01 março 2014

Da queda do regime democrático

 


No intervalo destes últimos 40 anos, o mundo mudou radicalmente. O desenvolvimento tecnológico exponencial permitiu maior longevidade e qualidade de vida, nos países a que se convencionou chamar desenvolvidos, maior riqueza e bem-estar, melhor e mais rápida divulgação com as novas tecnologias de informação.


 


Politicamente a queda do muro de Berlim, o ataque às Torres Gémeas em Nova Iorque, a consolidação e alargamento da União Europeia, o despertar dos países da América do Sul, o crescimento da China e da Índia, os fenómenos de migração populacional, entre muitos outros, modificaram os equilíbrios existentes a um ritmo crescente, transformando o mundo numa massa globalizada, que cria riqueza mas que a concentra em cada vez menores núcleos de indivíduos, aumentando o fosso entre os que mais podem e os que nada podem.


 


Percebemos hoje que não tem havido capacidade, imaginação nem vontade de lidar com os novos problemas que se avolumam – as alterações demográficas, o reacender dos ódios (xenofobia e racismo), as alterações climatéricas, a gestão dos recursos naturais. Em Portugal e na Europa assiste-se a um cada vez maior divórcio entre os governantes, os líderes dos partidos e os representantes das diversas associações sociais (sindicatos, confederações patronais, industriais, etc) e a restante população, aumentando a descrença neste regime democrático em que esses mesmos governantes, líderes e representantes são, por definição, eleitos livremente.1


 


A total subversão do papel da comunicação e da informação, fruto da revolução informática, transformou a vida, os direitos, as liberdades e o conceito de justiça numa paródia, assistindo-se à construção e destruição de carácter e de factos, mais falsos que verdadeiros, numa roda-viva dentada que tritura pessoas, instituições, conceitos. A manipulação das vontades e dos sentimentos globais movem as multidões e aqueles que deveriam ser os dirigentes deixam-se dirigir pelas ondas de protesto, indignação, fúria ou júbilo que todos os dias assolam a sociedade.


 


Estas organizações políticas não conseguem mobilizar os cidadãos, que deixaram de acreditar no que lhes é dito e repetido. A vida vai correndo à parte do que é cozinhado nas cadeiras dos diversos poderes e a raiva surda com o encolher de ombros vai sendo a atitude de quem quer manter a mínima sanidade mental. É confrangedor ouvir as frases gastas, os clichés, as palavras de ordem de governo, oposição, comentadores, economistas, sindicalistas e outros membros que gravitam na órbita desta elite, sem centelha, sem ideias, sem glória.


 


Ao contrário de tanta coisa que se modificou nos últimos 40 anos, nada se quer mudar nesta organização política formal, porque já é só formalidade e alimentação de interesses de poder, sem que importe a sociedade, o seu respirar, o seu viver, a sua felicidade. A riqueza e o poder deixaram de ser meios para serem fins, e o governo da nação deixou de se preocupar com a própria nação para se preocupar com os que a governam, num mundo ficcional e desligado da realidade.


 


Por isso é cada vez mais provável a queda do regime democrático. Ninguém acredita nele. Continuamos neste romance de faz-de-conta até que, provavelmente tarde de mais, outro regime ditatorial tome conta de nós. É que eu não conheço mais nenhum tipo de regime – democracia e ditadura podem ter várias práticas e vários nomes, mas são apenas essas as alternativas - democracia ou ditadura. E a avaliar pelo que se passa nesta Europa, o primeiro arrisca-se a ser trocado por um mais moderno, mais chique e mais na moda.


 


1 A última manifestação convocada pela CGTP parecia uma procissão, com andor e ladainhas e menos fulgor que as rezas de um velório.


 

25 fevereiro 2014

Estamos muito melhor

 


Estamos muito muito muito, mas muito muito muito melhor.


 


Estamos todos muito muito muito, mas mesmo muito muito muito melhor.


 


Estamos mesmo tão tão tão melhor, que nem percebemos quão tanto tanto tanto melhor estamos.


 


Muito muito muito, mas mesmo muito muito muito melhor.


 

Grama a grama

 


 


24 fevereiro 2014

Campos

 


 


 



North Bennington Train Yard


Tony Conner


 


1.


O campo à minha espera


a tarde de um Março por nascer


a corrida das árvores no horizonte


plácidos insectos encostados à janela.


 


O campo que me desespera


a chuva de um Março por colher


o abraço do silêncio revoltado


os teus braços abrigos que alimentam.


 


2.


Mesmo que salte para o fundo da vida


não largo a corda da lucidez


nem esta impenetrável inabilidade em persistir.


 


3.


Pergunto-me se o lugar que ocupo é meu


ou foi roubado a alguém que se esqueceu


de existir.


 

23 fevereiro 2014

O barrete ideal

 


 



Mercado e lavadouro na Flandres

Jan Brueghel, o Velho

Joos de Momper, o Jovem

 


E quem poderia imaginar que, depois de um dia soalheiro, frio que baste mas não demais, São Pedro desabaria ondas de chuva e vento traiçoeiro, alagando as ruas de Lisboa e molhando sem piedade os incautos passeantes, que aproveitavam uma tarde de domingo para visitar a exposição Rubens, Brueghel, Lorrain. A Paisagem do Norte no Museu do Prado? Foi uma exposição interessante, dividida por várias salas onde se pode apreciar pintura paisagística flamenga dos séculos XVI e XVII, a representação de cenas da vida campestre, o branco da neve, o espelho do gelo e os bosques, o aspecto velado dos quadros, os pormenores, a exiguidade de luz e de cores vibrantes.


 


A seguir ao banho de pintura deambulámos em busca de um restaurante muito recomendado, com pré-reserva e tudo, para não nos arriscarmos a ouvir dizer que não havia lugar, mesmo com o restaurante vazio, que é o que mais acontece nos dias que correm. Primeiro, uns pingos, depois molha tolos, por fim um dilúvio que transformou botas e chapéus em arcas de Noé.


 


Lá conseguimos encontrar o dito restaurante ao qual batemos desesperadamente à porta. De certo que ainda era cedo mas, totalmente encharcados, perguntámos se não podíamos entrar, que chovia que Deus a dava e tínhamos mesa marcada para daí a uma longuíssima meia hora. O porteiro de ocasião foi perguntar se era possível e para isso precisava de reunir em conclave. Minutos passados e a conclusão foi que não, que apesar da molha dos promitentes comensais teríamos que aguardar debaixo do toldo que despejava certeiramente água para cima do espanto incréu dos nossos ouvidos.


 


Pois não experimentámos a dita Taberna Ideal e penso que nunca a experimentaremos. Nem faro comercial houve - sempre poderiam ter servido uns aperitivos e umas entradas enquanto se fazia tempo - já que não existiu educação ou simpatia. Foi um excelente cartão de visita. Não recomendo, portanto.


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...