
resting in bed
James Abbott Mcneill Whistler
Passar um dia inteiro na cama, sem estar doente, é algo de que não me lembro de fazer desde há muitos e muitos anos. Pois hoje aqui estou enroscada, com várias mantas em cima, computador nos joelhos, televisão em frente, a gozar um domingo de abulia absoluta, negando o diagnóstico de hiperactividade.
Devo dizer que um dos motivos de me sentir tão confortável é o pijama que comprei na praça, a 7,50€, quentinho e absolutamente do meu tamanho, o que me confere a possibilidade de dormir a noite sem acordar enregelada, com as mangas da camisa enroladas nos ombros ou as pernas do pijama arregaçadas nas coxas. As praças são um manancial de coisas úteis e baratas que nós, naquela senda do gastarmos acima das nossas possibilidades, de que o nosso patriótico governo nos está patrioticamente a salvar, deixamos de dar a devida atenção.
Portanto, adepta do consumo de proximidade, neste novo eu caseiro, doméstico, organizado, prevenido, aforrador, cauteloso e perfeitamente classe média, pequena burguesia, tão normal que irrita, passo as manhãs de sábado em catedrais de frutas e legumes, em talhos inseridos nas comunidades, em hipermercados que tudo têm mesmo nos domingos quando aos sábados não posso domesticar.
É extraordinário como se iniciam hábitos que rapidamente se transformam em tradições irrecusáveis, como os imprescindíveis cafés de bairro que nos aguardam, com o dito longo ou curto, com adoçante ou em chávena fria, o irrecusável copo de água e a companhia costumeira, nos sítios do costume, a rever as semanas ou apenas a acompanhar os nossos silêncios.
Não sei se são as crises económicas e financeiras, se são os anos que nos ensinam a mediania e a ritualidade. Mas de tudo aquilo que eu não compreendia nos mais velhos, os gestos repetidos, as horas mais ou menos marcadas, os locais de peregrinação diária, me parece agora a libertação da tensão da labuta, do stress do trabalho, dos compromissos e das exigências que nos obrigamos.
Por outro lado sinto-me um pouco culpada do meu alheamento em relação ao mundo, ou mais exactamente ao país, à constatação do compadrio, da incompetência e da falta de coluna vertebral nas mais pequenas parcelas de quotidiano que nos assolam, das máquinas de gente, do tal sistema que emperra porque humanamente os humanos são pequenos, mesquinhos e têm um medo insano da insegurança, e têm uma capacidade inabalável de abuso do poder.
Seja por uma depressão rasteira e subliminar, longa e resistente, seja pela preguiça que me tolhe os membros, seja pela sensação de impotência para resolver seja o que for, mantenho-me hoje aqui, bem acolchoada e coberta, deixando que o cinzento do dia se passe lá fora, bebendo chá e dedilhando ideias, para me preparar para a semana que há de vir, e que será igual às outras cinquenta e tal semanas do ano de 2013.