09 setembro 2012

Um dia como os outros (118)




(...) Há um caminho, não pode ser dito em voz alta, mas há um caminho definido: é preciso esmagar os salários, é fundamental empobrecer violentamente, sobre todos, quem trabalha por conta de outrem. O que é preciso é chegar a um limite em que cada um de nós estará disposto a trabalhar dezoito horas por uma côdea. Para que esse homem novo surja é preciso destruir a economia, criar ainda mais desemprego, forçar mais empresas a falir (a taxa de IVA para a restauração está a cumprir na íntegra a sua função, por exemplo) e depois da destruição total da economia, como por milagre, tudo será maravilhoso. (...)




Pedro Marques Lopes



Inação

 




border dynamics


Alberto Morachis


Guadalupe Serrano


 


Meço a rotina pelas pedras da calçada


endireito os ombros que se curvam


na directa proporção


da solidão.


 


Aprendo a angústia pelo caminho que se desfaz


e nas poucas árvores onde descansam sombras.


Não há mais esperas que sustenham


esta imparável queda para a inacção.

Da vacuidade do discurso

 



 


Ao fim deste tempo todo, o líder do maior partido da oposição, num discurso com 18 páginas, proferido numa iniciativa partidária, resolveu dignar-se a expor-nos o seu pensamento sobre as medidas anunciadas na 6ª feira pelo Primeiro-ministro. Aconteceu à página 8:


Meus caros camaradas e amigos.


Quero ainda referir-me à comunicação que o PM fez ao país.


 


Na pág. 14 somos esclarecidos:


Quero afiançar aos portugueses que não somos, nem seremos cúmplices das opções políticas erradas do actual Governo.


 


Portanto, António José Seguro não achou necessário agendar uma comunicação ao país acerca deste assunto. Envelopou-a numa enorme quantidade de lugares-comuns, num evento em decurso. Assim se percebe a importância que para ele representam estas medidas. Para além disso, ninguém ficou a saber o significado da enigmática expressão não ser cúmplice.


 


António José Seguro deve, de imediato, ser deposto como líder do PS. Ou o PS será deposto pela população portuguesa.


 


Nota: Escaparam-me estas diplomacias:


O PS “opõe-se ao conjunto destas medidas e ao que elas significam”. (pág. 13)


(...) É tempo de separar as águas de um modo ainda mais claro. (pág. 14)


(...) Este não é o nosso caminho. O PS não pode pactuar com um caminho que discorda e que tem combatido. Assim não!
O Governo não muda. Esticou a corda e o PS prefere, com toda a clareza e normalidade, um caminho alternativo. (pág. 14)



Inverno


Astor Piazzolla & Pitango Quartet

Quatro Estações - Inverno Portenho

Da brutalidade do silêncio

 



 


Do líder do PS, António José Seguro, nem uma palavra. Uma entrevista, uma conferência de imprensa, um discurso, algo que nos esclareça sobre o que pensa das medidas anunciadas por Passos Coelho, quais as alternativas que preconiza, qual a atitude do PS na Assembleia, como canalizará a descrença, o medo e a angústia de todos os que sentem, dia a dia, a esperança a morrer.


 


O PS não pode continuar à espera do António José Seguro desaparecido, em estupor ou coma, sem a mais pequena noção de que o seu silêncio faz engrossar as fileiras daqueles que se levantarão em raiva e ira, sem querer saber de liberdades, direitos e garantias, sem querer saber da democracia, apenas ansiando por uma réstia de segurança na vida, por escassa que seja. Não é possível que o partido charneira em todos estes anos de democracia se mostre acossado e encurralado pela total incapacidade do seu líder.

08 setembro 2012

A falta de vergonha...

 



 


... não tem mesmo limites.

Da urgência da mudança







(…) O que propomos é um contributo equitativo, um esforço de todos por um objectivo comum, como exige o Tribunal Constitucional. Mas um contributo equitativo e um esforço comum que nos levem em conjunto para cima, e não uma falsa e cega igualdade que nos arraste a todos para baixo. O orçamento para 2013 alargará o contributo para os encargos públicos com o nosso processo de ajustamento aos trabalhadores do sector privado, mas este alargamento tem directamente por objectivo combater o crescimento do desemprego. Como sabemos, é esta a grande ameaça à nossa recuperação e é esta a principal fonte de angústia das famílias portuguesas. Foi com este duplo propósito que o Governo decidiu aumentar a contribuição para a Segurança Social exigida aos trabalhadores do sector privado para 18 por cento, o que nos permitirá, em contrapartida, descer a contribuição exigida às empresas também para 18 por cento. Faremos assim descer substancialmente os custos que oneram o trabalho, alterando os incentivos ao investimento e à criação de emprego. E fá-lo-emos numa altura em que a situação financeira de muitas das nossas empresas é muito frágil.


 


A subida de 7 pontos percentuais na contribuição dos trabalhadores será igualmente aplicável aos funcionários públicos e substitui o corte de um dos subsídios decidido há um ano. O subsídio reposto será distribuído pelos doze meses de salário para acudir mais rapidamente às necessidades de gestão do orçamento familiar dos que auferem estes rendimentos. Neste sentido, o rendimento mensal disponível dos trabalhadores do sector público não será, por isso, alterado relativamente a este ano. O corte do segundo subsídio é mantido nos termos já definidos na Lei do Orçamento de Estado para 2012. No caso dos pensionistas e reformados, o corte dos dois subsídios permanecerá em vigor. A duração da suspensão dos subsídios, tanto no caso dos funcionários públicos, como no dos pensionistas e reformados, continuará a ser determinada pelo período de vigência do Programa de Assistência Económica e Financeira. (…)


 


Não assisti ao discurso de Passos Coelho. Quando saí do serviço já só se ouvia, na rádio, o relato de mais um encontro de futebol. Mas as palavras do Primeiro-ministro estão disponíveis para quem se quiser informar. O sumo do que disse resume-se a isto: para o ano manter-se-á o confisco de 14,2% do ordenado dos funcionários públicos, dos reformados e dos pensionistas, e ainda de 7,1% dos ordenados de quem trabalha para o sector privado.


 


Estas últimas medidas apenas aprofundarão mais a recessão, o desemprego e a penúria de quem mais empobreceu, aumentarão a fuga aos impostos e a economia paralela. Na tentativa de aproveitamento da decisão do Tribunal Constitucional, o governo subverte essa mesma decisão (como, infelizmente, era de prever), para aumentar ainda mais a tributação dos já mil vezes tributados.


 


Acredito profundamente na democracia. Estou convicta de que, democraticamente, este governo será considerado um fracasso, será avaliado pelo desastre que tem causado, pela inacreditável continuação cega de uma política que já demonstrou à saciedade que não resulta. Espero que os nossos representantes na Assembleia da República, o líder do PS, o Presidente da República, cumpram o mandato que têm para se insurgirem contra mais estas medidas. Espero manifestações, artigos, opiniões de quem tem a obrigação de zelar pelo bem público, pelo interesse dos cidadãos. Espero recursos ao Tribunal Constitucional, espero alternativas de poder dentro do PS, alternativas ao poder vigente, para que haja um movimento contrário ao desta maioria.


 


Acredito profundamente no regime democrático e, dentro dele, espero que o PS não negue o seu passado e que construa uma verdadeira alternativa para que a situação não se deteriore mais do que já está. As tensões sociais e o desespero encontrarão um caminho. Cabe aos partidos democráticos serem capazes de serem esse caminho. Todos somos chamados a participar.


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...