01 março 2015

A verdade dos Prémios Literários: O Poder das Narrativas e/ou As Narrativas do Poder

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 Muitíssimo interessante esta mesa, com protagonistas que falaram das razões do aparecimento dos prémios literários, das razões pelas quais os escritores concorrem, aceitam e rejeitam os prémios, dos vários tipos de poder associados aos prémios, das discriminações positivas e negativas, das igualdades e desigualdades de género.


 


Isabel Pires de Lima, Germano de Almeida, Ana Paula Tavares, Ana Luísa Amaral, Inês Pedrosa e Manuel Jorge Marmelo, cada um por razões diferentes, acabaram por considerar que a existência de prémios literários é importante para os escritores. Isabel Pires de Lima foi de opinião de que a proliferação dos concursos literários tem por base a tentativa de suster o desprestígio da literatura e dos escritores, distinguindo-os e transformando-os em exemplos de uma elite.


 


Mais uma vez a sala estava completamente cheia mostrando que a literatura tem pelo menos o poder de comunicar e abrir a mente a novas realidades e a velhos e renovados sonhos.

Do arrojo das ideias

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Assembleia Constituinte (1975)


 


Nada há de mais apelativo que ter a noção de que há verdadeiras alternativas a esta direita que nos governa. Na Europa também, sim, mas principalmente aqui, em Portugal. Comecemos por nós.


 


O que mais falta faz é o arrojo das ideias, proclamando-as aos quatro ventos, sem ter medo do politicamente correcto ou daquilo que os mercados, os juros, os demagogos, os oportunistas, aqueles que pegam em palavras ou frases isoladas, mais ou menos infelizes, para disso fazerem um caso político, tão irrevogável como a palavra de Paulo Portas.


 


E nada pode ficar por discutir - tudo se pode questionar e recomeçar. Quando me dizem que sou soberanista, se isso significa não abdicar da soberania de Portugal querendo, no entanto, permanecer numa Europa que trata todos os países por igual, e se esta posição é conservadora, pois serei soberanista e conservadora. Portugal é um país de corpo inteiro que terá que ter a sua voz com o mesmo peso das vozes dos outros países. Antes de ser europeia sou portuguesa e não vejo nenhuma contradição entre a minha vontade de aprofundamento de uma união entre países europeus, com uma política comum em determinadas áreas, desde que seja essa a vontade dos cidadãos dos países membros.


 


Fui a favor do referendo ao Tratado de Lisboa, sou a favor de se construir uma nova Constituição Portuguesa. Não podemos ignorar que passaram 40 anos e que nestes 40 anos mudaram o mundo e a sociedade. Não vejo nenhum problema em colocar-se a hipótese de eleger uma Assembleia Constituinte. Dizem-me que isso é, em si mesmo, anticonstitucional. Pois haverá com certeza uma solução sem que tenhamos que passar por uma revolução ou por um golpe de estado. Quando tanto se apela ao consenso parece-me que este é um assunto que o deveria merecer, por parte das forças políticas, Instituições e sociedade - a próxima Assembleia teria um mandato para elaborar uma nova Constituição, aproveitando-se a campanha para que os seus conteúdos fossem discutidos. 


 


Todos os que agora justificam as impossibilidades ou as insuficiências do sistema político teriam uma oportunidade para alterarem o que quisessem, com a legitimidade de um mandato popular - uma nova carta de direitos, liberdades e garantias, a redefinição dos poderes presidencial, executivo, legislativo e judicial; as leis eleitorais, as funções do Estado - quais e como são asseguradas - a reorganização administrativa do território, a regionalização, a legislação laboral, enfim, tudo o que serve de desculpa e de razão para avançar ou impedir as opções políticas dos governos eleitos.


 


E que tal o PS avançar com essa ideia? Ou com outras que nos digam como pensa renovar e nutrir as raízes da nossa vivência colectiva - trabalho, segurança social, saúde, educação, justiça - à luz dos novos tempos da internet e do teletrabalho, das novas escravaturas e desigualdades, dos novos extremismos e das novas demografias.


 


Tanto que há para discutir e analisar, tanto que poderia mobilizar e dar alento. E que tal António Costa, para além da agenda para a década, dizer-nos qual a agenda para os próximos meses - discutir ideias, propor novas soluções - e despreocupar-se com as escaramuças para onde o tentam (e conseguem) arrastar, gastando palavras e energia com insignificâncias e insignificantes?

28 fevereiro 2015

A Literatura é um poço de liberdades

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As palavras fazem parte da liberdade, palavras duras ou meigas, palavras de luta e de amor, de intimidade e de exposição, de drama e de comédia, silenciosas ou em vulcão, as palavras são dedos abraços ou pedras, rasgam e saram feridas, mais perigosas que veneno, ou santificadas como bálsamo divino.


 


A liberdade individual e colectiva, a liberdade como fuga de temas políticos, como se a política fosse peste peganhenta que conspurcasse os mais elevados pensamentos filosóficos, a liberdade como afirmação da identidade e da diferença, a liberdade como uso do poder e definição de opções, fora da mediocridade e da mediania cinzenta de uma só dimensão da cidadania.


 


Usam-se todos os tipos de liberdade, até a liberdade de quem não é livre a não ser dentro de si próprio, de quem a si se censura para poder estar.


 


Leonardo Padura, Manuel Rui e Martinho da Vila, à conversa com José Carlos Vasconcelos, onde se falou do conceito da falta de liberdade pela ausência de escolhas, ou porque não existem pela imposição de uma verdade, ou porque existem mas são inatingíveis.


 


...que a vida vai melhorar...


Reviver o passado em Brideshead

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O distanciamento temporal em relação aos acontecimentos garante uma certa aproximação ao que de facto aconteceu. O espaço de uma vida é pouco e aquilo que se passou desde que nascemos parece-nos muito mais actual do que na realidade o é.


 


Quando olhamos para as mudanças sociológicas que se observaram durante todo o século XX, parece-nos impossível igualar as revoluções e as notáveis alterações que partiram o século grosseiramente em três partes: antes da I Grande Guerra, entre a I e a II Guerras Mundiais e o pós-guerra, se ignorarmos o fim da guerra fria e a extraordinária descoberta das novas tecnologias de informação, que já entram pelo século XXI.


 


Reviver o passado em Brideshead é uma série televisiva que se baseia no romance homónimo de Evelyn Waugh (Brideshead Revisited, The Sacred & Profane Memories of Captain Charles Ryder), escritor britânico que atravessou grande parte dos tumultos a que me refiro. A história que conta é passada precisamente no período entre as duas Grandes Guerras, uma recordação melancólica do fim de uma determinada época.


 


O estilo de vida das elites inglesas, umas relacionadas com a aristocracia decadente, outras representando o novo poder económico, sem passado mas com futuro, as bolhas aparentemente algodonosas em que existiam os pobres meninos ricos, Oxford, o ócio, a intelectualidade e a boémia da vida estudantil dos poucos afortunados que a ela podiam ascender, os problemas religiosos num mundo em constante mutação, os costumes, o amor nas suas várias facetas – homossexual, heterossexual, sufocante e manipulador, delicado e superprotector, a estratificação social. A própria recordação, como se fosse um encantamento anterior aos duros tempos da Guerra, encarnado pela personagem de Charles Ryder (talvez até um pouco autobiográfico), que já no fim da mesma regressa mentalmente ao conforto e às inquietações da juventude.


 


O livro é excelente e a série cola-se-lhe como uma segunda pele. Não me lembro de a ter visto quando por cá passou, já há vários anos. Ou se, pura e simplesmente, não tinha idade, estofo ou profundidade para gostar dela. Mas para quem tenha oportunidade não perca o livro e, depois, a série. Não me posso pronunciar sobre o filme de 2008 porque não o vi. Mas confesso custar-me a entender como se condensa o livro em duas horas. Uma das razões pelas quais me deleito com as séries inglesas é o seu ritmo, o seu rigor e a sua espantosa veracidade.


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Nha morninha


Pierre Aderne & Sara Tavares


 


Ao lembrar de você
E tentar não sonhar
O sonho não atende
Não me entende a falar


 


Ao lembrar de você


E tentar acordar
O sonho me prende
E me ensina a esperar
O sonho me acende
Pra eu poder te guiar

Ao lembrar de você
A tentar me esquecer
Com seus olhos abertos
Pra esse sonho não ver

Ao lembrar de você
Quantas vezes duvido
Se no meio da noite
Não lhe acordo o vestido
Pra dançar essa morna
Que eu havia perdido

Oi! Oi! Vem…

Serenata na boca de coração
É cadencia di morna mansinho
Ta sussurra baixinho
Té tchiga perto
Cola nha ouvido
Um sabor perfumado

Ao lembrar de você
Quantas vezes duvido
Se no meio da noite
Não lhe acordo o vestido
Pra dançar essa morna
Que eu havia perdido

Quem tem medo da cultura?

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E deixei-me levar nesta Corrente que há tantos anos me chamava, me arrulhava como ruído de cascata e de mergulho.


 


Quem tem medo da cultura? - perguntou Guilherme d'Oliveira Martins ao auditório do Cine-Teatro Garrett, totalmente repleto. Lá de cima do galinheiro, completamente colada às costas da cadeira tal a vertigem das alturas, olhei para a figura de contornos pouco precisos e permiti que as palavras ecoassem e me relaxassem da minha fobia.


 


"É quem tem medo da economia" - respondeu o próprio orador. E discorreu sobre a sociedade do saber e do rigor, das avaliações e das igualdades, do desenvolvimento e do conhecimento, das humanidades e das ciências, das diferenças e da tolerância, da educação e da língua, da mais extraordinária língua do mundo, citando Luísa Dacosta entre muitos outros - a única língua que é capaz de incluir o tu no eu - amar-te-ei.


 


Guilherme d'Oliveira Martins é um homem de cultura e da cultura, enquanto entendermos a palavra cultura com a amálgama de uma comunidade, naquilo que a faz amálgama e naquilo que a transforma em comunidade - o outro como a outra metade de nós, o civismo, o serviço público, o uso do conhecimento, do património como alavanca para o futuro, sustentável em direitos humanos e em termos materiais. Mais uma citação de Luísa Dacosta, muito presente nestas Correntes d'Escrita - a língua portuguesa é das únicas, se não mesmo a única em que existem os verbos estar e ser - "amar e ser amada, na passagem do estar ao ser".


 


Alertou para os perigos do facilitismo, da mediocridade e do imediatismo, essa moda da modernidade apressada e superficial que se atém às frases-feitas e aos pensamentos fast thought. E conclui:


 


"(...) eis porque devemos dar à sociedade civil um papel mais ativo nos valores, se soubermos contrapor uma ética de cidadania, aliada à qualidade na educação, formação, ciência e cultura. A defesa das humanidades tem de corresponder à recusa da facilidade e do novo-riquismo e ao apelo à vontade e à criação. Como poderemos defender a cultura que nos foi legada sem mobilização dos cidadãos e sem democratização do Estado? Medo da cultura é, afinal, medo da liberdade e da democracia”.


 


Encafuada entre a vertigem e a indizível satisfação ao ouvir alguém afirmar tão claramente que devemos caminhar no sentido inverso ao da arenga contabilística e pseudocientífica desta pseudo elite europeia, não consegui ultrapassar a timidez de lhe perguntar como enquadra ele o fenómeno do desaparecimento do emprego como parte integrante da cidadania, da menorização do valor da participação e contributo cívicos através do serviço ao outro com o trabalho, nesta nossa sociedade que se esquece que a integração também se enraíza na sensação e capacidade de ser útil e necessário ao bem comum.


 


É tão bom sentir que alguém nos acorda. Era tão importante que acordássemos.

Dos detritos aproveitados pela ausência de excedentes

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Caius Detritus


 


É claro que o espalhafato que se está a fazer em relação às declarações de António Costa, numa cerimónia que, de outra forma, não teria tido provavelmente mais que umas linhas de fundo de página num jornal, não tem a ver especificamente com o que António Costa disse mas com o que António Costa (e o PS) não diz e deveria dizer.


 


A falta de iniciativa política, sejam quais forem os motivos, faz com que os pormenores mas disparatados sirvam para desviar as atenções do inexcedível desgoverno desta direita que nos governa (António Costa elogiou os chineses e a sua capacidade de permanecer num país em grande depressão económica; a diferença foi interpretada por Nuno Melo como para melhor, porque convém ao Nuno Melo que assim seja). Estamos todos à espera das ideias do PS e de António Costa, sobre os mais diversos assuntos e, como político que é, António Costa deve saber que a melhor atitude é ser ele próprio a lançar uma agenda de discussão. Por muito que se compreendam as cautelas e o sentido de Estado, que até são de elogiar, pois promessas miríficas e futuros risonhos já todos conhecemos, o PS e António Costa estão a perder o timing e estão a deixar o palco para os Caius Detritus que se multiplicam e aguardam ao canto de cada sala, escrevinhando palavras separadas ou não do contexto para chicana.


 


António Costa não tem que se queixar - por muito más que sejam, ele sabe que são estas as regras de um jogo muito viciado e muito sujo. A alternativa é ser ele a marcar a discussão com as ideias que vai lançando, sem esperar complacência da parte de uma comunicação social inculta e trivial, para quem as discussões semânticas são muito mais importantes que os conteúdos. E por isso tem que avançar, explicar, perguntar, não usando sms a tentar minimizar males interpretativos, mas a usar a tribuna de todas as maneiras que puder e souber com as suas propostas, o seu rigor, a sua exigência e a sua clareza - em todas as áreas. E não faz mal nenhum se elogiar algumas medidas do governo - rezemos para que, em 4 anos, alguma medida tenha sido positiva - mas para o dizer exactamente nesse sentido e nessa medida, com o tal sentido de Estado de que se apruma, e bem.


 


Enquanto o PS não impuser a sua agenda política continuaremos em banho Maria e a perder esperança, a perder eleitores, a perder o sentido da democracia. Que não se desculpe e não se justifique, que nos interpele e nos enfrente, que nos entusiasme e nos faça pensar.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...