01 dezembro 2014

Cante de Natal

cante alentejano BONECOS.jpg


Oh meu menino de oiro


minha alminha tão nobre


quem te deu como tesoiro


uma vida que é de pobre.


 


Oh meu perfeito menino


que és tão puro e natural


quem te deu como destino


lavar o mundo do mal.


 


Oh meu menino Jesus


que nasces todos os anos


que carregas uma cruz


de tristezas e enganos


 


Oh meu menino querido


não te afastes de nós


neste tempo desabrido


em que nos sentimos sós.


 


Oh meu menino tisnado


que secas o nosso pranto


a dormir tão descansado


no embalo deste canto.


 


Oh meu menino de trigo


seara da minha vida


que possas sentir abrigo


nesta voz enternecida.


 


Oh meu menino moreno


que sofres com meu penar


que possas ser o sereno


da noite que me levar.

Dos distanciamentos impossíveis

A honestidade intelectual obriga-me a reconhecer como verdadeiros alguns dos reparos que me fizeram: o não me ter manifestado aquando de outros processos em que os arguidos, tal como aconteceu com Sócrates, foram exibidos e julgados na praça pública.


 


É verdade que, mesmo que o tenha pensado, não o disse com a veemência que mereceriam ou, pior, não o terei mesmo equacionado. E isto diz-me muito sobre a minha própria forma de encarar e de abraçar as causas que considero nobres - tenho pouco distanciamento e muitas vezes actuo orientada por preconceitos.


 


Seria bom que, numa próxima vez em que me colocasse à prova, pudesse ser mais justa e mais imparcial. Mas a liberdade total em que o comprometimento com os outros não existe é, para mim, impossível. Em muitas circunstâncias, os afectos guiam a minha razão.

Dos renascimentos

Apesar do peso da detenção preventiva de Sócrates, António Costa e o PS conseguiram protagonizar um congresso em que se falou do País, em que se fez oposição ao governo e em que se afirmaram as ideias que guiarão as próximas estratégias políticas.


 


António Costa não tem medo de fantasmas - nem de Sócrates, nem do espectro da necessidade dos acordos e compromissos, nem dos profetas do bloco central, nem das carpideiras da esquerda da esquerda mais à esquerda que qualquer esquerda.


 


Da renovação do partido terá que seguir para a renovação da esperança e da confiança. As eleições ainda estão longe e é indispensável que a clarificação do que é governar à esquerda significa. Não me parece que os assuntos enunciados no discurso de encerramento, nomeadamente o problema da integração europeia, se possam resolver. O PS não deve ter tabus em relação a nada, muito menos à importância de se redefinir os moldes de funcionamento desta União cada vez menos democrática e mais distanciada das instituições nacionais.


 


Mas foi com grande satisfação e renovada esperança que ouvi o discurso de encerramento* deste Congresso. Como devem estar tristes os comentadores que já antecipavam um velório em vez de um renascimento.


 


* Não sei porquê, mas este link não funciona no google chrome, mas funciona no internet explorer.

26 novembro 2014

Das presunções

A forma como, nos últimos tempos, a nossa justiça tem funcionado, é exactamente ao contrário do que se apregoa: é-se inocente até se provar a culpa. O que se tem passado, com as fugas de informação cirurgicamente escolhidas, com os procedimentos que se não cumprem, com o desprezo pelo direito das pessoas à dignidade e ao bom nome, é o oposto - são os cidadãos que têm que provar a sua inocência.


 


Em relação aos poderosos e, mais especificamente, aos políticos, ninguém se consegue inocentar completamente aos olhos da opinião pública. No caso de José Sócrates a presunção de inocência é mesmo só retórica - a condenação é já uma certeza. E se, ao fim dos anos que durará todo este caso se não conseguir provar nada, a conclusão será que, mais uma vez, os poderosos, ou mais precisamente os políticos, estão sempre acima da lei.

24 novembro 2014

Da minha natureza intrinsecamente corrupta

Devo ser natural e entranhadamente corrupta pela minha total e entusiástica preferência por gente óbvia e comprovadamente venal como Maria de Lurdes Rodrigues, Pinto Monteiro ou José Sócrates, e o meu absoluto distanciamento urticariforme de pessoas impolutas como Manuela Moura Guedes, João Marcelino e muitos dos nossos actuais governantes que tentam resgatar-me diariamente dos meus vícios.

Dos julgamentos políticos

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Quando todas as sondagens previam a vitória inquestionável do PS nas próximas eleições, após o alívio geral com a saída de cena de António José Seguro, eis que se revigora esta maioria de direita, na esperança de que a prisão e a condenação pública de José Sócrates alastre o repúdio pelos políticos do PS, tentando misturar os eventuais crimes do ex-Primeiro-ministro com as políticas dos seus governos. Marcelo Rebelo de Sousa não se conteve – se António Costa vencer as eleições será um génio; Nuno Garoupa, considera que o País deve fazer um julgamento político de José Sócrates.


 


Do que se esquecem muitos dos comentadores e das pessoas que viram renascer a esperança à medida que passava o fim-de-semana, com o País colado à televisão para ver passar automóveis de um lado para o outro, é que o julgamento político de José Sócrates já foi feito nas eleições de 2009 e de 2011. Nas últimas, os cidadãos escolheram esta maioria que nos governa e não o PS com José Sócrates a liderá-lo. O porquê dessa derrota eleitoral pode ser olhada e explicada de várias maneiras, mas é assim que se julga politicamente alguém que teve responsabilidades governativas – em eleições. Por isso mesmo António Costa faz bem em separar o processo judicial do processo político. E por muito que queiram enlamear tudo o que fizeram Sócrates e os seus colaboradores, enquanto governantes têm sido julgados durante todos estes anos por todos nós.


 


Para além de Sócrates e do PS, os portugueses farão um julgamento político deste governo ruinoso, de quem os enganou e fez exactamente o contrário do que prometeu, de quem tem sido de uma incompetência que ultrapassou vários limites, nas pessoas dos seu responsáveis máximos - Passos Coelho e Paulo Portas. Também o farão desta esquerda tão à esquerda de toda a esquerda da esquerda, que não se cansa de nos lembrar, relembrar e prometer que esteve e estará sempre coligada com a direita para impossibilitar um governo do PS.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...