansada não consigo procurá-la
Já tão sem força de tentar não ser escrava
Já sei que hoje fico suspensa outra vez
Outra vez a pensar que hoje talvez…
Pegando no assunto abordado imediatamente abaixo, considero a eleição do próximo Presidente da República um facto determinante para o país, tanto em termos nacionais como internacionais.
Cavaco Silva protagonizou um Presidente da República que usou o cargo para condicionar a política partidária, mesmo negando-o e proclamando o seu contrário, beneficiando a sua família política, dando largas ao seu desprezo pelo resultado das eleições legislativas, nomeadamente as de 2009, tendo um papel central no escândalo das pseudo escutas de Belém, deixando o país suspenso das suas declarações e utilizando os discursos para fazer oposição declarada ao governo anterior, enquanto a sua cumplicidade com este governo e com o total atropelo das normas constitucionais em que o mesmo esteve envolvido, para não falar da subserviência ao poder económico e aos donos disto tudo, reduzindo a sua margem de manobra como escape do sistema.
Associado a este conjunto de erros e de incapacidades políticas, soma-se o papel de transformação da Presidência da República num cargo bicéfalo, dando destaque, na página da Presidência, a Maria Cavaco Silva cujo papel é ser mulher do Presidente - lugar que não consta na Constituição da República Portuguesa, nada tendo a ver com o respeito que merece qualquer esposa de qualquer titular de órgão público.
Por isso, e perante a aparente modorra desta pré campanha para as presidenciais, em que os candidatos vão dizendo que sim ou que não, fazendo de conta que estão ou que não estão, num impasse que nunca mais acaba, o PS, caso António Guterres não queira mesmo ser candidato, não parece ter alternativas credíveis ou um candidato que possa mobilizar o país e fazer esquecer os últimos 10 anos de Presidência da República. É difícil aceitar que o leque de escolhas esteja entre António Vitorino, Maria de Belém Roseira, Sampaio da Nóvoa, Marinho e Pinto, Santana Lopes, Manuela Ferreira Leite e Marcelo Rebelo de Sousa. E acho totalmente descabida a hipótese de qualquer dos anteriores Presidentes se recandidatar.
Guilherme d'Oliveira Martins poderia ser um excelente candidato presidencial. É um homem culto, honrado, sério, sensato, que sempre deu provas de estar disponível para o serviço público. Tem experiência política - deputado e membro de mais de um governo - e ocupa uma posição mais ou menos central no espectro político. Não tem medo de ser impopular e sabe o valor da Língua Portuguesa, da Economia, do rigor, do combate à mediocridade e ao facilitismo, da solidariedade e da importância da tolerância e da preservação dos laços sociais e do bem comum, da igualdade e do acesso ao conhecimento.
Penso que seria um excelente Presidente, capaz de congregar uma vontade mobilizadora que nos fizesse ter alguma esperança numa representação de cidadania digna e merecedora de todo o respeito, interno e externo.
Nota: Pedro Correia já tinha falado nesta hipótese, no seu bolgue, nomês passado.
O nosso Excelentíssimo Presidente, do alto da sua eminência silenciosa, apenas oraculando de quando em vez aos cidadãos sedentos das suas pérolas de sabedoria e presciência, resolveu desenhar o perfil de quem acha digno de lhe suceder como Mais Alto Magistrado da Nação (embora sempre mais baixo do que Sua Presidência, claro).
Pois parece-me que todos nos deveremos pronunciar, principalmente nas urnas, sobre quem deverá ser o próximo Presidente da República. E peço que me perdoe, Excelentíssimo Sr. Presidente, mas a minha opinião é assustadoramente simples e directa - deverá ser o seu contrário total e absoluto, desde o rictus acidus e amarus, de quem se sente incomodado pela persistente atmosfera de decomposição, à sua inigualável honestidade (e moralidade) pois, como temos obrigação de reconhecer (e de nos curvarmos perante esse reconhecimento), ninguém ainda conseguiu nascer duas vezes.
Portanto, com a oportunidade a que já nos habituou, estamos perante um importantíssimo contributo para a clarificação deste clima malção e infecto - procurar alguém que faça o exacto contrário daquilo que Sua Excelência tão relevantemente corporizou.
Através do Observador, são divulgadas medidas propostas por António Costa como o primeiro capítulo do programa de governo. Pois ainda bem. E que tal começarmos a ler e a discutir estas propostas?
Confesso que estou com vontade de ler os próximos capítulos - venham eles.
Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...