06 janeiro 2013

À deriva

 



 


A mensagem de Ano Novo do Presidente Cavaco Silva alimenta os programas de comentário político, apesar da unanimidade quanto à irrelevância da personagem. Tudo se prepara para a realidade - a inoperância das instituições democráticas: a Constituição e o Tribunal Constitucional, a Assembleia e o Presidente da República, os partidos da coligação e os da oposição.


 


Isto vai vogando mais ou menos à deriva. Daqui a uns meses vai haver mais desempregados, mais crise e mais austeridade. Mas a Europa continua connosco, António José Seguro continua a indignar-se com as medidas do governo e dentro dos partidos continuam a fazer-se contas, para ver quem se queima ou quem é capaz de se preservar, para vir buscar os cacos do que restar.


 

Subliminar

 



resting in bed 


James Abbott Mcneill Whistler


 


Passar um dia inteiro na cama, sem estar doente, é algo de que não me lembro de fazer desde há muitos e muitos anos. Pois hoje aqui estou enroscada, com várias mantas em cima, computador nos joelhos, televisão em frente, a gozar um domingo de abulia absoluta, negando o diagnóstico de hiperactividade.


 


Devo dizer que um dos motivos de me sentir tão confortável é o pijama que comprei na praça, a 7,50€, quentinho e absolutamente do meu tamanho, o que me confere a possibilidade de dormir a noite sem acordar enregelada, com as mangas da camisa enroladas nos ombros ou as pernas do pijama arregaçadas nas coxas. As praças são um manancial de coisas úteis e baratas que nós, naquela senda do gastarmos acima das nossas possibilidades, de que o nosso patriótico governo nos está patrioticamente a salvar, deixamos de dar a devida atenção.


 


Portanto, adepta do consumo de proximidade, neste novo eu caseiro, doméstico, organizado, prevenido, aforrador, cauteloso e perfeitamente classe média, pequena burguesia, tão normal que irrita, passo as manhãs de sábado em catedrais de frutas e legumes, em talhos inseridos nas comunidades, em hipermercados que tudo têm mesmo nos domingos quando aos sábados não posso domesticar.


 


É extraordinário como se iniciam hábitos que rapidamente se transformam em tradições irrecusáveis, como os imprescindíveis cafés de bairro que nos aguardam, com o dito longo ou curto, com adoçante ou em chávena fria, o irrecusável copo de água e a companhia costumeira, nos sítios do costume, a rever as semanas ou apenas a acompanhar os nossos silêncios.


 


Não sei se são as crises económicas e financeiras, se são os anos que nos ensinam a mediania e a ritualidade. Mas de tudo aquilo que eu não compreendia nos mais velhos, os gestos repetidos, as horas mais ou menos marcadas, os locais de peregrinação diária, me parece agora a libertação da tensão da labuta, do stress do trabalho, dos compromissos e das exigências que nos obrigamos.


 


Por outro lado sinto-me um pouco culpada do meu alheamento em relação ao mundo, ou mais exactamente ao país, à constatação do compadrio, da incompetência e da falta de coluna vertebral nas mais pequenas parcelas de quotidiano que nos assolam, das máquinas de gente, do tal sistema que emperra porque humanamente os humanos são pequenos, mesquinhos e têm um medo insano da insegurança, e têm uma capacidade inabalável de abuso do poder.


 


Seja por uma depressão rasteira e subliminar, longa e resistente, seja pela preguiça que me tolhe os membros, seja pela sensação de impotência para resolver seja o que for, mantenho-me hoje aqui, bem acolchoada e coberta, deixando que o cinzento do dia se passe lá fora, bebendo chá e dedilhando ideias, para me preparar para a semana que há de vir, e que será igual às outras cinquenta e tal semanas do ano de 2013.


 

01 janeiro 2013

A derrota da crise (10)

 



 


É muito interessante observar os músicos numa orquestra, enquanto estão a tocar. Muitos ondulam com os corpos, meneiam a cabeça, por vezes quase saltam dos assentos. Alguns estão circunspectos e praticamente não se manifestam.


 


Este ano o concerto de ano novo no CCB foi bastante melhor (na minha opinião, claro) que o do ano anterior. Talvez o programa tenha sido mais bem escolhido ou talvez o maestro seja mais apelativo. A própria orquestra parece ter dado os parabéns a Kynan Johns, deixando a ovação do público ara ele, levantando-se apenas após insistência do maestro.


 


Deixo um excerto de concerto vienense deste ano, uma tradição iniciada em 1939, sem o Danúbio Azul. Quem quiser bilhetes para o ano, pode já inscrever-se para o sorteio.


 



 

... dentro de momentos

 



 


Aumentos de preços da electricidade e gás; aumento de impostos; redução das deduções fiscais; aumento do desemprego; aumento das taxas moderadoras no SNS; redução da credibilidade dos agentes políticos e económicos; aumento do perigo de movimentos ditatoriais. Crise na cultura, no ensino, na saúde, na justiça, na segurança; crise da democracia.


 

Um de Janeiro

 


 


To Every End There is a Beginning


Rich Frederick


 


Neste pequeno centro de evasão a que chamo casa


o mundo suspenso entre a raiz do sol


e o bater de uma asa


apenas a música de flores embala


a certeza da realidade que me espera.


 

Marques Júnior

 



 


A pouco e pouco vão-se as referências de uma vida ao serviço dos outros, de um tempo de virtude e inocência. O mundo vai acabando em bocados dolorosos.


 

31 dezembro 2012

Vamos lá a domesticá-lo

 



 


Fim de ano a dois, na mais absoluta clandestinidade. Repasto frugal, para quem está (para) sempre em dieta, mas muito apetitoso, com um docinho também, posto que vamos dar as boas-vindas a mais um ano (para esquecer). Portanto precisamos de muita paciência, coragem e boa disposição, por muito difícil que seja. Estou mesmo em crer que este governo já foi demitido pelo ridículo e pela paródia, tal é o desrespeito com que nos trata e com que é tratado.


 


Mas enfim, lá vamos nós para mais um dia, que isto de fins-de-ano é exactamente igual aos fins-de-tarde e aos princípios-de-dia. A crise transforma qualquer casa no restaurante mais sofisticado que existe e qualquer filme a passar no DVD no melhor espectáculo do mundo. Estamos com mesa marcada para as 20:30h. O começo não foi muito promissor, diga-se em abono da verdade: as farófias estão um pouco desfeitas e o leite de creme retalhou, vá-se lá saber porquê. Lá encafuei tudo para dentro de uma tigela que está bastante transbordante. Esperam-nos uns camarões mais ou menos à Tio Fausto (camarões congelados com casca, nem dos maiores nem dos mais pequenos, em cama de cebola, alho, azeite, pimento verde e muita salsa, com um ou dois goles de vinho bom, a suar num tacho tapado), uns berbigões mais ou menos à Bulhão Pato (berbigões na concha, depois de uma noite em água e sal, numa frigideira com azeite, muito alho, salsa – não encontrámos coentros - e limão) e legumes guisados. Uma pequena tábua de queijos, tostinhas e um bom Chardonnay iniciam e acompanham o banquete. O champanhe está já a gelar e temos conversa e companhia até chegar 2013.


 


O melhor de tudo é estar com quem queremos, desfrutando do conforto de amarmos, muito, sempre, em todos os dias do ano (com excepção daqueles em que nos apetece fugir, mudar de identidade, etc.).


 


Bom ano para todos ou, pelo menos, que não seja pior do que aquele que finda.


 


Nota: imperdoável a omissão de umas maravilhosas vieiras no forno. Estavam muito boas (como tudo o resto). Intouchables e A Praire Home Companion completaram o início de 2013. Nada mal, para começo.


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...