A manifestação convocada através do facebook contra a troika - Que se lixe a troika! Queremos as nossas vidas! – está a ter grande adesão. É natural, pois as pessoas estão revoltadas e querem ir gritar para a rua, sentindo que não estão sozinhas e que há esperança na união da indignação. Parece-me, no entanto, que não é contra a troika que nos devemos manifestar.
Mal ou bem, o pedido de resgate internacional foi feito para acudir ao país, e a troika representa os nossos credores, que tiveram e têm condições, como todos os credores, a impor. Responsavelmente, país e governo que se prezem devem honrar os seus compromissos.
Por isso o problema não é a troika. O problema é da interpretação do memorando assinado com a troika e das medidas escolhidas pelo governo para que se atinjam as metas traçadas. Nesse sentido, por muito bem que faça às pessoas juntarem-se e vilipendiarem a troika, essa não é a forma de resolver o problema.
Este governo tem dois parceiros de coligação. Parece-me de todo inconcebível que os anúncios a que tivemos direito por parte do Primeiro-ministro e do Ministro das Finanças não tenham tido o acordo prévio do Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros. Se assim foi, não se consegue perceber a necessidade que Paulo Portas tem de se reunir com a comissão política do seu partido para se pronunciar sobre o assunto. Será que o inconcebível aconteceu? Ou Paulo Portas não se deu conta das consequências destas medidas?
António José Seguro foi chamado a S. Bento para um encontro confidencial com Passos Coelho. A evidência sugere que António José Seguro terá ficado a par do que se ia passar. Comprometeu-se a aceitar e foi por isso que reagiu apenas dois dias depois? Tal como o pedido de audiência urgente a Cavaco Silva, uma óbvia encenação mediática, será que também o líder do PS não se apercebeu do que se iria passar? Estas perguntas não são minhas mas de todos quantos tentam raciocinar e encontrar algum fio condutor em tudo isto.
O Presidente da República deveria exercer a sua tão propagandeada magistratura de influência, mostrando a Passos Coelho a revolta que não pode deixar de ser tida em conta. Mas o Presidente da República é alguém que se tornou, por culpa própria, totalmente irrelevante o que, no contexto actual, é mais um factor de instabilidade.
É no campo político que tudo deve ser resolvido. O CDS deverá assumir as responsabilidades perante o seu eleitorado, tal como o PS tem que sair da letargia e fazer mais que encenar estupores. Pede-se sentido de estado a todos os intervenientes. Pede-se a todos os cidadãos que percebam que é o governo que elegeram que conduz os destinos do país. É contra o PSD e o CDS que todas as manifestações devem ser dirigidas.
Nota: Não deixa de ser interessante ouvir tantos opinantes a descabelarem-se perante estas medidas que agora também afectam o sector privado, quando no ano anterior foram tão compreensivos para o confisco dos dois subsídios à função pública e aos reformados.