É possível, até mesmo muito provável, que Francisco Assis tenha razão e que a liderança do PS não esteja em causa caso o resultado das eleições europeias seja desastroso. Que o vai ser já todos perceberam e a desvalorização das mesmas serve para distrair do significado da adivinhada derrota do PS. Na verdade não há qualquer esperança de renovação na cúpula do maior partido da oposição. Mas será que faria qualquer diferença? Qual a ideia do PS para o País, dentro do quadro europeu?
Desde há largos anos, se não desde sempre, ouvimos falar das famosas reformas estruturais, sem que ninguém explicite o que significa exactamente essa expressão – mais uma vez porque, provavelmente, não significa nada. E repito a pergunta – qual a ideia do PS para o País, independentemente do quadro europeu?
A propósito da promessa de António José Seguro quanto à reabertura dos tribunais que agora são encerrados, tal como aconteceu na altura do fecho das maternidades e das escolas – alguém se lembra? – porque os vai reabrir? Alguém ainda acredita, para além de Pinto Monteiro, que são os tribunais, os departamentos de finanças, os hospitais ou as escolas que prendem os cidadãos às aldeias, vilas ou cidades de província? As alterações demográficas, sociais e económicas alteraram a distribuição da população deslocando-a para o litoral. A reorganização administrativa não se faz nem se vislumbra qualquer capacidade dos maiores partidos para afrontar os aparelhos partidários de forma a romper com os interesses instalados.
Só a criação de emprego e o desenvolvimento do interior trará incentivos ao enraizamento das populações que, por seu lado, necessitarão de serviços de todo o tipo. Não quero obviamente dizer que se votem os cidadãos ao abandono e à solidão, esvaziando todos os locais de serviços públicos. Mas também não é o facto de os manter a funcionar sem o mínimo de condições para que sejam de qualidade que fará a diferença. Aliás como nunca a fez, como são exemplo os concursos públicos que abrem e fecham sem concorrentes, para não falar da iniciativa privada que, simplesmente, não existe.
Estamos a assistir a um desmantelamento daquilo a que nos habituamos a considerar direitos e que, como esta maioria não se cansa de propagandear, não o deveriam ser com argumentos como - a sociedade que construímos é irreal sendo os motivos a suposta injustiça que se faz às novas gerações que sustentam a saúde, a assistência social e as reformas das mais velhas; os funcionários e de tudo o que é serviço público são gastadores de dinheiro e não têm qualidade. Isto ao invés de investir na competência, no rigor e na eficiência, atraindo os melhores e mais competentes, reduzindo em número criteriosamente, usando o mérito para contratar e promover, o demérito para dispensar. Mas aquilo a que esta maioria nos dá direito é a um empobrecimento generalizado, a baixos salários, desqualificação, requalificações que significam despedimentos, ausência de apoios sociais, etc.
Onde estão as propostas de António José Seguro para a reforma do estado? É que o investimento na qualificação, na ciência, nas universidades, nas novas tecnologias, nas energias alternativas, foi coisa do tão detestado e megalómano José Sócrates. Neste momento o PS apresenta um candidato a primeiro-ministro muito pouco feroz e bem falante, cuja melopeia adormece e resigna, cuja a cabeça é usada para um penteado certinho, cujo pensamento é árido e faz secar qualquer esperança no futuro próximo.
Cavaco Silva já deu o mote - tudo vai continuar, por muitos e longos anos.