09 junho 2012

A vez da Espanha

 


Segundo todos os jornais, a Espanha está a horas de um pedido de resgate financeiro, após inúmeras negações repetidas pelo seu Primeiro-ministro, no poder há cerca de 6 meses, tal como aconteceu a Portugal, também após inúmeras declarações de Sócrates, negando a necessidade de recurso a uma intervenção externa.


 


Gostava de ouvir os defensores da intervenção do FMI a Portugal, que usaram a teimosia do governo socialista como arma de arremesso e justificação para a crise política que levou à realização de eleições antecipadas, o coro de insultos que se ouviram e leram em relação a Sócrates e a Teixeira dos Santos, os culpados da inevitável intervenção a tão mal governado país, explicarem esta incongruência.


 


Rajoy não é mentiroso, nem está delirante, é totalmente a favor de austeridades e minimização das funções do estado, é um homem às direitas. Como é que é possível os mercados terem-se voltado consistentemente contra Espanha?


 


Os países europeus, principalmente aqueles que aceitaram ser apelidados de preguiçosos, mentirosos, gastadores, etc., aqueles que foram aceitando que o poder político fosse substituído por pressão do poder económico, principalmente aqueles que aceitaram que quem decide na união europeia é a Alemanha, olham para a destruição de um projecto de cooperação, de paz e de bem-estar social, conformados.


 


Quando se fazem análises históricas aos grandes conflitos europeus e aos seus primórdios, custa a perceber que tudo estava à vista e ninguém conseguir perceber. Estamos outra vez na mesma. De fato a História repete-se pela cegueira que impede os líderes dos povos reconhecerem evidentes sinais de alarme.


 

07 junho 2012

Da inutilidade dos impostos

 


É cada vez mais difícil perceber a razão da cobrança de impostos que, por sua vez, são cada vez mais altos. A segurança social, a saúde e a educação deixaram de ser um direito para todos. A opção pelo estado mínimo resulta num estado que deixou de assumir como seus a obrigatoriedade de prover esses serviços públicos.


 


Neste momento já há acesso condicionado pelos rendimentos aos serviços de saúde e ao ensino superior – há pessoas que não se tratam porque não têm dinheiro; há pessoas que não vão para a universidade, ou que a deixam, porque não têm dinheiro.


 


Nas comissões parlamentares alguns deputados horrorizam-se com o dinheiro despendido na remodelação das escolas públicas. Para eles quem recorre ao ensino público não tem direito a instalações desenhadas por arquitectos de renome, não tem direito a energias limpas, não tem direito a tecnologias de informação de ponta, a pinturas nas paredes, a pátios e cantinas de grande qualidade.


 


A noção do estado pequeno, pobre, mínimo, medíocre, é herdada do moralismo espartano que regressa. Em vez dos impostos contribuírem para a inovação, para a investigação, para o que de melhor há em termos de práticas, de tecnologias, de procedimentos, em vez de termos um estado exigente, que recrute os melhores, que lhes dê condições de trabalho dignas e incentivadoras, em vez de termos um estado que sirva de exemplo em todas as áreas, temos serviços públicos à medida da pobreza crescente, do desinvestimento na igualdade de oportunidades, da marginalização dos mais fracos.


 

06 junho 2012

Cidades e rios (4)

 


Nada mais apaixonante do que olhar as cidades pelos leitos dos rios, verdadeiras vasos de sangue arterial e venoso, que as mantém vivas e comunicantes, que as defendem e as vulnerabilizam, que contém a capacidade quase eterna de crescimento e morte, em ciclos que se repetem dentro de cada um dos seus habitantes.


 



Sevilha – rio Guadalquivir


 


 



Leiden – rio Reno Velho


 


 



Londres - rio Tamisa


 


 



Florença - rio Arno


 


 



Bordéus - rio Garonne


Cidades e rios (3)

 


As cidades são corpos que respiram, pensam e sentem, com centros nevrálgicos de poder, muralhas, portas com defesas, fossos profundos e estradas. Maiores estradas e mais hipnotizantes são os rios que as atravessam, que as dividem ou conduzem, que lhe apoiam a vida e lhes desfazem os exílios.


 


 



Coimbra - rio Mondego


 


 


 


Toledo - rio Tejo


 


 



Kassel - rio Fulda


 


 



Praga - rio Vltava


 

Cidades e rios (2)

 


Sem essa água de libertação, de desprendimento, de concentração em outra lonjura, sem essa capacidade de navegar para outros lados, nunca seria possível a saudade, o distanciamento, a loucura de manter pontes, de atravessar roturas, de caminhar para mais experiências, para mais futuros, para mais eus, divididos e assimétricos, nas expectativas de nós e de outros.


 



Graz – rio Mur


 


 



Madrid - rio Manzanares


 


 



Porto - rio Douro


 


 



Basileia - rio Reno


 


 

Cidades e rios (1)


 


Alguma coisa nos deve dividir, simétrica ou assimetricamente. Alguma coisa nos divide o cérebro, a lateralidade. Alguma coisa de essencial neste meio de mielina ou de espelho, alguma coisa de virtude, alguma rota de fuga. Cada uma das encostas inclinadas para o meio, para o fluxo, para o rio, para a foz.


 




Lisboa - rio Tejo



 




Roma - rio Tibre



 



Paris – rio Sena



 



Viena – Rio Danúbio


 


 

Da regressão nos direitos sociais

 


O SNS foi fundado há há 33 anos. Durante estas 3 décadas foi possível garantir a toda a população um serviço público de grande qualidade, como o provam os indicadores de saúde internacionalmente aceites. O SNS afirma-se como um pilar de um dos direitos sociais fundados com a nossa democracia, que hoje são indissociáveis do conceito de uma sociedade livre, justa e democrática.


 


Uma das razões para o sucesso do SNS e da garantia a cuidados diferenciados de saúde, conforme o estado da arte, foi a implementação das carreiras médicas, estruturada em graus, ao longo da qual era possível ir adquirindo mais diferenciação e mais experiência, numa organização de trabalho de equipas, em que fazia parte do trabalho assistencial a formação contínua e dos mais jovens, a medicina tutelada para quem ainda estava em formação, a actualização de conhecimentos e a investigação médica.


 


É claro que o mundo mudou nestes 33 anos. Aumentaram os recursos tecnológicos, aumentou a a capacidade de diagnóstico e terapêutica, mudaram os conceitos de qualidade de vida, de promoção de saúde, passamos ao conceito de medicina personalizada. Por outro lado, as alterações demográficas, as mudanças na distribuição pelo território, as crises internacionais, forçam-nos a reformar, reorganizar, optimizar os recursos, para podermos tratar cada vez mais e melhor, com mais eficácia e menos desperdício.


 


Por isso tenho defendido publicamente todas as medidas que julgo indispensáveis para a indispensável reforma do SNS - a reforma e melhoria dos cuidados primários de saúde, a reorganização da carta hospitalar, a reorganização dos serviços hospitalares, com concentração, referenciação e mobilidade dos profissionais, a implementação de guidelines terapêuticos  e de procedimentos de diagnóstico, a prescrição por DCI, a implementação do processo clínico electrónico, a implementação da exclusividade obrigatória, a revisão dos horários de trabalho, o controlo de assiduidade, a avaliação do desempenho, a reforma da remuneração com plataformas fixas e prémios por desempenho, devidamente enquadradas em competência técnica e humana. Muito há para fazer.


 


Mas o que este governo fez, primeiro com a revisão das taxas moderadoras e, agora, com o definitivo enterro das carreiras médicas, é destruir o próprio conceito de um SNS, acabando com a equidade do acesso aos cuidados e com a garantia de uma prestação de qualidade, para quem tiver que recorrer ao serviço público.


 


Subscrevo na totalidade este comunicado do Sindicato Independente dos Médicos. Quem tanto clamou em defesa do SNS sem razão, no tempo de Correia de Campos, pois que levante a sua voz agora, em que se assiste, pelos vistos com a tal paciência elogiada por Passos Coelho, ao seu fim.


 


Não sei se há ainda alguém iludido com as imposições da Troika. Estas opções, tal como as tomadas no domínio da escola pública, são ideológicas. Legítimas, mas opções desta maioria que nos governa. Temos no poder duas forças políticas cuja ideologia não contempla a universalidade dos direitos à saúde, à educação e à segurança social.


Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...