24 dezembro 2012

Ética

 


Penso que estas declarações do Bastonário reflectem bem a forma como o representante da Ordem dos Médicos lida com as opiniões que divergem da sua. O modo como reagiu publicamente ao parecer do Conselho Nacional de Ética e Ciências da Vida sobre racionamento de medicamentos, ameaçando os médicos com processos disciplinares, e a irrelevância com que desconsidera o documento do Conselho Nacional de Ética e Deontologia Médicas, que não divulgou, são demonstrativos de falta de honestidade intelectual e autoritarismo.


 


O debate e as trocas de informações são essenciais para o esclarecimento e para a tomada de decisões políticas, mais ainda em assuntos extremamente delicados como estes. O Bastonário e a Ordem dos Médicos deveriam ser referências de ponderação e não exemplos de atitudes pouco éticas.


 

História de Carnaval

 



 


Não há dúvida de que o presente recebido pelo governo, com a panóplia de entrevistas e opiniões de Artur Baptista da Silva, era difícil de imaginar. Por muito que a substância possa ser razoável, ninguém leva a sério quem gozou com os órgãos de informação nacionais e internacionais, com a ONU e com tantos economistas e comentadores, fazendo fé nas notícias que desmentem os vários cargos, títulos e especializações da personagem.


 


Ouvimos aquilo que queremos ouvir. Além disso o nosso sentido crítico desliga-se quando alguém se apresenta com as referências de doutoramentos em Universidades estrangeiras, para além da chancela de organizações internacionais sonantes. Devemos todos aprender a lição e olharmo-nos ao espelho. Fica bem ao Expresso e a Nicolau Santos o reconhecimento do erro, mas também a credibilidade do jornalismo de referência foi arrasada.


 


Ao mesmo tempo é de uma comicidade extrema. O desplante do indivíduo é deslumbrante. Portugal deveria exportar burlões. Bem, na verdade exporta: Vale e Azevedo foi exercer em Inglaterra.


 

23 dezembro 2012

Cabazes de Natal

 



 


Na recta final para o Natal, finalizam-se os cabazes. Uma das ideias para os deste ano foi retirada de um blogue, que as tem bastante boas. Fudge (doce de chocolate). É muitíssimo fácil e, pela prova, muito bom:



  • Num tacho coloquei ao lume 400ml de natas, 500g de açúcar e 100g de margarina. Quando começou a ferver espevitei o lume e fui mexendo, até que as bolhas que se formavam diminuíram e ficaram homogéneas (cerca de 20 minutos). Retirei do lume e juntei 100g de chocolate negro para culinária, que se derreteu. De seguida espalhei a massa num tabuleiro forrado de papel vegetal. Agora estou à espera de amanhã, para partir aos bocadinhos, ensacar e enfeitar.


A outra foi a concretização de uma experiência que já tardava - borrachões - são uma espécie de bolachas/ biscoitos, da região da Beira Baixa, que devem o seu nome à aguardente com que são feitos. Mas eu segui uma receita de uma familiar bastante longínqua, que permite usar jeropiga (ou vinho, em vez da aguardente). De facto ficaram uns biscoitos bastante bons, mas nada parecidos com os borrachões que há na terra da minha avó. Enfim, deve ser a inovação geracional.



  • Bati 250ml de azeite com 250ml de jeropiga, 250g de açúcar e 1 ovo inteiro. Depois juntei 1 colher de sobremesa de fermento e cerca de 600g de farinha - digo 600g porque estive a pesar a farinha, pois a receita dizia q.b., que eu detesto, porque nunca sei quanto basta. A referência é a massa começar a desligar do recipiente onde é batida. Nada científico, portanto. Espalhei a massa no tabuleiro de ir ao forno, pincelado com óleo (penso que a margarina derretida fará o mesmo papel e não fritará tão rapidamente). A temperatura é mais uma vez q.b. Sugiro médio até ficarem bem cozidos (aí uns 20 a 30 minutos). Quando acabaram de cozer, cortei a massa em quadrados e polvilhei com uma mistura de açúcar e canela (sobrante das rabanadas, entretanto já preparadas para a próxima noite).


Como não tive paciência para transformar toda a abóbora em compota, os meus cabazes, tal como o lifestyle da Margarida Rebelo Pinto, sofreram um downsizing. Pode ser que se componham um pouco com estas novas iguarias.


 

21 dezembro 2012

Um dia como os outros (122)

 



Não há como negar: temos o primeiro-ministro mais aldrabão, incompetente, irresponsável e perigoso de sempre (desde que há eleições livres, bem entendido).


Vejamos as suas últimas declarações sobre as pensões: um chorrilho de inexatidões, mentiras e acinte. Diz Passos que a denominada "contribuição especial de solidariedade" (CES) é pedida aos que recebem "pensões muito altas". Exime-se, desde logo, de explicitar que para ele as "pensões muito altas" começam nos 1350 euros - primeira aldrabice. E prossegue: esse "contributo especial" é devido por quem recebe essas pensões "por não ter descontado na proporção", quando "hoje os que estão a fazer os seus descontos terão a sua reforma como se esta fosse capitalizada - tendo em conta todos os descontos". Refere-se ao facto de as regras de cálculo terem mudado em 2007, com o primeiro Governo Sócrates (e uma lei aprovada apenas com votos do PS), quando antes se referiam aos melhores dez dos últimos 15 anos ou mesmo ao derradeiro ordenado.


Sucede que, ao contrário do que esta conversa dá a entender, a dita "solidariedade" imposta às pensões a partir de 1350 euros vai direitinha, como aliás esta semana o insuspeito Bagão Félix frisou no Público, para o buraco do défice. Não vai para a Segurança Social e portanto não serve para "ajudar" nas pensões futuras - segunda aldrabice. E se as pensões "mais altas" não foram calculadas com base na totalidade dos descontos, as mais baixas também não - aliás, as pensões ditas "mínimas" referem-se a carreiras contributivas diminutas. Pela ordem de ideias de Passos os seus beneficiários têm o que merecem: pensões baixas por terem descontado pouco. Mas faz questão de repetir que lhas aumentou em 1,1%, dando a entender que a CES serve para tal (terceira aldrabice), enquanto a verdade é que o faz com o corte do Complemento Solidário para Idosos. Ora se nem todos os que recebem pensões mínimas são pobres, o CSI, fulcral na diminuição da pobreza dos idosos nos últimos anos, foi criado para somar às pensões muito baixas de quem não tem outros meios de subsistência. E é aí que Passos tira, com o desplante de afirmar que é tudo "em nome da justiça social" (esta aldrabice vale por cem).


Mas a maior aldrabice, implícita em todo este discurso, é de que a Segurança Social é já deficitária e urgem medidas hoje. Citando de novo Bagão, "o Regime Previdencial da SS, além de constitucionalmente autónomo, até é superavitário (mais receita da TSU do que as pensões e outras prestações de base contributiva)! E tem sido este regime a esbater o défice do Estado e não o inverso, como, incrivelmente, se tem querido passar para a opinião pública".


Sim, Bagão está a falar do seu camarada de partido, Mota Soares, e a chamar-lhe mentiroso. Incrivelmente? Não: devíamos estar todos a repetir o mesmo, todos os dias, em todo o lado, até que este pesadelo acabe. E possamos, finalmente, discutir estas coisas tão sérias com seriedade.


 


Fernanda Câncio


 

19 dezembro 2012

Licor de pêra

 


Quando desci do escadote com o último frasco de cascas em aguardente, não antevi que eram de pêra. Mais precisamente as laranjas e marmelos travestiram-se de pêra-rocha. Nada de espanto que a hora é de acabar as prendas. Mais um fim de tarde envolta em perfume dionisíaco, a cor amarelo esverdeada do licor de pêra, excelentíssima variação inusitada.


 


Já está engarrafado e rolhado, mas os rótulos estavam a faltar. Depois de uma noite de descanso, veio a inspiração, desta vez mais nacionalista que politiqueira:


 


Da lentidão dos dedos

 


É verdade que tenho feito todos os esforços para me manter afastada de notícias. Desligo o Crespo, mudo de canal mal vislumbro a Ana Lourenço, retiro o volume à Judite de Sousa e a todos os (poucos e sempre os mesmos) convidados das várias actualidades televisivas. Ainda vou ouvindo a TSF mas a RFM tem ganho audiência no meu gabinete.


 


Mas as (más) notícias impõem-se como o céu de chuva deste inverno. Os massacres nas escolas do EUA são daquelas coisas que ultrapassam a minha capacidade de entendimento. Não consigo perceber que patologia individual e colectiva é esta que multiplica os tiroteios, ceifando crianças e jovens, em nome de quê ou para quê. Já vi filmes e documentários que abordam este assunto, mas permaneço obtusa.


 


Por cá continuamos com a depressão generalizada causada por um governo de alienados, por um Presidente que se demitiu (e ainda não se/nos deu conta disso) e uma oposição irrelevante.


 


Portugal entristece, envelhece e lentifica. A média etária da população está acima dos 50 anos, pelo menos nas filas das caixas dos supermercados, onde o tempo de ensacar, procurar o dinheiro e contá-lo se multiplicou pela dezena, com os entorpecidos dedos catando moedas, os entorpecidos olhos perscrutando-lhes o valor, a enervada mente fazendo contas. Nas lojas deambulam olhos mais ou menos gulosos em dieta acelerada. Muito antes do downsizing da gente mediática, já o país encolheu e continua a encolher. Abundam os novos e os antigos pobres. Ontem mesmo ouvi uma história de uma miúda que anda 12 Km a pé (6 à ida e 6 à vinda) para ir à escola, não traz almoço e ninguém lho dá. As reunites que atacam tantos docentes poderiam servir para a resolução deste problema. Mas a moda da sociedade civil é só para peditórios e declamações piedosas, não é para o dia a dia da solidariedade.


 


Pois, esqueci-me que a caridade é mais amorosa.


 

18 dezembro 2012

Quadras de Natal (3)

 



Stefano di Giovanni


 


Quero dar ao meu amor


um fio do meu cabelo


ternura branca de dor


rugas fundas em novelo.


 


Minha alma estendida


umas mãos cheias de nada


o resto da minha vida


a seu lado ancorada.


 


A doçura da romã


quero dar ao meu amado


o respirar da manhã


rumor do campo acordado.


 


Quando chegar o Natal


com a penúria enfeitada


em poeira de cristal


serei a noite encantada.


 


E enquanto o tempo quiser


serão meus braços seu manto


sempre que o céu mantiver


o tom cinzento de pranto.


 


E enquanto o tempo poisar


no ombro do nosso amor


nos dias que irão faltar


o mundo será melhor.


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...