Tenho ouvido e lido várias declarações em relação ao relatório elaborado pelo FMI, que está disponível na internet. Do que já li, ou não percebo nada do que está escrito ou a grande maioria do que ouço é de gente que não se deu ao trabalho de o ler. Ou pior, se o leu e entendeu pretende manipular as reacções da população, lançando o pânico de forma irresponsável, demagógica e populista.
Não discuto o facto de se ter pedido o relatório, tal como não discuto muita da ideologia patente, em muitas das medidas propostas. No entanto, parece-me um documento importante para discutir, cujo diagnóstico é muito certeiro e que aponta alguns caminhos, quanto a mim indispensáveis de prosseguir, que se iniciaram com Sócrates, nomeadamente na área da saúde.
É verdade que há que reduzir custos e desperdícios, reorganizar e ajustar. Sempre defendi o aumento dos horários e a dedicação exclusiva dos médicos, o que reduziria a necessidade de horas extraordinárias e levaria a um melhor aproveitamento dos recursos. É verdade que há tarefas que podem ser executadas por enfermeiros e técnicos em vez de o serem por médicos. É imprescindível que as remunerações tenham componentes variáveis e se relacionem com o desempenho, a qualidade, o mérito, a produtividade. Assim como é verdade que é indispensável que se descongelem as promoções. Está lá tudo isso, como estão outras medidas com que não concordo, como o aumento das taxas moderadoras ou o desinvestimento no serviço público de educação. Como não estão outras medidas que deveriam estar, como o incentivo à formação e apoios ao desenvolvimento económico, como o que fazer para reduzir o desemprego e captar os recursos mais preparados e activos, que estão a sair do país.
Todos sabemos que o Estado está capturado por interesses corporativos e por interesse privados, mas nenhum governo, até agora, conseguiu afrontá-los. Sócrates iniciou reformas indispensáveis na saúde e na educação e todos sabemos o que aconteceu. Os mesmos que se opuseram às reformas na época são os que agora as pedem, tal como os que agora as negam em grandes brados as defendiam há uns anos.
É avassalador o estado a que a discussão política chegou. Gostaria que alguém no PS tivesse uma postura de Estado. É urgente discutir estes assuntos, reformar e melhorar os serviços públicos. A agenda da redução do estado social ao mínimo ou mesmo à sua inexistência, deve ser demonstrada com verdade e honestidade intelectual e contrapostas outras medidas e soluções que o mantenham sustentável.
Era muito bom que todos lêssemos o documento para pensarmos com a nossa cabeça. Tal como seria muito importante rever o debate entre Passos Coelho e Sócrates (via Aspirina B) antes das últimas eleições. Muito importante para percebermos o que foi um assalto impreparado e sem vergonha ao poder. É bom que não nos esqueçamos.