09 junho 2013

Da política de consensos

 


Ainda não percebi muito bem a estratégia do consenso abraçada agora por António José Seguro.


 


Em primeiro lugar era importante que se percebesse exactamente quais as medidas alternativas que o PS sugere, em ralação à política seguida por esta maioria que nos governa, para saber que consensos procura, em que áreas e de que forma se vão traduzir - coligação eleitoral ou bases programáticas para algumas medidas ou repartição de lugares chave em lugares chave ou apoio parlamentar ou... o quê? E com que forças políticas? À direita, à chamada esquerda ou tanto faz? Ou regressa a expressão que nada significa de Sociedade Civil?


 


Eu vejo com muito cepticismo e muita apreensão a retórica do consenso a todo o custo, tal como via e vejo a austeridade a todo o custo. Eu também defendo que deveria haver uma plataforma mínima de entendimento com os partidos que se dizem à sua esquerda. Mas há algo de muito essencial de que não convém esquecer - o PS faz parte de uma área política que defende a democracia enquanto o PCP e o BE mantém discursos e práticas de forças de cariz autoritário. Felizmente, não só pela interpretação dos resultados eleitorais mas por aquilo que as sondagens vão indiciando, a enorme maioria do povo não se revê na sociedade e na política que esses dois partidos defendem.


 


Por isso, qual é exactamente a ideia de António José Seguro? E em relação ao CDS, onde poderão estar as pontes de entendimento com o CDS? Não seria interessante que o líder do PS tornasse claro o seu pensamento, ou teremos que votar nas incógnitas e nas surpresas pós eleitorais?


 


Não me parece que estejamos dispostos a isso. Que este governo deve cair não tenho dúvidas. Mas avolumam-se as dúvidas quanto à actuação do PS, que deveria marcar a agenda política e liderar as negociações, com condições transparentes e conhecidas dos eleitores. Há cada vez menos capacidade de passar cheques em branco. Há demasiado em jogo para jogos florais e de bastidores.


 

08 junho 2013

Esquinas

 



Eva Rothschild


 


Procuro arder no gelo que à minha volta


forma gotículas de sangue e adormecimento.


 


Encontro chamas de aço em irracionais amarras


que no absurdo das esquinas abrem abismos.


 


Sem braços que empurrem nem ombros


que levantem a eterna condição de querer.


 

Dispidida

 



Mayra Andrade 


 


Katorzi mi dja-m bá nha kaminhu
Mi ki s'ta fika ku mi
Es dor ki m-áita leba diáxi mi só ki buskâ-l
Sakédu má m-ka pode ku-el
Detádu e ta mariâ-m kabésa
Lapidu má dj-e karapati ta fasê-m falsiâ !
Ná ná nau, bai gó !
Témpu-simia dja pása, rinka midju na otu lugár
Busu busu si si nau, ó na dispidida !
Tiru ta sai albés pa kulátra,
Mi m-ka fasi náda sima m-kreba
Dádu si ki-m dádu sima m-obi sima m-fládu
Tiru ta sai albés pa kulátra
Mi m-ka fasi náda sima m-kreba
Dádu xikotáda sima flor di midju kankaram !


 

Da requalificação governamental

 


As afirmações que se vão ouvindo dos mais diversos membros do governo são a demonstração do desnorte a que chegaram. Helder Rosalino trata as pessoas como se fossem de uma obtusidade sem mácula, declarando que está convencido que quem entrar no regime de requalificação pode voltar a trabalhar para o estado. Hoje Passos Coelho pede aos sindicatos para reagendarem a greve para quando der mais jeito.


 


E não se pode requalificá-los?


 

Da contínua invernia

 



Kimberly Conrad


 


É, de facto, uma situação muito difícil, como Maria de Lurdes Rodrigues afirma.


 


Portugal é um assunto mesmo dificílimo. Professores e outros funcionários públicos, os cidadãos em geral, têm muitíssimas razões para fazerem greve, geral total e absoluta. Aliás a greve global à capacidade de tentar perceber a realidade já está em acção há muito tempo. Desde há 2 anos que o governo e esta maioria decretaram greve à democracia e ao estado de direito. São grevistas que já perderam a noção de que o mundo está a mudar, mas não eles.


 


O problema é que quem decreta greve geral já decretou tantas vezes greves, manifestações e revoluções sem razão ou razões discerníveis, tanto se queixaram de todos os ministros, de todas as políticas, de todos os governos, de todos os reaccionários, fascistas e esmagadores das classes trabalhadora e do povo, que já ninguém perde tempo a concordar ou não com a greve. É só mais uma.


 


E assim estamos todos, com um enfado tal a toda esta situação, que já nem conseguimos indignar-nos. O clima continua adverso aos investimentos na inteligência dos nossos governantes e dos líderes das nossas oposições. É tempo de nos cobrirmos de casacos e guarda-chuvas. A invernia ainda não acabou.


 

03 junho 2013

Da liberdade como essência

 


Começamos a estar habituados às manifestações de autoritarismo por parte de alguns grupos, algo a que deveria ser proibido habituarmo-nos.


 


É por este género de atitudes que os sindicatos têm tão pouca credibilidade entre nós. Na realidade, que diferença faz para a FENPROF o ministro ser Nuno Crato ou Maria de Lurdes Rodrigues, para citar apenas dois? Todos foram e são mimoseados com os epítetos de atacantes da escola pública e dos professores, destruidores da educação e da democracia. Tal como os da Saúde, Finanças, Economia, Justiça, etc., etc., etc.


 


A insatisfação, o desespero e a vontade de mudança não podem justificar o injustificável. Se aceitarmos o comportamento antidemocrático pela justeza das razões, sepultamos o regime que faz da liberdade de expressão o seu pilar fundamental.


 


Deixemo-nos de brincadeiras, já bem basta o desrespeito a que estamos sujeitos por este governo. Se os ministros fingem que vão às reuniões para consertar qualquer coisa, pois que sejam as várias associações e sindicatos a mostrar seriedade e competência. Nada como a afirmação de conhecimento e de ideias alternativas para construir novamente a esperança. Que é urgente, urgentíssima, antes que esta maioria ou estas minorias nos roubem a democracia.


 

01 junho 2013

As vozes dos outros (4)

 



(...) Hoje já não tenho personalidade: quanto em mim haja de humano, eu o dividi entre os autores vários de cuja obra tenho sido o executor. Sou hoje o ponto de reunião de uma pequena humanidade só minha. (...)


 



Cf. Carta a Adolfo C. Monteiro -13 Jan. 1935


1935 - Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 101.


 


Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...