11 abril 2012

Imobilismo

 



 


Mais uma vez se estão a unir as forças mais conservadoras da sociedade com o populismo e a demagogia de alguns atores políticos, a propósito do anunciado fecho da Maternidade Alfredo da Costa.


 


Com a redução acentuada da natalidade, como é possível continuar a defender a manutenção de 7 maternidades na área da Grande Lisboa - Maternidade Alfredo da Costa, Hospitais de Santa Maria, São Francisco Xavier, Fernando Fonseca, de Cascais, Beatriz Ângelo e Garcia de Orta? Não será mais importante assegurar que as parturientes e os recém-nascidos tenham equipas suficientes, competentes e com experiência, transportes rápidos e confortáveis, serviços de bem equipados para uma assistência de qualidade?


 


Aquilo a que se assiste é exactamente ao mesmo a que se assistiu aquando da reorganização das urgências no tempo de Correia de Campos. O facto da Maternidade Alfredo da Costa ter sido o local de nascimento de milhares ou milhões de Lisboetas não pode ser a única razão para a manter aberta. A optimização dos recursos e a defesa de partos em segurança deve ser o objectivo de qualquer política de saúde e de qualquer governo.


 


O fantasma do desmantelamento do SNS surge de imediato, sempre que se começa a tentar mexer nalguma coisa. O imobilismno e a manutenção do status quo são a pior forma de o defender.

08 abril 2012

Almoço pascal

 



 


Tenho uma queda acentuada para o disparate, mesmo quando pretendo seguir à risca as pisadas dos rituais domésticos, familiares, de enraizamento social e místico-urbano-cético-religioso. Cabrito assado não é coisa para principiantes. Matrona cinquentona não se amedronta por tão pouco. Meio cabrito (cerca de 3 Kg) esquartejado, um rim, a cabeça pela metade (o que bastante me atormenta, com miolos à mostra), de marinada em vinho branco e tinto, um pouco de vinagre, muito alho, tomilho, alecrim, pimenta moída, pasta de pimentão (marca pingo-doce), sal e azeite, de um dia (ontem à tarde) para o outro (hoje até às 11.30h).


 


Mas a minha ambição culinária, que só cresceu desmesuradamente após horas de MasterChef Austrália, não se ficou pelo prato principal. Na calha estava torta com recheio de ovos, pedido especial cá de casa (penso que acharam que era melhor jogar pelo seguro).


 


O despacho é a chave da boa cozinheira. Forno a aquecer a meio-gás; calda de açúcar (200g de açúcar para 100ml de água) a adquirir ponto ao lume, com um pau de canela; 6 gemas e 2 claras misturadas com uma colher de pau – tudo a andar e bem controlado. Subitamente apercebo-me que o ponto pérola se transformou em pedregulho espesso e borbulhante. Retiro o tacho do lume e, muito cuidadosamente, começo a verter a pasta de ovos. De imediato cozeram, não em fios mas em meadas. Suspendo a função e resolvo que é necessário juntar água. Mal coloquei um bocadinho…. deu-se a solidificação repentina e irreversível do preparado, que se transformou num cimento esbranquiçado.


 


Na natureza nada se perde, tudo se transforma – ao lume outra vez, com mais um bocadinho de água. Lá ferveu em ponto de pérola. Retirei do lume e deixei arrefecer, enquanto pincelava a forma da torta com manteiga e polvilhava de farinha. Só que havia um ligeiríssimo contratempo: a farinha era pouca para a torta. Nada que me fizesse desistir desta empreitada. Escorripichei os bocados de farinha de trigo, de milho e maisena, conseguindo angariar os 75g para os 150g de açúcar e os 3 ovos que bati até tudo ficar cremoso.


 


Massa para a forma, no forno durante 10 minutos. O tempo à justa para tentar, de novo, misturar os ovos com a calda já mais no ponto que lhe competia. Desta vez correu bem. Mas tive que passar tudo por um passador, depois de ter engrossado ao lume. Depois da massa cozida, deitei-a para um pano com açúcar, pintei-a com o recheio de ovos e enrolei-a. Mas a massa não cooperou e partiu-se por 2 vezes. O aspeto, portanto, não era dos melhores.


 


O cabrito foi assar no tabuleiro do forno, com a marinada, 4 bocados de banha e regado com xarope de ácer, onde permaneceu por 1:30h,voltado sobre si mesmo por 2 vezes (de 30 em 30 minutos). As batatinhas com casca, meio cozidas já antes de se lhe juntarem, assaram por 15 minutos. Acompanhei ainda com brócolos, porque não encontrei couves de Bruxelas. Do dia anterior tinha sobrado meia travessa de tigelada (6 ovos batidos com 250g de açúcar e 2 colheres chá de canela em pó, aos quais se junta 500ml de leite aquecido com casca de 1 limão e 1 pau de canela, a cozer no forno alto – máximo - durante 45 min numa tigela grande, de barro vidrado, de preferência, já aquecida e sem retirar do forno).


 


Custou mas valeu a pena – iguarias dignas das mais seletas e sofisticadas casas de família, com décadas, para não dizer séculos, de tradição, regadas a vinho - do tinto (Châteauneuf-du-Pape) - a preceito. Enfim, um almoço bem burguês, nada a ver com a síntese revolucionária de uma mente revoltada e em crise, a fazer jus à época das trevas que atravessamos.


 

07 abril 2012

Instabilidade política

 



 


É muito importante que o PS, como partido de esquerda e garante de uma forma humanista de olhar para a sociedade, dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos, obreiro da tolerância e do respeito democráticos, defensor da modernidade e do bem-estar social, se prepare para ser chamado a governar, de novo, em circunstâncias de grande revolta social e penúria económica.


 


A subida desta maioria ao poder foi resultado, para além de vários erros do governo anterior, como é óbvio, de campanhas de manipulação informativa, de coligações de interesses que se vai mostrando, à medida que se percebem as falsidades de que o governo se serve para impor o seu modelo económico e social. À medida que o tempo passa vão-se desvendando as consequências da política seguida. Se, tal como tantos tinham avisado e como, parece que já o Primeiro-ministro reconhece, o além do memorando não resultar, será muito provável que a agitação e a instabilidade, frutos do desemprego, pobreza e falta de perspectivas de futuro, provoquem a rotura da coligação governamental e a necessidade de novas eleições.


 


É indispensável que o PS se defina como alternativa, explique o que faria diferente, mesmo respeitando os acordos com os credores, o que reivindicariam e qual a capacidade para conseguir mudar, nacional e internacionalmente, esta Europa imperial.


 

Da poesia (edição) doméstica (pela metade)

 



 


Talvez porque só editoras quase domésticas se arriscaram a publicar o que escrevo, penso que o motivo da grande dificuldade dos novos (desconhecidos) autores passarem da clandestinidade não se prende apenas com a dificuldade de distribuição e exposição. Na verdade o mundo dos livros e da literatura é hermético e avesso às novidades. Aos autores que vão aparecendo é-lhes praticamente vedado o acesso à crítica e à discussão da sua escrita.


 


Sejam eles a autores consagrados, a estudiosos, académicos ou jornalistas, em blogues individuais, colectivos, dedicados à literatura ou generalistas, os pedidos à apreciação de obras a editar ou a solicitação para participar em tertúlias, colóquios, entrevistas ou outras formas de divulgação crítica das obras, autores ou projectos editoriais, são, na quase totalidade das vezes, pura e simplesmente ignorados.


 


É claro que há críticas incompreensíveis e livros que fariam melhor em reservar-se à intimidade dos pequenos núcleos sociais onde cada um de nós se insere. Por outro lado também há opiniões que será melhor ignorar, de tão descabidas, pela crueldade ou pelo exagero da lisonja. Mas os vários grupos de autores, editores, jornalistas e críticos vivem em círculos fechados, entrecruzando-se e falando para dentro, uns com os outros e uns para os outros, sem tolerância ou vontade de integrar quem não é do meio, seja pela qualidade ou pelos contactos estratégicos.


 


Serão as minhas ideias e palavras movidas pelo azedume, inveja ou despeito? Quem ler decidirá.


 

Dos limites

 



Motanka


Yulia Podolska


 


É uma questão de traçar uma linha limite. Há quem não a sinta necessária, quem nunca a tenha imaginado, quem a tenha presente em traço grosso e em relevo e quem a vá apagando, lentamente, dia a dia, até já não ser possível detetá-la. Hoje encontra-se justificação para uma mentira piedosa, amanhã defende-se uma história lendária, depois de amanhã não se distingue a realidade da ficção. A ética não é moralismo nem se exigem qualidades angelicais e férreas a quem é inteiro e vive a vida com as qualidades e os defeitos, os enganos e as vitórias, a dolorosa aprendizagem de errar e tentar acertar. Mas não se pode olhar permanentemente para o lado, transigindo naquilo que tem consequências, mesmo que mínimas ou apenas prováveis, não para o próprio mas para a comunidade.


 


A corrente populista que tentou fazer passar uma lei inconstitucional, que volta do avesso uma conquista civilizacional invertendo o ónus da prova, julgando culpado quem não é capaz de se provar como inocente, é o corolário da hipocrisia de uma classe política em que, cada vez mais, menos nos revemos. No Parlamento apena o PS votou contra a dita lei. Os nossos representantes fizeram eco da onda pseudo deontológica que varre a os valores da verdadeira justiça num retrocesso inquisitorial.


 


E no entanto todos temos conhecimento de situações pouco claras, de comportamentos reprováveis, de pequenas e grandes fraudes que, por interesse, compadrio ou corporativismo impedem os responsáveis de atuar, sendo cúmplices de situações que desmotivam, desmoralizam e impossibilitam a defesa das instituições, dos dinheiros públicos, da segurança, da tão propagandeada mas tão pouco servida causa pública.


 


A primeira e mais importante medida contra a corrupção não é perseguir pecadilhos de juventude mas sim, em cada pequena decisão que se toma, ter a obrigação e o cuidado de distinguir se o seu resultado serve ou prejudica os cidadãos. Exigir de cada um de nós, em todas as funções desempenhadas, em cada dia de trabalho, aquilo que queremos dos nossos representantes: rigor, competência, verdade e equidade. É ter presente o limite, essa linha imaginária que separa a tolerância da negligência, o erro da fraude. É saber que por muitos matizes que tenha o cinzento, há extremos de branco e de negro.


 

06 abril 2012

Stabat Mater Dolorosa


Margaret Walker & Jessica Dandy


 


Stabat mater dolorosa
juxta Crucem lacrimosa,
dum pendebat Filius.


 


Cuius animam gementem,
contristatam et dolentem
pertransivit gladius.


 


O quam tristis et afflicta
fuit illa benedicta,
mater Unigeniti!


 


Quae moerebat et dolebat,
pia Mater, dum videbat
nati poenas inclyti.


 


Quis est homo qui non fleret,
matrem Christi si videret
in tanto supplicio?


 


Quis non posset contristari
Christi Matrem contemplari
dolentem cum Filio?


 


Pro peccatis suae gentis
vidit Iesum in tormentis,
et flagellis subditum.


 


Vidit suum dulcem Natum
moriendo desolatum,
dum emisit spiritum.


 


Eia, Mater, fons amoris
me sentire vim doloris
fac, ut tecum lugeam.


 


Fac, ut ardeat cor meum
in amando Christum Deum
ut sibi complaceam.


 


Sancta Mater, istud agas,
crucifixi fige plagas
cordi meo valide.


 


Tui Nati vulnerati,
tam dignati pro me pati,
poenas mecum divide.


 


Fac me tecum pie flere,
crucifixo condolere,
donec ego vixero.


 


Juxta Crucem tecum stare,
et me tibi sociare
in planctu desidero.


 


Virgo virginum praeclara,
mihi iam non sis amara,
fac me tecum plangere.


 


Fac, ut portem Christi mortem,
passionis fac consortem,
et plagas recolere.


 


Fac me plagis vulnerari,
fac me Cruce inebriari,
et cruore Filii.


 


Flammis ne urar succensus,
per te, Virgo, sim defensus
in die iudicii.


 


Christe, cum sit hinc exire,
da per Matrem me venire
ad palmam victoriae.


 


Quando corpus morietur,
fac, ut animae donetur
paradisi gloria. Amen.


 


Jacopone da Todi - Stabat Mater Dolorosa


Calvário

 



Salvador Dali 


 


Temos uma Páscoa mais virada para sexta-feira que para domingo. Pouca a santidade e nenhuma ressurreição.


 


Esperam-nos longos meses de penúria, entristecimento e regresso à triste sina. O PS contorce-se em penitência de perdedor. Faltam ideias, faltam soluções, faltam alternativas. Esperam-nos longos meses de calvário.


 


Esta é a direita a governar. Esta é a direita que a esquerda deixa governar.


 

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