08 junho 2013

Da requalificação governamental

 


As afirmações que se vão ouvindo dos mais diversos membros do governo são a demonstração do desnorte a que chegaram. Helder Rosalino trata as pessoas como se fossem de uma obtusidade sem mácula, declarando que está convencido que quem entrar no regime de requalificação pode voltar a trabalhar para o estado. Hoje Passos Coelho pede aos sindicatos para reagendarem a greve para quando der mais jeito.


 


E não se pode requalificá-los?


 

Da contínua invernia

 



Kimberly Conrad


 


É, de facto, uma situação muito difícil, como Maria de Lurdes Rodrigues afirma.


 


Portugal é um assunto mesmo dificílimo. Professores e outros funcionários públicos, os cidadãos em geral, têm muitíssimas razões para fazerem greve, geral total e absoluta. Aliás a greve global à capacidade de tentar perceber a realidade já está em acção há muito tempo. Desde há 2 anos que o governo e esta maioria decretaram greve à democracia e ao estado de direito. São grevistas que já perderam a noção de que o mundo está a mudar, mas não eles.


 


O problema é que quem decreta greve geral já decretou tantas vezes greves, manifestações e revoluções sem razão ou razões discerníveis, tanto se queixaram de todos os ministros, de todas as políticas, de todos os governos, de todos os reaccionários, fascistas e esmagadores das classes trabalhadora e do povo, que já ninguém perde tempo a concordar ou não com a greve. É só mais uma.


 


E assim estamos todos, com um enfado tal a toda esta situação, que já nem conseguimos indignar-nos. O clima continua adverso aos investimentos na inteligência dos nossos governantes e dos líderes das nossas oposições. É tempo de nos cobrirmos de casacos e guarda-chuvas. A invernia ainda não acabou.


 

03 junho 2013

Da liberdade como essência

 


Começamos a estar habituados às manifestações de autoritarismo por parte de alguns grupos, algo a que deveria ser proibido habituarmo-nos.


 


É por este género de atitudes que os sindicatos têm tão pouca credibilidade entre nós. Na realidade, que diferença faz para a FENPROF o ministro ser Nuno Crato ou Maria de Lurdes Rodrigues, para citar apenas dois? Todos foram e são mimoseados com os epítetos de atacantes da escola pública e dos professores, destruidores da educação e da democracia. Tal como os da Saúde, Finanças, Economia, Justiça, etc., etc., etc.


 


A insatisfação, o desespero e a vontade de mudança não podem justificar o injustificável. Se aceitarmos o comportamento antidemocrático pela justeza das razões, sepultamos o regime que faz da liberdade de expressão o seu pilar fundamental.


 


Deixemo-nos de brincadeiras, já bem basta o desrespeito a que estamos sujeitos por este governo. Se os ministros fingem que vão às reuniões para consertar qualquer coisa, pois que sejam as várias associações e sindicatos a mostrar seriedade e competência. Nada como a afirmação de conhecimento e de ideias alternativas para construir novamente a esperança. Que é urgente, urgentíssima, antes que esta maioria ou estas minorias nos roubem a democracia.


 

01 junho 2013

As vozes dos outros (4)

 



(...) Hoje já não tenho personalidade: quanto em mim haja de humano, eu o dividi entre os autores vários de cuja obra tenho sido o executor. Sou hoje o ponto de reunião de uma pequena humanidade só minha. (...)


 



Cf. Carta a Adolfo C. Monteiro -13 Jan. 1935


1935 - Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 101.


 


Hipermercado dos livros

 



 


Nada de novo neste cantinho do mundo. Pode parecer que há uma frente imparável entre centrais sindicais unidas, fundadores da democracia a levantarem as massas, manifestações diárias e desacatos na Assembleia da República.


 


Na verdade, é apenas a banalização da demonstração do descontentamento. O governo continua lá, com uma maioria parlamentar que ainda não se desmanchou. A execução orçamental continua a ser horrível, sobe o desemprego, o défice e mantém-se a desvergonha e o mau gosto inexcedível de pessoas como Vítor Gaspar, que nem percebe que é melhor não tentar fazer humor.


 


Nada há, portanto, a dizer de novo, que não se tenha dito já milhares de vezes. Como não se consegue continuar a aumentar exponencialmente a desesperança e a depressão, habituamo-nos. O ser humano adapta-se a tudo para sobreviver.


 


Hoje, pelo menos, São Pedro deu-nos algumas tréguas. Esteve um dia lindo. Por isso decidi ir à Feira do Livro. Arrependi-me ao fim de 10 minutos. A Feira do Livro transformou-se no Hipermercado do Livro, em que há uns cestinhos para ir tirando livros de estantes cheias, propaganda e promoções a autores e a livros, tal como no Jumbo e no Continente, filas de gente para as caixas, desgraçados autores sentados a escrevinharem autógrafos para os eventuais leitores, muitas barraquinhas de gelados, de doçaria regional, água, café e sei lá que mais, para além dos balões, palhaços e carrinhos de bebé porque hoje era o dia mundial da criança.


 


Tenho um problema cada vez mais grave com estas manifestações culturais. Fugi a sete pés.


 

30 maio 2013

Alongar

 


 



Tejo 


 


 


1.


Inclinada a cidade esvai-se


sangra pelas ruas em pedras rolantes


e passos cansados exausta


de mundo de inverno de pó.


 


2.


Ficamos sentados à beira do tempo


desistentes da vida assistimos


ao dobrar dos troncos


ao vergar das nuvens.


 


3.


Desenhei num mapa que só tu entendes


os cruzamentos em que alongamos


imensas e surdas despedidas.


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...