10 janeiro 2013

Política e seriedade precisam-se

 


Tenho ouvido e lido várias declarações em relação ao relatório elaborado pelo FMI, que está disponível na internet. Do que já li, ou não percebo nada do que está escrito ou a grande maioria do que ouço é de gente que não se deu ao trabalho de o ler. Ou pior, se o leu e entendeu pretende manipular as reacções da população, lançando o pânico de forma irresponsável, demagógica e populista.


 


Não discuto o facto de se ter pedido o relatório, tal como não discuto muita da ideologia patente, em muitas das medidas propostas. No entanto, parece-me um documento importante para discutir, cujo diagnóstico é muito certeiro e que aponta alguns caminhos, quanto a mim indispensáveis de prosseguir, que se iniciaram com Sócrates, nomeadamente na área da saúde.


 


É verdade que há que reduzir custos e desperdícios, reorganizar e ajustar. Sempre defendi o aumento dos horários e a dedicação exclusiva dos médicos, o que reduziria a necessidade de horas extraordinárias e levaria a um melhor aproveitamento dos recursos. É verdade que há tarefas que podem ser executadas por enfermeiros e técnicos em vez de o serem por médicos. É imprescindível que as remunerações tenham componentes variáveis e se relacionem com o desempenho, a qualidade, o mérito, a produtividade. Assim como é verdade que é indispensável que se descongelem as promoções. Está lá tudo isso, como estão outras medidas com que não concordo, como o aumento das taxas moderadoras ou o desinvestimento no serviço público de educação. Como não estão outras medidas que deveriam estar, como o incentivo à formação e apoios ao desenvolvimento económico, como o que fazer para reduzir o desemprego e captar os recursos mais preparados e activos, que estão a sair do país.


 


Todos sabemos que o Estado está capturado por interesses corporativos e por interesse privados, mas nenhum governo, até agora, conseguiu afrontá-los. Sócrates iniciou reformas indispensáveis na saúde e na educação e todos sabemos o que aconteceu. Os mesmos que se opuseram às reformas na época são os que agora as pedem, tal como os que agora as negam em grandes brados as defendiam há uns anos.


 


É avassalador o estado a que a discussão política chegou. Gostaria que alguém no PS tivesse uma postura de Estado. É urgente discutir estes assuntos, reformar e melhorar os serviços públicos. A agenda da redução do estado social ao mínimo ou mesmo à sua inexistência, deve ser demonstrada com verdade e honestidade intelectual e contrapostas outras medidas e soluções que o mantenham sustentável.


 


Era muito bom que todos lêssemos o documento para pensarmos com a nossa cabeça. Tal como seria muito importante rever o debate entre Passos Coelho e Sócrates (via Aspirina B) antes das últimas eleições. Muito importante para percebermos o que foi um assalto impreparado e sem vergonha ao poder. É bom que não nos esqueçamos.


 

06 janeiro 2013

À deriva

 



 


A mensagem de Ano Novo do Presidente Cavaco Silva alimenta os programas de comentário político, apesar da unanimidade quanto à irrelevância da personagem. Tudo se prepara para a realidade - a inoperância das instituições democráticas: a Constituição e o Tribunal Constitucional, a Assembleia e o Presidente da República, os partidos da coligação e os da oposição.


 


Isto vai vogando mais ou menos à deriva. Daqui a uns meses vai haver mais desempregados, mais crise e mais austeridade. Mas a Europa continua connosco, António José Seguro continua a indignar-se com as medidas do governo e dentro dos partidos continuam a fazer-se contas, para ver quem se queima ou quem é capaz de se preservar, para vir buscar os cacos do que restar.


 

Subliminar

 



resting in bed 


James Abbott Mcneill Whistler


 


Passar um dia inteiro na cama, sem estar doente, é algo de que não me lembro de fazer desde há muitos e muitos anos. Pois hoje aqui estou enroscada, com várias mantas em cima, computador nos joelhos, televisão em frente, a gozar um domingo de abulia absoluta, negando o diagnóstico de hiperactividade.


 


Devo dizer que um dos motivos de me sentir tão confortável é o pijama que comprei na praça, a 7,50€, quentinho e absolutamente do meu tamanho, o que me confere a possibilidade de dormir a noite sem acordar enregelada, com as mangas da camisa enroladas nos ombros ou as pernas do pijama arregaçadas nas coxas. As praças são um manancial de coisas úteis e baratas que nós, naquela senda do gastarmos acima das nossas possibilidades, de que o nosso patriótico governo nos está patrioticamente a salvar, deixamos de dar a devida atenção.


 


Portanto, adepta do consumo de proximidade, neste novo eu caseiro, doméstico, organizado, prevenido, aforrador, cauteloso e perfeitamente classe média, pequena burguesia, tão normal que irrita, passo as manhãs de sábado em catedrais de frutas e legumes, em talhos inseridos nas comunidades, em hipermercados que tudo têm mesmo nos domingos quando aos sábados não posso domesticar.


 


É extraordinário como se iniciam hábitos que rapidamente se transformam em tradições irrecusáveis, como os imprescindíveis cafés de bairro que nos aguardam, com o dito longo ou curto, com adoçante ou em chávena fria, o irrecusável copo de água e a companhia costumeira, nos sítios do costume, a rever as semanas ou apenas a acompanhar os nossos silêncios.


 


Não sei se são as crises económicas e financeiras, se são os anos que nos ensinam a mediania e a ritualidade. Mas de tudo aquilo que eu não compreendia nos mais velhos, os gestos repetidos, as horas mais ou menos marcadas, os locais de peregrinação diária, me parece agora a libertação da tensão da labuta, do stress do trabalho, dos compromissos e das exigências que nos obrigamos.


 


Por outro lado sinto-me um pouco culpada do meu alheamento em relação ao mundo, ou mais exactamente ao país, à constatação do compadrio, da incompetência e da falta de coluna vertebral nas mais pequenas parcelas de quotidiano que nos assolam, das máquinas de gente, do tal sistema que emperra porque humanamente os humanos são pequenos, mesquinhos e têm um medo insano da insegurança, e têm uma capacidade inabalável de abuso do poder.


 


Seja por uma depressão rasteira e subliminar, longa e resistente, seja pela preguiça que me tolhe os membros, seja pela sensação de impotência para resolver seja o que for, mantenho-me hoje aqui, bem acolchoada e coberta, deixando que o cinzento do dia se passe lá fora, bebendo chá e dedilhando ideias, para me preparar para a semana que há de vir, e que será igual às outras cinquenta e tal semanas do ano de 2013.


 

01 janeiro 2013

A derrota da crise (10)

 



 


É muito interessante observar os músicos numa orquestra, enquanto estão a tocar. Muitos ondulam com os corpos, meneiam a cabeça, por vezes quase saltam dos assentos. Alguns estão circunspectos e praticamente não se manifestam.


 


Este ano o concerto de ano novo no CCB foi bastante melhor (na minha opinião, claro) que o do ano anterior. Talvez o programa tenha sido mais bem escolhido ou talvez o maestro seja mais apelativo. A própria orquestra parece ter dado os parabéns a Kynan Johns, deixando a ovação do público ara ele, levantando-se apenas após insistência do maestro.


 


Deixo um excerto de concerto vienense deste ano, uma tradição iniciada em 1939, sem o Danúbio Azul. Quem quiser bilhetes para o ano, pode já inscrever-se para o sorteio.


 



 

... dentro de momentos

 



 


Aumentos de preços da electricidade e gás; aumento de impostos; redução das deduções fiscais; aumento do desemprego; aumento das taxas moderadoras no SNS; redução da credibilidade dos agentes políticos e económicos; aumento do perigo de movimentos ditatoriais. Crise na cultura, no ensino, na saúde, na justiça, na segurança; crise da democracia.


 

Um de Janeiro

 


 


To Every End There is a Beginning


Rich Frederick


 


Neste pequeno centro de evasão a que chamo casa


o mundo suspenso entre a raiz do sol


e o bater de uma asa


apenas a música de flores embala


a certeza da realidade que me espera.


 

Marques Júnior

 



 


A pouco e pouco vão-se as referências de uma vida ao serviço dos outros, de um tempo de virtude e inocência. O mundo vai acabando em bocados dolorosos.


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...